26 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (IV)

IV. BENTO XVI E O ISLÃO

Algo disto tem-se reflectido nas declarações de Bento XVI ao propósito do Islão, sempre caracterizadas pela tensão das semelhanças e diferenças entre cristãos e muçulmanos. Evidentemente, convém situar isto tudo no seu contexto específico: um encaixe difícil das duas grandes religiões da pós-modernidade, que tem levado o Cristianismo a um debate centrado na Nova Evangelização como estratégia para encontrar ou preservar um lugar num ambiente vivido como não necessariamente acolhedor; e que tem conduzido o Islão à discussão acerca do islamismo político enquanto possível estratégia identitária num mundo globalizado que ameaça com ocidentalizar tudo. Em definitiva, tanto para Bento XVI como para as autoridades do Islão, uma questão chave passou a ser a do lugar dos crentes numa sociedade secularizada e intercultural.

Aliás, no seu livro de entrevistas com Peter Seewald titulado La sal de la tierra (2005), Bento XVI faz um resumo da sua visão panorâmica do Islão como sendo uma religião com uma concepção da vida distinta da do Cristianismo, caracterizada pela rigidez e pela falta de adaptação ao mundo moderno. Mas no dia 20 de Agosto do mesmo ano 2005, num encontro com dirigentes islâmicos por ocasião da XX Jornada Mundial da Juventude de Colónia, Bento XVI coloca a relação entre Cristianismo e Islão mais a partir do respeito às respectivas identidades, a reconciliação e a defesa da liberdade religiosa, assim como a necessidade vital do trabalho em comum perante os reptos mundiais. Emergem já aqui os dois grandes eixos da sua posição perante o diálogo inter-religioso: a identidade religiosa e a liberdade religiosa.

No dia 12 de Setembro de 2006, Bento XVI dita em Ratisbona uma conferência intitulada “Fé, Razão e Universidade” na qual alguns creram ver uma disjuntiva entre um Cristianismo dialogante graças ao vínculo que estabelece entre fé e razão e um Islão violento que tentaria impor-se através da guerra santa. Isto provocou revoltas, protestos de todo o tipo (o assassínio da irmã Leonella Sgorbati en Mogadíscio) e exigências de desculpas públicas. A reacção do Vaticano consistiu em convocar os embaixadores dos Estados islâmicos no dia 25 de Setembro com a finalidade de explicitar que os protestos estavam a ser injustificados e que a intenção de Bento XVI era situar o debate num contexto estritamente académico.

Pouco depois, no 28-29 de Novembro de 2006, Bento XVI visita a Turquia num ambiente deteriorado ainda pelas declarações de Ratisbona e pela repetida negativa do Papa ao ingresso da Turquia na União Europeia. Perante as acusações de olhar etnocêntrico acerca do Islão, Bento XVI opta por uma estratégia distinta à utilizada na Alemanha: no seu primeiro discurso, glosa a tradicional defesa que os governadores islâmicos fizeram das minorias cristãs presentes nos seus territórios e, durante a visita à Mesquita Azul, detém-se diante o mihrab que aponta em direcção à Meca e durante uns instantes reza para que os crentes dêem testemunho de verdadeira fraternidade. Também não faltou a visita ao mausoléu de Atatürk, pai da nação turca e símbolo da laicidade do Estado, onde as palavras do Papa foram objecto de especial atenção, dado que ainda ressoava o protesto de Bento XVI pela não inclusão da referência às raízes cristãs no projecto de Constituição Europeia.

Algo parecido aconteceu com motivo da visita de Bento XVI ao Oriente Próximo entre o dia 8-15- de Maio de 2009, com escala em Jordânia, Palestina e Israel. Tratou-se duma peregrinação às origens do cristianismo com um profundo sentido identitário e contínuos apelos ao dever dos cristãos de preservarem a sua fé quando forem uma minoria social. Como fizera na Turquia, aqui Bento XVI também visitou a mesquita do rei Hussein Bin Talal, onde advertiu contra aqueles que incentivam a violência exagerando as diferenças entre cristãos e muçulmanos. Para além disso, por ocasião da bênção da primeira pedra da universidade católica de Madaba, Bento XVI elogiou os esforços da família real jordana em favor do diálogo inter-religioso. Logo a seguir, no difícil ambiente do conflito israelito-palestiniano, o Papa advogou pela paz entre crentes na sua visita à mesquita al-Aqsa e no campo de refugiados de Aida.

