31 de janeiro de 2011

Sobre as Redes Sociais....

(Comentário à apresentação dada por Amber Case*, sobre o bonito uso da tecnologia de ponta, em TED.com - TED is a small nonprofit devoted to Ideas Worth Spreading)

Amber Case: We are all cyborgs now - com legendas
(7.53min)





Amber Case traz-nos uma boa visão de como devemos olhar para estes novas tecnologias de ponta, nomeadamente para as redes sociais, como um grande meio de nos relacionarmos uns com os outros e de nos fazermos mais humanos.

A grande questão, levantada por esta investigadora, é se nos estamos a fazer mais humanos ou desumanos?

Pegando na mensagem do PAPA BENTO XVI, para o 45º dia mundial das comunicações sociais, em que refere a potencialidade do uso das redes sociais, “[…]Como qualquer outro fruto do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem para ser postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano.” No entanto também nos fala da desumanização que pode passar pela fraca qualidade de autenticidade da partilha e pela constante criação de uma auto-imagem, que apenas quer corresponder a uma parte boa de si. Por isso o desafio destas amizades passam por se ser “autêntico, fiel a si mesmo, sem ceder à ilusão de construir artificialmente o próprio «perfil» público.”

O envolvimento nestas novas tecnologias, que só possibilita ao homem relacionar-se com o outro, pode igualmente levantar-nos estas questões:

“Quem é o meu «próximo» neste novo mundo? Existe o perigo de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e absorvida por um mundo «diferente» daquele onde vivemos? Temos tempo para reflectir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que sejam verdadeiramente profundas e duradouras?”

Aproveitemos as novas e fantásticas possibilidades das nossas tecnologias, tanto quanto nos ajudem a promover as nossas relações inter-pessoais, para que sejam mais profundas e humanas.

---

* - Amber Case, estuda a interacção simbiótica entre humanos e máquinas - e analisa a forma como a nossa cultura e valores se vão moldando pela vivência cada vez mais mediatizada da tecnologia de ponta.

29 de janeiro de 2011

"Simplesmente" isto (Mt 5,1-12)

Imagina apenas que alguém vem ter contigo, e sussurra no teu ouvido,

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dês Céus”.

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.

“Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra”.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados”.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus”.

“Bem-aventurados serás, quando, por minha causa, te insultarem, te perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra ti”.

“Alegra-te e exulta, porque é grande nos Céus a tua recompensa”.


“Bem-aventurados??".

Bem-aventurados.


“Simplesmente” isso. E... de qué maneira!!


Acrescentar palavras escritas não sempre melhora as pronunciadas.

E não foram tanto sussurradas, quanto proclamadas.


Desculpa a minha brevidade, mas o meu melhor contributo é deixar-te

com o sabor interpelante desta mensagem.

28 de janeiro de 2011


Frasco

A análise musical da palavra frasco

dá-me o lapidado de luxo

o cristal onde guardo

o álcool

e o perfume.

É uma palavra facetada

que escorre e entorna lume

que governa o gesto

ritual

delicado e casto.

Gosto de dizer frasco

gosto do prazer controlado

no usar do receptáculo

relicário do mistério.

Do frasco uma gota

um cálice um mundo

que se tapa e se destapa

no cuidadoso sentido do profundo.

Falo e digo frasco

sirvo-me e penso lume.


Em Frasco de Salette Tavares, parece que começamos pela música de uma palavra bissílaba, de som rebuscado. Pois o poema começa com uma análise que deixa prever sons variados, mas nem chega a começar, contudo o toque do frasco, ou de um frasco, expira a musicalidade da palavra e trata de cobrir os sentidos, de brilhos, luzes e todas as cores que um espectro ramifica. O cristal é agora o frasco e a palavra Frasco é lapidada com um detalhe de luxo, do exterior burilado ao enigma do lume interior. Temos simultaneamente duas acções ao longo do poema: uma que tacteia o frasco e outra que usa controlada, e delicadamente a palavra, baralhando o falar e ouvir, o servir e o pensar. Dando ao ouvido a palavra (frasco) e ao toque o lume.

imagem: Louise Bourgeois

25 de janeiro de 2011

A nossa bonita fraqueza

(Comentário à apresentação dada por Brené Brown*, sobre o poder da nossa vulnerabilidade, em TED.com - TED is a small nonprofit devoted to Ideas Worth Spreading)

Berné Brown: The Power of Vulnerability - com legendas



Como abraçar a nossa vergonha, os nossos medos, aquilo que somos?

