27 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (V, e último)

V. O IMPERATIVO DO MEMORIAL: A TEOLOGIA ENQUANTO RESISTÊNCIA A AMNESIA

O drama do 11-S provocou em muitas consciências um forte impacto. Foram muitos os que se deixaram levar pela voragem duma espiral de violência que ainda não sabemos nem aonde nos conduzirá nem quando acabará; mas este drama fez reflectir à maioria acerca das causas que nos levaram até aqui e, sobre tudo, a se perguntar o que era preciso fazer a partir desse preciso instante. Neste sentido, perguntávamo-nos no início se é que a Teologia tinha algo a dizer após o 11-S. Se a teologia se auto-compreende como sendo um esforço para termos os olhos bem abertos à realidade, não pode dar por óbvio em absoluto a história da paixão da humanidade. A Teologia deve ajudar a manter a conexão entre a memória e o esquecimento, com o fim de manter a sua condição de comunidade de transmissão de sentido.

Nunca se pode perder de vista que a obrigação da Teologia é perguntar-se qual a resposta de Deus à escuridão da dor humana, e contribuir assim a pôr fim ao clamor dos que sofrem. O sofrimento que resulta da violência converte-se numa provocação religiosa e, sendo que perturba a tendência do crente à acomodação tranquila, força à compaixão. Dado que, no fim, o terreno no qual a Teologia é competente é o da história da paixão/compaixão humanas. Não amnésia contemporizadora, mas sim reclamação de justiça para todos os vencidos pela dinâmica da história; não discursos vazios, mas sim interpelação que aspira a suscitar uma resposta; não cansaço ou surdez perante a queixa, mas sim persistência utópica numa solidariedade que recusa a paralisia; não narcisismos auto-complacentes que convidam à reclusão reconfortante na própria intimidade, mas sim a denúncia profética que apela ao testemunho da esperança que não desfalece.

Se a Teologia não tiver em conta as catástrofes provocadas em nome de Deus e da religião, se se centrar somente naquilo que a humanidade já conseguiu e esquecer tudo aquilo que foi destruído de caminho, perde a sua capacidade de transmitir um discurso acerca da necessidade de sermos salvos. Aquela Teologia que perdeu a tensão entre a realidade e as expectativas é vã, porque arranca de raiz aquele único espaço onde Deus ainda pode ter a última palavra.

E é que, para as religiões, a salvação não se obtém à custa da desmemória. Ao contrário, o imperativo da fé é revelar aquilo que corre o risco de passar despercebido ou oculto pelo secretismo interessado do poder. A teologia deve anunciar e denunciar se não quer perder aquela sensibilidade espiritual que habilita para rezar, isto é, para falar de opressão e de libertação, de responsabilidade partilhada e de protesto, de solidariedade e de resistência. As religiões sabem que a autoridade de Deus se manifesta nos que sofrem e não nos aparentes triunfadores; que os textos sagrados que contêm a revelação não são mais do que o relato duma paisagem de clamores pedindo a Deus que mostre o seu rosto; que não há acesso possível a Deus à margem do esforço por se tornar compassivamente próximo do olhar das vítimas.

O 11-S recordou-nos dramaticamente que não podemos denominar religiosas aquelas pessoas que não se definem pela empatia, que os que recorrem à violência vivem de costas viradas para Deus. Depois do 11-S, houve quem pensasse que só fazia sentido esperar vingança ou converter-se em voyeurs passivos das decisões políticas. Outros optaram pelo protesto e pelo apelo ao diálogo. Os crentes recordaram que a sua fé é fundamentada num Deus que sempre advém, que não nos deixa abandonados à nossa sorte, mas que irrompe para pronunciar a Sua palavra. Um Deus por chegar definitivamente, um Deus da promessa que convida a um êxodo permanente de crises e conversões. Se a violência exercida enquanto abuso da religião nos paralisar, acabaremos por ser patéticos adoradores do fatalismo, seres melancolicamente resignados, simples administradores estratégicos das oportunidades de cada instante, cínicos apáticos ou conformistas gregários.

Só preservando uma irrenunciável disposição ao diálogo continuará viva a permeabilidade ao sofrimento alheio e a porosidade imprescindível para não cairmos num egoísmo doentio.

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

1 comentário:

Anónimo disse...

Mas foi a teologia que tentou enterrar o passado da Europa, da escrita egípcia... Foi necessária a pedra rosetta para resitir à amnesia e não a teologia. É a memória que resiste à amnésia e não a teologia.

Focar a memória apenas nas tribos da mesopotâmia parece redutor, fantasista e em última consequência parte da quebra dos 7 selos.

O que a teologia não quer esquecer é o mais importante para a sociedade, o real histórico? Ou simples opção enviesada que resulta numa tentativa de directório sem a participação dos povo?

Cumprimentos,