Podemos entender melhor estes matizes todos se abrirmos a objectiva para obter uma panorâmica mais ampla daquilo que está em debate. No dia 6 de Novembro de 2007 aconteceu um facto duma transcendência enorme: o rei Abdallah de Arábia Saudita, guardião dos Lugares Santos do Islão, visitou o Vaticano. Não houve quem não reparasse na importância desta visita do máximo dirigente do reino wahhabita, acusado de auspiciar atentados islamistas contra interesses ocidentais e que agora queria apresentar-se como sendo um dos adaís do diálogo de civilizações. Um exemplo desta mudança de atitude teve lugar no dia 24 de Março de 2008, dia do baptismo de Magdi Allam, jornalista italiano de origem egípcia, conhecido pelas suas virulentas críticas islamófobas. O facto de o evento ser presidido por Bento XVI provocou reacções iradas nalguns sectores do Islão, mas o rei Abdallah reagiu no mesmo dia convidando o Vaticano a participar numas jornadas de diálogo intercultural e inter-religioso para a promoção da paz.

Aliás, em Junho de 2008 foi convocada em Meca uma reunião da Conferência Internacional Islâmica que devia preparar o Congresso Internacional para o Diálogo, que teve lugar em Madrid entre o 16-18 de Julho do mesmo ano. Em realidade, o Congresso não abordou a temática inter-religiosa, antes o posicionamento das grandes religiões perante reptos como as relações internacionais, o meio ambiente, a droga ou a corrupção, e em momento nenhum se tratou da liberdade religiosa ou do respeito à diversidade. Tal como mencionou o cardeal Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, tratava-se duma opção pela realpolitik: o Vaticano evitava entrar no debate teológico e dogmático com a finalidade de não lidar com possíveis críticas tais como as derivadas da conferência de Ratisbona, enquanto que a máxima autoridade do wahhabismo se esforçava por mostrar à opinião pública internacional o rosto dum Islão tolerante e pacífico.

Porém, segundo o nosso parecer, têm muito mais futuro as seguintes iniciativas, que têm inaugurado uma nova dinâmica que convida ao optimismo. No dia 18 de Outubro de 2006, isto é, poucas semanas depois da polémica conferência de Ratisbona, o príncipe Ghazi bin Muhammad, presidente do Instituto ´Aal al-Bayt de Jordânia, auspiciou a redacção duma carta dirigida ao Papa e assinada por 38 governantes do mundo islâmico. Esta carta recuperou, com a intenção de os criticar, os sete aspectos que Bento XVI destacara em Ratisbona a propósito do Islão: a ausência de coacção na religião, a transcendência de Deus, a função do Logos, a guerra santa, a conversão forçada, a ideia de renovação espiritual e o estatuto dos especialistas religiosos.

Não houve reacção do Vaticano a esta carta, mas exactamente um ano depois, no dia 11 de Outubro de 2007, foi enviada outra carta dirigida a Bento XVI (“Uma palavra comum entre vós e nós”), esta vez assinada inicialmente por 138 governantes, entre os quais havia bastantes cristãos. Ainda que em continuidade com a carta anterior, esta outra não procura introduzir matizes entre as duas religiões, mas acentuar as possibilidades implícitas na base teológica do Islão e do Cristianismo: o amor a Deus e o amor ao próximo. Deste modo, recorrendo à mensagem partilhada dos respectivos textos sagrados, os autores da carta aspiravam a envolver os adeptos das duas religiões numa nova dinâmica de diálogo. Aqui já não havia olhares tendenciosos para com a alteridade religiosa, tinham-se eliminado os estereótipos e os preconceitos que não favorecem a mútua aceitação, e destacava-se em exclusiva a apelação ao compromisso humanitário.

Desta vez já houve reacção do Vaticano. A resposta favorável de Bento XVI propiciou uma primeira reunião com uma delegação de cinco elementos assinantes da carta do 4-5 de Março de 2008. Resolveu-se criar uma comissão mista para debater acerca dos principais pontos do diálogo islámico-cristão. A 4-6 de Novembro de 2008, foi assinada uma Carta de Direitos para cristãos e muçulmanos. Desde então, diferentes reuniões têm trabalhado acerca das implicações teológicas da liberdade de consciência religiosa, a violência exercida em nome de Deus ou da religião, e o respeito entre os crentes de distintas religiões.

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

4 comentários:

Anónimo disse...

O "verbo da verdade" encontra a "palavra que revela deus".

Anónimo disse...

Verbo e palavra, mais próximo do mito do que da carne.

Anónimo disse...

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