Brené Brown, apresenta-nos um modo através do qual as nossas vidas podem dar uma volta, a partir de uma investigação de 10 anos que mudou a sua vida, o seu modo de viver, amar e de ser mãe.

Brené Brown procura entender e dar resposta às muitas angústias e medos que o homem de hoje vive. Visto ser um homem que vive e precisa de relações, a sua proposta passa por: Aceitar e abraçar as nossas fraquezas, e amá-las. E deixar de lado a imagem da pessoa que devia ser, para aceitar a pessoa que realmente sou. Algo absolutamente necessário para um relacionamento. E aceitar o que nos faz vulneráveis, faz-nos olhar para a nossa vida como lugar de beleza, olhar para uma maravilhosa pessoa, “beautiful”, porque é autêntica e não fictícia. Ter a coragem de ser imperfeito, coragem de ser aquilo que sou e deixar que nos olhem, e nos olhem em profundidade.

Esta vulnerabilidade de que todos abraçamos, é origem da vergonha, do medo, da nossa luta pela dignidade, mas também é origem da alegria, criatividade, sentido de pertença, e de amor. Esta investigadora inspira-nos a ganhar mais vida.

E aqui, eu proponho que olhemos para as nossas debilidades, não com um olhar recriminador, mas com o olhar de Cristo. Um olhar que vê muito mais fundo, não para as coisas que fazemos ou que somos menos bons, mas para o mais fundo onde somos aquilo que somos. É aí que Jesus nos Ama e nos faz crescer.

Será que o meu olhar sobre a minha vulnerabilidade é recriminador, porquê? Se há alguém que não olha assim e que continua a gostar de mim? Como nos diz Santo Inácio nos Exercícios Espirituais nos nºs [328-337], que certamente esta visão recriminadora só vem do mau espírito e não de Deus.

Tenhamos coragem de olhar como Cristo olha para nós e saborear o verdadeiro ser que brota de uma relação profunda. Assim as nossas relações serão mais profundas, autênticas e dignas de amor, com sentido de pertença a alguém, sem vergonhas, sem tristezas escondidas, apenas autênticas. Precisamos de ser amados!

Recomendo a visualização completa desta apresentação.

---

* - Brené Brown é investigadora da Universidade de Houston da Faculdade de Serviço Social. Passou os últimos dez anos a estudar sobre vulnerabilidade, coragem, autenticidade e vergonha. Tudo para dar resposta às questões de como abraçar as nossas vulnerabilidades e falhas para que as nossas vidas sejam lugares de autenticidade e dignidade? Como cultivar a coragem, compaixão e relações? ver mais em http://www.ted.com/speakers/brene_brown.html

22 de janeiro de 2011

Acerca de Mt 4,12-23

«o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria
região da morte, uma luz se levantou».










imagem; Lourdes Castro. 1964


20 de janeiro de 2011

A missa cheira a mofo?

Devo dizer que não fui eu que inventei este título. Mas admito que me ri várias vezes sozinho com a pergunta provocadora que me propuseram como ponto de partida para esta reflexão. No entanto… confesso que os meus sentimentos eram estranhos… complexos… quase contraditórios. Como se o meu riso tivesse um retrogosto profundamente… amargo…

Quando estamos demasiado habituados a uma realidade e, talvez por ignorância, não a tomamos muito a sério, com facilidade fazemos piadas e rimo-nos. Assim parecemos grandes… superiores… e mais inteligentes do que os outros. A missa, e a liturgia em geral, é uma destas realidades.

Não o fazemos por mal mas… a verdade é que nós somos filhos da Modernidade, do Iluminismo e da Revolução Francesa. Esmagámos o obscurantismo e a crendice dos simples, erguemos bem alto um cérebro humano (talvez de uma das vítimas da nossa sanha libertadora…) e gritámos aos quatro ventos: “Eis o homem!”.

Para os filhos deste novo Prometeu, a missa tem obrigatoriamente que cheirar a mofo. De facto, a liturgia supõe um homem ou uma mulher completos, e não só um cérebro. Reduzimos o homem à razão e ao pensamento… e talvez por isso tantas das nossas missas sejam de facto apenas homilia… Por isso, terminada a homilia, muitas vezes já não há espaço nem tempo para mais, e o padre despacha atabalhoadamente a oração eucarística, como se esta fosse apenas um apêndice secundário da sua brilhante homilia. Ganhámos o cérebro… ou talvez os sentimentos mais superficiais… somos os campeões da ética… mas falhámos tristemente o Encontro. [clicar para ler o resto do artigo]


Este texto é parte dum artigo de Fernando António sj, publicado na secção Razões da Fé do site essejota.net

19 de janeiro de 2011

… para além do ódio e do preconceito.


Celebramos hoje a memória dos beatos mártires da Companhia de Jesus que morreram pela fé católica após a divisão dos cristãos no séc. XVI: Tiago Sales e Guilherme Saultemouche a 7 de Fevereiro em França, beatificados por Pio XI em 1962; Inácio de Azevedo a 15 de Julho de 1570 e trinta e nove companheiros seus a 15 e 16 de Julho de 1570, na viagem marítima para o Brasil, beatificados por Pio IX em 1854. A estes se juntaram os que foram martirizados na Revolução Francesa pela confissão da fé: Tiago Bonnaud a 2 de Setembro de 1792 e vinte e dois companheiros a 2 e 5 de Setembro de 1792 em França, beatificados por Pio XI em 1962; finalmente, José Imbert e João Nicolau Cordier, martirizados respectivamente a 9 de Junho e 30 de Setembro de 1794 e beatificados por João Paulo II em 1995.

Em 1970 dizia o Papa Pauo VI: “O nosso tempo precisa de santos, precisa sobretudo do exemplo daqueles que deram o testemunho supremo do seu amor a Cristo e à sua Igreja; não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos. Estas palavras do Divino Mestre, que se referem primeiramente ao sacrifício que Ele ofereceu na cruz pela salvação dos homens, também se aplica à inumerável seara dos mártires de todos os tempos, tanto dos que sofreram o martírio nas perseguições contra a Igreja nascente, como dos que morreram em tempos mais recentes em perseguições talvez mais dissimuladas, mas nem por isso menos violentas.” (In Homilia proferida na canonização solene dos Beatos Quarenta Mártires de Inglaterra, a 25 de Outubro de 1970: AAS 62 [1970],Pe. António Vieira. 747-748)

No séc. XXI diz-nos o Papa Bento XVI: “De facto é doloroso constatar que, em algumas regiões do mundo, não é possível professar e exprimir livremente a própria religião sem pôr em risco a vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra os crentes e os símbolos religiosos. Os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé. Muitos suportam diariamente ofensas e vivem frequentemente em sobressalto por causa da sua procura da verdade, da sua fé em Jesus Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida a liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disto, porque constitui uma ofensa a Deus e à dignidade humana; além disso, é uma ameaça à segurança e à paz e impede a realização de um desenvolvimento humano autêntico e integral.” (In Mensagem de Bento XVI para a celebração do XLIV Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2011)

Mesmo que possa ser difícil compreender, aceitar, que existam homens e mulheres dispostos a dar a vida pelo outro, isso talvez não deva ser motivo para deixarmos de questionar como é que, ao mesmo tempo que se apregoa “em alto e bom som” o desejo, a necessidade, de progresso num mundo que deve ser pluralista, se continuam a perpetrar ataques contra “... a realização de um desenvolvimento humano autêntico e integral.”, sinal de um retrocesso alicerçado no ódio e no preconceito. Estas perguntas deveriam levar-nos mais além…

17 de janeiro de 2011

O que é ser animador do CAB?


“Olá! Tudo? K fazes hj às 19h15?”

“Oi!! N faço nada. Pq? Queres tomar um copo?”

“Não! Lembras-t daquela cena k t falei hj? Do CAB?”

“Aquela cena dos padres?”

“YA! Há missa às 19h15, jantarada e 1 filme no fim. Aparece, pha!!”

“Missa?? Mas qt tenho de pagar?”

“Pagar?? Não pagas nada! Aparece, vais ver que vais gostar. ‘té logo! Abc”


Estas mensagens podiam ser perfeitamente as mensagens que um animador do CAB troca com um amigo da faculdade. Mas afinal, o que é ser animador do CAB? É um universitário que convida, por sms, os colegas a vir à missa? Não só, mas também. Antes de tudo, o que quer dizer animador?

Animador vem de ânimo, que vem de alma. O animador tem uma missão que é a de ser doador de ânimo, dar alma. A pertença do animador à comunidade do CAB traduz-se numa missão que é a de dar ânimo, não só à comunidade de universitários que se junta no CAB, mas também a todos os seus colegas, amigos e família. No fundo, ser animador não é uma actividade que se limite às quatro paredes do CAB, chamemos-lhe antes um estilo que ganha corpo a partir do CAB. Mas afinal, que vem a ser dar ânimo?

Dar ânimo, como disse, é a missão do animador no CAB. Esta missão é recebida pelo Pe. Director do CAB e é vivida em conjunto com o restante grupo de animadores [cerca de 10 a 15] que juntos pensam, partilham e põe os meios para que o CAB seja lugar de ânimo e de encontro com Deus e com os outros. Através de missas em conjunto, orações, reuniões, copos à la lune, os animadores procuram crescer em amizade uns com os outros, tendo sempre como referência a pessoa de Jesus em quem encontramos o ânimo para gastar tempo a troco de nada, por causa de tudo: Ele, o nosso Senhor e Amigo. Por isso, dar ânimo implica que os animadores também o recebam dEle e do próprio grupo. Mas, na prática, em que é que este ânimo se traduz?

Nas missas de 4ª feira, que são o ponto central do CAB onde se justifica a nossa entrega simples, nos jantares que se seguem e nas muitas outras actividades ou nos ditos tempos mortos, os animadores aparecem para preparar tudo. Juntamente com outros que se voluntariam, os animadores cozinham, limpam, preparam chá, cantam nas missas, acendem velas, cortam 200 papelinhos, distribuem cartazes, escrevem artigos para blogues sobre o que é ser animador, conversam com quem aparece no CAB pela primeira vez, pintam paredes, … por vezes mais no escondimento do que às claras.

Porquê dar ânimo? Para quê tanto trabalho e até, às vezes, horas mal dormidas? Para dar continuidade à entrega de Jesus, na entrega simples das nossas horas aos outros. Aos outros que, com muita humildade, desafiamos a perceber que dar a vida não é um mito de Hollywood, e aos outros que reconhecem que necessitam de Deus. Por isso dizia no início que, mais que uma actividade, ser animador é um estilo que testemunha a beleza de qualquer vida que se encontra com o amor em cada gesto que faz.

A Crise de 2011

No início deste ano começa a ser familiar ouvir-se comentários a um ano que se prevê duro e crítico, um ano de CRISE. Pouca esperança se vê nos olhares.

Nos olhares de pessoas que têm que responder a trabalhos exigentes, que vêem as horas de trabalho a aumentar por uma realidade que se impõe se querermos ter o pão em casa – não se pode dizer que não a ela, pois há sempre alguém para aquele lugar.

Nos olhares de pessoas desempregadas, desesperadas, que fazem qualquer coisa para ter o que levar para a mesa.

Nos olhares de pessoas com FOME.

Vive-se stressado, com esta pressão louca. A comunicação social que cria um panorama mais duro, que parece dar cabo de qualquer sonho. Um governo que nos entristece de dia para dia, e a esperança do nosso Portugal que entra no desânimo. Parece mais difícil sonhar… “Aquela carreira que desde pequeno sonhei, não consegui, tive que me submeter ao que hápassado uns anos volto a trocare ando nisto."

"Não foi esta a vida que sonhei…”

Podemos estar a viver um ano assim, cheio deste tipo de frases, mas então que fazer? Viver assim, triste, não é solução!

Gostava que cada um de nós, na sua realidade do dia-a-dia, pudesse, em si, sonhar.

A construção e a reabilitação passam pelo sonho, pelo pequeno sonho de cada dia. Não podemos deixar de sonhar, pois é este sonhar que vai dar-nos energia, força, criatividade para superar as dificuldades de hoje. Não sonhar com utopias impossíveis, mas aceitar e sorrir a esta nova realidade. Sermos CRIATIVOS e Sonhadores em tudo o que fazemos. Termos a coragem de agarrar esta dureza, e ajudarmo-nos uns aos outros a viver e não deixar que os pessimismos passem pela nossa linguagem.

Vamos trabalhar por estes nossos sonhos que têm que sorrir. :) Desejo a todos um Bom 2011, com ânimo e coragem.

16 de janeiro de 2011

Omnipotente,Omnisciente,Omnipresente
sobre os atributos de Deus

Isto parece chinês. Sempre que nos deparamos com palavras ou imagens que não pertencem ao nosso universo de conhecimento, sentimo-nos como estrangeiros. Ou pior. Cada linguagem (científica, artística, cultural, religiosa) remete para um mundo próprio, cuja compreensão requer a invasão do território intrafronteiriço das gestas gloriosas dos heróis dos tempos augustos, dos vapores dos infortúnios; enfim, de tudo quanto povoou a terra e que mereceu ser repetido na memória. Esse é o lastro das línguas. Não bastam os dicionários para conhecermos um idioma: há que descer às ruas da cidade para que o aprendamos do chão, dos cheiros, dos transeuntes, da própria memória do tempo que ficou a poluir de ruínas a paisagem, para que a distracção não nos fizesse crer que antes de nós não havia vida. Camões ainda faz versos na lírica dos apaixonados. Enquanto não nos avizinharmos de uma cultura, não passaremos de uns turistas difíceis de suportar, que a cada esquina rosnam “se eles fossem como nós”.

A linguagem teológica parece-nos ser profundamente aérea (e não propriamente celeste). Os seus termos estão de tal forma alheados do nosso universo de interesses e de cultura corrente que se nos tornam perfeitamente absurdos, sem sentido. É natural que torçamos o sobrolho quando de um púlpito se soltam palavras como “Deus Omnipotente”. Ouvindo do lado de cá da fronteira teológica, essas palavras dificilmente jogam com uma questão flagrante: se Deus Pode, Sabe e Está em Tudo, porque permite a existência do Mal? Será assim tão mais sábio tirar o bem do mal do que simplesmente evitá-lo? Precisamos de “um Deus” para regular o cosmos, quando os parâmetros físicos parecem ser suficientes para isso?

Atravessando a fronteira

Dentro do planeta bíblico, a linguagem é eminentemente palpável e sintética, própria talvez de um temperamento nómada, habituado à secura quente do deserto, onde tudo, mesmo a saliva, deve ser poupado; de contrário, seca. No deserto as abstracções são miragens que convém evitar. Há nesta cultura um pragmatismo implacável de “assim dito, assim feito”. Por isso, a memória bíblica de Deus é sempre acompanhada de uma história. A salvação tem uma história; dá-se na História. Mas, pode alguma estória ser suficientemente grande para contar o que sejam omnipotência, omnisciência e omnipresença?

É verdade: a imaginação pode trair-nos. E a sua maior traição está no risco de nos ofuscar. Na sua raiz, aqueles piropos resultavam de uma experiência amorosa. Nenhuma pessoa é mais bela do que aquela que amamos. Mas a descoberta do seu verdadeiro Tamanho requer tempo. O longo processo de redacção do património bíblico corresponde à maturação da memória daqueles arroubos. Com o tempo a linguagem torna-se poética, mística, mítica. Com o tempo a linguagem torna-se súplica: “Volta!”. Avolumaram-se os textos, avolumaram-se as expectativas. Como é que Deus Se vai manifestar, Ele que é Grande, Forte e Poderoso nas Batalhas?

Dentro do território

Os contemporâneos de Jesus ficaram profundamente confundidos com o que viam n’Ele. Por um lado, Jesus era exactamente como esperavam que deveria ser: bondoso, sábio, capaz de sanar feridas profundas, credível. Mas, por outro, era totalmente diverso: mantinha uma relação de familiaridade com Deus, acolhia os pecadores públicos, punha em causa uma religiosidade calculista, distinguia as esferas de Deus e de César. O momento máximo dessa crise de expectativas deu-se naquele tríptico: morte, silêncio, ressurreição. Como conciliar, naquele quadro, omnipotência com fragilidade e servitude; omnisciência com dúvida; omnipresença com morte e ausência?

Nenhuma língua é suficientemente ampla para dizer tanto numa mesma palavra. Mas a Bíblia, a poesia, a arte, e as gramáticas interiores dos nossos próprios desejos apontam-nos a palavra amor... No amor, poder, saber e estar são feições do mesmo movimento de abertura, de gratuidade. Que poder têm sobre nós os que nos amam? E o que sabem de nós faz-nos menos livres? A sua presença rouba-nos espaço? Jesus pode representar, para muitos, um enfraquecimento da figura de Deus. No entanto, essa forma de ser fraco foi o maior testemunho do Tamanho de Deus.

Depois de Jesus, o que significa ser Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente?