27 de fevereiro de 2011

Esta vez em Madrid. (Agosto, 2011. MAGIS).


Não faz mal valorizar as lembranças que a memória nos traz.

Houve um dia em que regressei do ‘magis 2005. Da Alemanha.

Foi isto que escrevi.

[[ Vem de acabar este ´magis 2005. Uma experiência espectacular. Só agora reparo que nós, os rapazes e as raparigas que tivemos a imensa sorte de partilhar o roteiro durante estes dias todos, acertámos no momento de escolher espontaneamente o adjectivo “inesquecível” como o mais apropriado para definirmos a experiência que acabávamos de viver. Grande privilégio, nada desaproveitado, no qual, apenas me lembro, tomei parte.

Mas, se calhar, sim. Sim, lembro-me.

Recordo que foram três os principais motivos que me impulsionaram rumo a Köln, cidade de encontro das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ).

A necessidade de preencher com ócio um verão merecidamente vazio quanto à aprendizagem académica foi o mais trivial deles. Mais sentida era a curiosidade por me ver rodeado por tantos jovens de tantos países diferentes, sendo isto tudo no contexto duma nação que naquela altura ainda não conhecia. Mas todo o voo precisa duma força definitiva que o descole do chão. Para mim, esse esvoaçar foi a ideia de que era Deus o laço de união e único sentido da viagem daqueles jovens, cujas vidas correriam paralelas durante alguns dias. Embora se tratasse dum passeio com grande atractivo turístico, este atractivo não parecia ser tanto a preocupação dos participantes no ´magis e nas JMJ quanto a concentração juvenil convocada por Bento XVI, à qual se chegaria após uma peregrinação física. Mas não só. Também espiritual. Aquilo cheirava a religioso. E era-o. É por isso que os meus colegas, sem eu ainda ter saído da minha cidade, me repetiam que ia aborrecer-me nuns dias "fixes" rodeado de padrecas e freirinhas, gente esquisita que muito possivelmente não teria nada melhor que deixar-se levar pelo programa estival proposto nos seus seminários, liceus ou residências universitárias. Instituições religiosas todas elas, com certeza.

Quero reconhecer que eu caí igualmente neste pensamento, sem reparar que estava a ser, nesse mesmo momento, mais um padreca aos olhos de para aí mais de um milhão de jovens.

Mas, como é atrevida a ignorância!

Foram tantos os “cristãos diferentes” que encontrei e conheci logo desde o primeiro dia que aquela teoria dos padrecas não demorou assim muito tempo a desaparecer radicalmente da minha mente. É até inacreditável como é algo tão grande e inexplicável essa fé capaz de atrair milhares e milhares de jovens de todo o mundo que recusam deixar-se amedrontar pelas modas, opiniões políticas, situações económicas, procedências culturais… Ultrapassa realidades para as conectar. Desta forma, a viagem acabou por ser um inesperado desfile. De rastas, de melenas multicolores ou de cabelos em gel, ataviado cada um com as suas respectivas roupas. Existia acolhimento para todos, desde os mais formais até os mais hippies. Ninguém se interessou em perguntar, mas não havia dúvida de que ali conviveram pessoas politicamente de direita e de esquerda, com os seus extremos representados. É possível, mas era a beleza de sabermos que era outra coisa presente no ambiente o que ali nos conectava, que nos invadia, algo imensamente mais importante. Quem apanha uma mochila no ombro, repleta com o imprescindível, e se atreve a mergulhar no desconhecido, não entende de riqueza, mas de caminhada, de procura, de cooperação com os seus semelhantes: o peregrino que o acompanha.

A procedência dos companheiros que lá encontrámos não importava mais do que uma mera localização no globo terráqueo. Assim surgiram, como simples exemplos, o minhoto, o de Seixo de Mira, o polaco de Varsóvia, a de Taipei, o grupinho de porto-riquenhos.

Não era assim tão transcendente donde partimos como o que estávamos a procurar.

Isto tudo tem a ver inexoravelmente com o mundo do terreno e, como tal, nunca mais deve ser confundido com o espiritual. Portanto, sempre que julgarmos através de preconceitos semelhantes aos mostrados, estaremos a valorizar em excesso o terreno, ou até a desprestigiar o espiritual. Erros.

Grandes erros os dois, pois são os gestos, as palavras, as atitudes e as disponibilidades para com os outros o que, em verdade, fará com que sejamos identificados como cristãos, sem por isso existir a necessidade de sermos nós próprios a apregoar a nossa fé.

Assim consigo compreender com muita mais lucidez todos aqueles jovens cristãos que, assim como se ouviu no Evangelho de Marienfield, “regressam aos seus lugares de origem por caminhos distintos, mas com uma mesma mensagem…” ]]

Vêm à minha memória estas piscadelas do passado quando faltam pouco mais de cinco meses para nos encontrarmos mais uma vez.

Desta vez, em Madrid.

25 de fevereiro de 2011

Fundamentação cristã da Ecologia

A – Ecologia 
O termo Ecologia deriva da palavra grega oikos, que significa casa, morada. A Ecologia é então uma disciplina que versa sobre como é que o homem pode viver na natureza e no mundo como em casa sua. O que implica também perceber como é que pode tratar essas realidades como a sua casa.




B – A missão do homem em Génesis 2
A tarefa do homem na terra, segundo este relato da criação, é a de a cultivar e guardar. Ou seja, é-lhe proposta uma acção em prol do jardim e não fechada à volta do próprio homem. É curioso reparar que, no início do texto, a chuva ainda não tinha vindo porque não serviria para nada, já que ainda não existia o homem para dar uso a essa chuva em favor da terra. Claro que cultivando a terra o homem vai também beneficiar com esse trabalho, mas é óbvio que o cultivo teria de ser visto em função dessa outra tarefa que é guardar a terra. Resulta daqui que o homem não pode usar da terra de modo a abusar, a fazer um mau uso dela, ou então não estaria a guardá-la, o que seria falhar na missão que lhe tinha sido dada. [E que era tão importante que, sem o homem, Deus ainda não tinha posto em movimento a dinâmica da vida sobre o planeta, visto que ainda não havia quem tirasse proveito dela em favor do cultivo da terra.]


C – A missão do homem em Génesis 1
1. Uma complexidade crescente na criação até chegar ao homem
Ao contrário de Gn 2, aqui o homem é a última obra criativa de Deus. Em Gn 2, Deus começa a criação por aquilo que mais quer: o homem. Só depois vai criar a terra para o colocar. Em Gn 1, a lógica é a mesma, mas a estratégia diversa: o que Deus mais quer, o homem, é a última coisa que cria. Antes vai formar a terra e toda a exuberância de vida que comporta, para depois criar o homem e pô-lo lá, como o creme sobre o bolo. (Não a cereja cristalizada, como veremos adiante…) A leitura de Gn 1, deixa-nos perceber que a criação ali descrita é uma tentativa racional para compreender como é que o mundo está organizado. Na verdade Deus cria separando e a separação é princípio de ciência. (Ex: “As árvores dividem-se em dois grupos: as que têm folha perene e as que têm folha caduca”. Ou: “Há dois tipos de animais: os que comem carne e os que se alimentam de vegetais”.) Nos 1º, 2º, 3º e 4º dias Deus põe ordem no caos, separando realidades. E nos restantes dias (também na segunda metade do 3º) Deus cria segundo as suas espécies, ou seja, não é uma criação monolítica, há divisões, particularidades que podem ser percebidas. Neste caminho intelectual, Deus separa a luz das trevas (1º dia), as águas superiores das inferiores (2º dia), a água da terra, e depois cria os vegetais segundo as suas espécies (3º dia), o dia da noite (4º dia). Se considerarmos que , para a Bíblia, vida é só a vida animal, então no limiar do 5º dia ainda não há vida. É o próximo passo: vida na água e no ar, segundo as suas espécies. E agora a tarefa de Deus no 6º dia é criar a vida na terra firme, que ainda não a tinha. Para os animais fá-lo segundo as suas espécies. Chegou a vez do homem, a última obra criativa de Deus. O texto sugere com muita força uma criação feita para o homem, mas veremos que tem condições.

2. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus.
E isto é uma originalidade do homem. De facto é o único que beneficia de tal privilégio. O que significa? Seguramente que o homem – tal como Deus – é o único com capacidade para perceber a criação. É a única obra que Deus criou que pode compreender o que está escrito em Gn 1,.

3. Para dominar.
Agora não se fala de cultivar e guardar, mas de dominar. E esta mudança de verbos que exprimem a função do homem na terra pode levantar algumas confusões. É que, na nossa linguagem, dominar significa exercer o domínio [de dominus (= senhor)], a autoridade do senhor, do dono. Contudo vamos já ver que este dono é Deus e não o homem e que, portanto, este domínio é para ser exercido em nome de outrem, em nome do verdadeiro Senhor e não do homem.

4. A cereja no bolo da criação: o sábado.
O sétimo dia traz aqui algo de substancialmente novo: a obrigação de haver um dia em que não se deve trabalhar. (É bom compreender isto face ao que o povo hebreu já praticava na época em que este texto é composto: o sábado, o sétimo dia, vivido como um dia diferente, feito para não trabalhar a fim de haver tempo para louvar o Criador. A azáfama do quotidiano já naqueles dias impedia as pessoas de poderem parar e terem tempo para se encontrarem com Deus. Pois bem, não há desculpas, têm o sábado, um dia de louvor e de reencontro com o Autor da vida.) Ora se o homem é a última obra criada, o sétimo dia é a última palavra criativa de Deus E tem honras que o homem não tem. É santificado! Significa que é o sábado que dá sentido a toda a criação, que sem este dia vivido especialmente para o Senhor, todas as outras obras criativas, por mais bonitas que sejam, estão vazias. O sétimo dia serve para o homem parar o seu trabalho e contemplar o Criador a partir das Suas obras. Isto equivale a reconduzir a Ele tudo o que existe, equivale a reconhecer em Deus o senhorio da criação. Então estamos agora em condições de perceber que tipo de domínio o homem deve ter sobre a natureza: o de velar pelos interesses do verdadeiro dono e o de agir em Seu nome. Sem o sábado o homem correria o risco de se apropriar da criação, de perder o sentido de tudo o que existe em seu proveito pessoal.


D – Conclusão
Recapitulando o percurso que fomos traçando, vimos que a Bíblia – em Gn 2, - apresenta o homem com a tarefa de cultivar e guardar a terra, o que implica valorizá-la e ter cuidado com ela. Depois – em Gn 1, - dá um passo de gigante, mostrando o homem como o cume da complexidade da criação, a única criatura com capacidade de a compreender e por isso com a tarefa de a dominar. Só que esse domínio – pelo sábado – terá de ser feito reconduzindo ao Criador todo o seu trabalho, o que é dizer, encontrando Deus no trato com as obras da criação. Implica portanto o agir na natureza de acordo com a lógica do seu “dono”, Deus.


Sugestões de aprofundamento:
- Exortação apostólica do Papa João Paulo II para o dia mundial da paz de 1990 “Paz com Deus criador, paz com toda a criação”;
- Nota pastoral sobre a preservação do meio ambiente da Conferência Episcopal Portuguesa, 1988.


P. Carlos Azevedo Mendes sj

Texto retirado da "Razões da Fé" em essejota.net
[Imagem: Crude Oil, Banksy ]

24 de fevereiro de 2011

O MAGIS por quem o viveu



Alberto Fernández é jesuíta. É espanhol, fez o Noviciado em San Sebastián e, agora, estuda Filosofia em Braga. Antes de entrar na Companhia de Jesus, participou no MAGIS2005, em Colónia. Pedi-lhe que me dissesse o que foi essa experiência. Aqui está.

O que é o MAGIS?

Ordenhar umas vacas. Recolher o lúpulo. Envernizar umas cadeiras. Perder-se numa floresta de bétulas. Banhar-se no rio. Cheirar a fumo. Não por acaso, mas sabendo encontrar Deus. Reparar na Sua presença na Natureza, aprendendo a desenvolver uma sensibilidade que não ignore o valor do que acontece ao nosso arredor. Estas tarefas todas formam parte do quotidiano em Wilwerwiltz, aldeia diminuta no topo duma montanha luxemburguesa. E durante uma semana tornaram-se a dedicação e cuidado duma turma de universitários. Espanhóis, taiwaneses e polacos formavam esta turma. O ambiente de entendimento e colaboração reflectia um Deus que verdadeiramente agia nas motivações de todos estes jovens. Aconteceu no verão de 2005. Assim foi o MAGIS que eu vivi, pois há muitos…

O que te levou a participar no MAGIS2005, em Colónia?

Não foi uma loucura, mas sim uma aventura. Eu pertencia a um grupo de jovens cristãos vinculados ao trabalho pastoral dos jesuítas na minha cidade [Valladolid]. Ouvimos falar em “algo grande que estava a ser preparado” para aquele mês de Agosto. Informámo-nos antes de pagar, com certeza, mas sempre com o intuito de que o que lá ia acontecer, nesse intrigante MAGIS, ultrapassaria toda perspectiva que nós levássemos. E assim aconteceu. Cada um de nós era muito consciente de que esta oportunidade parecia feita para nós. E também de que dificilmente voltaria. Resolvemos arriscar… E ainda bem! Só agora é que podemos avaliar os benefícios de aquela decisão. Olhamos para aquelas semanas com carinho. Mas também para o futuro, sabendo que a oportunidade regressa para outros muitos a aproveitarem.

O que é que mais te marcou na experiência MAGIS?

O que mais? Como é possível viver a internacionalidade da fé! Não se esgota esta experiência no meu costume de oração, nem nas actividades concretas do meu grupo de referência, nem sequer na forma como na minha região se louva Deus… Não. Este sentimento de fraternidade envolve o mundo, e nele moram imensos jovens cristãos. A sério, realmente muitos!. Nas muitas cidades de Europa por onde passei graças a este MAGIS encontrei variedade. Falava-se o agradecimento em múltiplas línguas, os ritmos das músicas cheiravam a riqueza cultural, os traços físicos delatavam uma Palavra ouvida por cada um sem distinção, as bandeiras ondeadas devolviam o colorido ao mundo. As diferenças de origem eram espantosas. Porém, havia algo ainda mais impressionante. Era Cristo quem convocava. Sua figura e sua mensagem faziam-se encontro e vida no entusiasmo de tantos naquele MAGIS.

Onde está o Magis de S. Inácio no MAGIS?

Santo Inácio não se conformava. Nem na procura da vontade de Deus para a sua caminhada, nem na forma como melhor falar do Cristo companheiro aos seus contemporâneos. O MAGIS também não. Não se conforma. Sempre está a procura do maior e melhor interesse dos seus utentes. Desta vez, aqueles três mil no mundo que já marcaram este sono comum na sua agenda de verão. Mais uma vez, simplesmente surpreenderá…

Como é que o MAGIS ajuda alguém a ser Mais?

O MAGIS pensou nas pessoas antes de se pensar a si próprio. Ou seja, pretende apenas oferecer aquilo que mais aproveitará à vida de cada um. Não é nada um esquema fechado que receba os seus utentes, mas uma experiência que vai ao encontro das necessidades reais dos crentes de menos idade. Necessidades de oração. Necessidade de compreender o que acontece. Necessidade de encontrar o sentido do dia a dia. Necessidade de alegria no partilhar. Necessidade de aprender a viver sem esquecer amar e servir. Necessidade de uma fé fresca. Necessidade de agradecer, pois não existe quem não tenha motivos.

E eu agradeço ter formado parte.

Pude experimentar isto em 2005, e assim será neste 2011.

Não duvido.

MAGIS traz proveito.

23 de fevereiro de 2011

Equipa de Arquitetura da Pastoral da Cultura projeta três exposições

A equipa de arquitetura do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura está envolvida na preparação de três exposições relativas a projetos portugueses e internacionais, iniciativas que também vão inspirar debates sobre o tema.

O arquiteto João Alves da Cunha salienta que o grupo de trabalho tem sentido a importância de «criar plataformas» «e pontos de encontro», já que apesar de haver «muita gente interessada» no tema, não se tem produzido uma «reflexão conjunta».

Uma das mostras em preparação tem como origem a igreja de Marco de Canaveses, inaugurada em 1996, «indiscutivelmente uma referência e um ponto de chegada, mas também um ponto de partida», considerou o responsável em entrevista ao programa Ecclesia na Antena 1.

A iniciativa pretende inquirir o que aconteceu à arquitetura religiosa em Portugal depois da abertura daquele templo projetado por Siza Vieira, através de uma «exposição de grande qualidade» e «muito abrangente», que não se vai fechar na Igreja Católica mas pretende estabelecer uma «grande transversalidade» com o meio cultural e a sociedade.

O grupo da Pastoral da Cultura, de que faz parte o arquiteto e padre jesuíta João Norton, está também a organizar uma mostra ligada a um prémio atribuído por uma fundação italiana: «A exposição já está em Portugal, nas nossas mãos», adiantou João Alves da Cunha.

«A intenção – acrescentou – é dar-lhe alguma itinerância, nomeadamente Lisboa, Évora e Porto», cidades onde haverá eventos associados, como conferências, debates e visitas a igrejas.

Os planos da equipa passam também pela colaboração com o Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa, que em 2011 assinala 50 anos.

«Provavelmente é o espaço em Portugal onde mais se trabalhou, refletiu e explorou tudo o que se possa pensar em relação à arquitetura religiosa», sublinhou João Alves da Cunha.

A parceria prevê o lançamento de um guia com imagens e textos da arquitetura religiosa do último meio século, contribuindo para aprofundar «uma reflexão mais continuada».

As comemorações do aniversário incluem a realização de um colóquio evocativo da história do Secretariado e que apresente perspetivas sobre o «o que deverá ser a Igreja para esta sociedade» nos próximos anos.

Lígia Silveira / Rui Martins
© SNPC | 22.02.11

17 de fevereiro de 2011

MAGIS2011: COM CRISTO NO CORAÇÃO DO MUNDO

E se uma capital europeia se enchesse de apaixonados? E se 3000 desses se reunissem para se preparar para esse momento?

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Num rewind de quase 500 anos, encontramos um homem que percebeu que o caminho que leva a Deus é o caminho de ser mais pessoa, de ser mais verdadeiro, de ser mais apaixonado e que isso é ser mais – completamente! – disponível para que Deus Se possa revelar: Inácio de Loiola (1491-1556). Esse Mais por quem Inácio se deixou encontrar levou-o a fazer sua a vontade de falar de Jesus a todas as pessoas com quem se encontrasse. Como ele, muitos homens – os jesuítas – se deixaram encontrar e apaixonaram-se, quiseram fazer-se mais pessoas, quiseram ser Mais.

E, porque a experiência de ser Mais não podia ficar “fechada” em alguns, os jesuítas falaram dela ao mundo, levando homens e mulheres a actualizar este Magis (palavra latina para Mais) nas suas vidas, nas suas culturas, no seu tempo, vivendo para além de si, mostrando com o seu exemplo de vida este sinal de verdade na sua relação de fidelidade com Deus.

Em Agosto, o Papa Bento XVI vai a Madrid encontrar-se com milhares de pessoas na Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Porque este Amor que apaixona se pode experimentar de muitas maneiras concretas, os jesuítas e outras congregações religiosas e movimentos estão a preparar o MAGIS2011, mesmo antes da JMJ. Esta iniciativa teve o seu início em 1997, em Paris. Em 2005, em Colónia, chamou-se MAGIS pela primeira vez. Em 2008, celebrou-se em Sidney. Chegou a vez de Madrid.

O MAGIS começará no dia 5 de Agosto, com um encontro geral de todos os participantes, em Loiola. Nele haverá uma "Feira das Nações", um “Musical MAGIS” e ainda uma celebração com o P. Adolfo Nicolás, Geral da Companhia de Jesus. Este encontro internacional acolherá 3000 jovens dos 18 aos 30 anos, vindos de mais de 50 países, de Taiwan à Venezuela.

Depois, os 3000 jovens serão divididos em grupos de 25, de diferentes nacionalidades, e enviados para mais de 100 lugares diferentes, na Península Ibérica. Aí, farão durante 6 dias uma experiência de partilha internacional, com propostas tão variadas como uma peregrinação pelo caminho aragonês de Santiago, trabalho com sem-abrigo em Barcelona, a montagem de teatro de rua junto do Castelo de Xavier ou ainda uma viagem de barco pelo Cantábrico. Algumas experiências serão em França e em Marrocos (peregrinação a Lourdes e encontro com o mundo islâmico em Arzila). Em Portugal, haverá 18 destas experiências, tais como seguir a “rota da lã e do queijo” na Serra da Estrela, "levar a alegria" às crianças hospitalizadas em Santo Tirso, ou aprender a moldar o barro em Monsaraz.

No dia 15 de Agosto, finalmente, todos os grupos viajarão para Madrid, para um dia final de "transição" antes da entrada em pleno na JMJ (de 16 a 21 de Agosto).

Gente de todo o mundo, que quer ser mais. Estar apaixonado é estar com Cristo no coração do mundo.

Todas as informações em www.magis2011.org.

15 de fevereiro de 2011

Cláudio de La Colombière

Cláudio de La Colombière nasceu em Saint-Symphorien, perto de Lion, França, em 1641. Estudou no colégio de Jesuítas de Lion e, e, 1659, entrou no Noviciado da Companhia de Jesus. Durante o tempo de estudos foi preceptor dos filhos de um Ministro de Luís XIV. Foi ordenado sacerdote em 1669, tendo voltado a Lion para leccionar no Colégio da Trindade, durante três anos. Mais tarde foi nomeado Superior da comunidade de Paray-le-Monial, onde acompanhou espiritualmente (santa) Margarida Maria de Alacoque, uma irmã da Visitação que, juntamente com o Pe. Cláudio, foram os grandes difusores da devoção ao Coração de Jesus. Posteriormente, Cláudio foi enviado a Inglaterra para ser confessor da Duquesa de York, esposa do futuro Jaime II de Inglaterra. Num período de grande perseguição ao catolicismo, Cláudio soube cumprir a sua missão com zelo, quer orientando espiritualmente membros da corte, quer através do ministério da Palavra e das obras de caridade, junto da população. Devido às perseguições movidas contra os católicos, que quase lhe custaram a vida, Cláudio volta, com a saúde muito debilitada, a França em 1678, onde vem a falecer em 15 de Fevereiro de 1681. Foi beatificado por Pio XI em 1929 e canonizado por João Paulo II em 1992.

Para além da sua profunda fidelidade à missão e dos dotes intelectuais que geralmente são atribuídos a Cláudio de La Colombière, não posso deixar de ressaltar aquele que é, certamente, o aspecto da sua vida que mais sobressai: o de impulsionador incansável da devoção ao Coração de Jesus. Hoje em dia, para quem ainda ouve falar destas coisas, imagem do “Coração de Jesus” tende a criar alguma perplexidade. Bem, para quem não gaste destas coisas, uma imagem assim deverá ser, no mínimo, estranha…

Mas, o que é isto da devoção ao Coração de Jesus? Não é outra coisa senão a devoção ao Amor de Deus que se revela no seu filho Jesus. Numa época em que era muito grande a ameaça do jansenismo – em traços muito gerais, uma corrente de pensamento de carácter muito rigorista em termos morais, que defendia uma visão pessimista do homem – tornava-se importante suscitar entre os cristãos esta dimensão amorosa de Deus, que quer divinizar o género humano.

Portanto, esta nunca poderá ser uma devoção esgotada. Nunca será demais falar de Deus como sendo Amor. De um Deus que, por amar sem limites o homem e a mulher que criou, se fez um de nós. Assim, nada no homem pode ser alheio ou estranho para Deus. De facto, precisamos de ouvir isto todos os dias. A humanidade precisa de escutar e tomar consciência deste amor em cada dia. Por isso, o Coração de Jesus não está fora de moda, porque não é de moda que se trata. É de Amor. Cláudio foi um dos que expeimentou este Amor, daí o seu zelo em difundi-lo. É próprio dos que se deixam amar assim.

13 de fevereiro de 2011

A “peça” que falta.

No Evangelho de hoje, Jesus aparece-nos como Aquele que vem completar a Lei e os Profetas. Mas ao dizer-nos para o que vem, diz-nos também para o que não vem: não vem para revogar nada. Assim, não pode existir lugar para dúvidas. “Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.” (Mc 4,9).

O que Jesus vem então anunciar é que a Lei não é completa. E não é, nem pode ser, pois o ser humano é um ser finito. Mas, sendo a Lei necessária, então tem de ser completada com essa “peça” que não “nasce” do homem. É oferecida ao homem: “… falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que já antes dos séculos Deus tinha destinado para a nossa glória.” (1 Cor 2, 7).

Assim, com essa “peça” que nos é oferecida, o homem poderá vir a conseguir viver com a Lei completa. Basta que o deseje e escolha: “Se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel depende da tua vontade.” (Sir 15, 15).

Apenas Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nos pode mostrar qual a sabedoria de Deus que completa o verdadeiro caminho que poderemos seguir. E, com essa ajuda, não parece difícil. O homem é que muitas vezes complica a questão. Por exemplo, como é que é possível cumprir uma lei que diz: “Não matarás.”, e não cumprir uma lei que diz: ”Não dirás mal do teu próximo.”? Se as duas leis são válidas, mas se não se cumprem as duas, então não se segue a lei completa.

Procuramos uma vida completa? Uma vida feliz? Então não podemos deixar esta “peça” de lado.

10 de fevereiro de 2011

Economia de Comunhão - Parte II

Quando em 1991, na cidade de São Paulo, Brasil, Chiara Lubich (fundadora do movimento dos focolares) se confrontou com as desigualdades sociais que deixavam milhões de pessoas na pobreza, sentiu uma grande urgência em propor um novo paradigma económico para uma nova cultura: uma economia de comunhão assente numa cultura que substituísse a cultura dominante do ter para uma cultura do dar e da reciprocidade.

A economia de comunhão caracteriza-se por conjugar a eficiência necessária à economia com a fraternidade própria da condição humana. Este novo paradigma económico acredita que os comportamentos económicos podem ter por detrás uma outra visão do homem: o homo donator, isto é, aquele que é capaz de dar porque se preocupa mais com o bem-estar de uma comunidade do que com o seu “auto-interesse”. O homo donator caracteriza-se por colocar o “outro” no centro das suas preocupações, interessa-se mais em dar do que em acumular, procura uma sociedade que substitua o verbo ter, pelo dar. É um homem aberto à comunhão, que percebe que o bem do próximo também lhe afecta.

A economia de comunhão tem atraído o interesse de pensadores de referência em diversas áreas do saber como economia, filosofia ou antropologia. Nas áreas económicas porque é um “abalo” aos alicerces da ciência económica; na filosofia porque coloca questões sobre a finalidade do homem, sobre a busca de felicidade, e sobre a gratuidade nas relações; e interessa às áreas antropológicas porque representa uma visão particular do ser humano.


A proposta de economia de comunhão procura humanizar a economia, comprometendo as empresas, em todos os aspectos das
suas actividades, centralizando a atenção nas exigências e nas aspirações de cada pessoa, bem como nas instâncias do bem comum.

A visão antropocêntrica da actividade económica não quer fazer com que as empresas se descomprometam do objectivo de gerar lucro e muito menos que se afastem da lógica da economia de mercado. Esta visão não nega o mercad
o, antes pelo contrário: aceita-o e assume-se como “jogador” de pleno direito. A distinção que as empresas aderentes à economia de comunhão pretendem está na forma como olham e se posicionam no mercado, e não na negação do próprio. Sociedades anti-mercado não são sociedades aceitáveis, mas também não são aceitáveis sociedades que só se relacionem segundo uma lógica de mercado. No fundo, diria que nem só mercado, nem sem mercado.

Esta corrente pode ser interpretada de forma erró
nea se for entendida como uma tentativa de abordagem caritativa aos problemas sociais, que a economia também tem gerado e aos quais não tem conseguido responder. Embora ganhe maior importância nestes tempos, a economia de comunhão é uma nova abordagem social e económica que ajuda à erradicação da pobreza e promoção da justiça, mas não apenas para hoje: para o futuro, também. Ou seja, é provável que esta doutrina evolua tanto mais quanto mais for difundida, quer ao nível empresarial, quer ao nível académico. Mas esta evolução que se prevê, nunca abandonará a sua intuição inicial: a divulgação de uma cultura do dar.



9 de fevereiro de 2011

Economia de Comunhão - Parte I


E se se pusesse em causa as bases que sustentam a actual ciência económica?
E se surgisse uma nova forma de entender a economia?


Estas seriam perguntas legítimas que poderiam ser feitas no rescaldo da constatação do fracasso dos actuais modelos económicos mundiais.

Antes de avançar com a reflexão propriamente dita é necessário começar por entender algumas das bases que sustentam a teoria económica. Muito
sucintamente e do modo mais simples possível, apresento-as nos seguintes items:
  • A ciência económica versa sobre o estudo dos comportamentos dos agentes económicos (homo oeconomicos);

  • O homo oeconomicos caracteriza-se por ser autónomo, fazer escolhas racionais com o intuito de tirar o maior proveito possível entre duas ou mais opções;

  • A economia de mercado procura o ponto de equilíbrio entre a melhor oferta e a melhor procura, isto é, a solução optimizada onde cada agente procura retirar o maior proveito possível.


A ciência económica, entendida como uma área autónoma, teve os seus inícios com Adam Smith (1723-1790). Este economista escocês afirmou que “não é da benevolência do padeiro, do talhante ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover o seu auto-interesse”. Com este pensamento, Adam Smith deu o tom que está na base do desenvolvimento da ciência económica até aos dias de hoje.

Será que esta afirmação é indiscutível? Será esta concepção de homem a melhor que a economia tem para propor ao mundo contemporâneo? O homo oeoconomicos exprime uma f
orma justa de viver? Quando procuro apenas o meu próprio interesse estou a fazer a melhor opção?

É embaraços
o para a economia explicar que 850 milhões de pessoas no mundo ainda carecem de uma alimentação suficiente para satisfazer as suas necessidades calóricas básicas ou que 1.2 mil milhões de pessoas por todo o mundo vivam com menos de 1.25 dólar por dia (pobreza extrema)1.
Perante tais desigualdades mundiais, que provocam situações de pobreza extrema, surgiu há quase 30 anos uma proposta de um novo paradigma na economia. Um novo paradigma que assenta numa nova cultura: a cultura do dar.

(continua…)



1 Dados Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM)

7 de fevereiro de 2011

JRS

No 20º aniversário da morte do Pe. Arrupe, lembramos uma sua obra: O Serviço Jesuíta aos Refugiados.



(Legendado pelo Pe. Luís Ferreira do Amaral s.j. que trabalha no J.R.S. em Bangui, capital da República Centro Africana.)

4 de fevereiro de 2011

João de Brito: português, jesuíta, missionário na Índia, mártir.

Quando nasceu, a 1 de Março de 1647, Portugal tinha acabado de sair da “incubadora”, pelo que, de certa forma, cresceram juntos. Aos 11 anos, contudo, João caiu doente. A memória de um “português honorário”, Francisco Xavier, co-fundador da Companhia de Jesus e missionário na Ásia, cujas cartas encheram salões de cortes e de universidades por toda a Europa com as histórias do Oriente, revigorou-o. Curado, passou a andar trajado “à jesuíta”. Essa profecia veio a concretizar-se, ainda que a contragosto da mãe, que o via já acumulando glórias para os Brito.

Como jesuíta, e não obstante a desenvoltura nas questões académicas, mostrou-se desde cedo inclinado para “as Índias”. Isso, de resto, não era propriamente raro: os heróis de então eram aventureiros ultramarinos. Uma vez na Índia, João experimentou aquilo que já outros jesuítas haviam sentido: como é que o evangelho encaixa nesta cultura?

A resposta a esta pergunta era (e é) crucial. Mas não era fácil; e nem sempre foi feliz ao longo da história. Muitas vezes, confundia-se o modo europeu de viver o evangelho com o próprio evangelho. Esse eurocentrismo resultava numa enorme dificuldade de compreensão da cultura e tradições locais, vistas amiúde como ímpias. Para sermos francos, este não é um problema nem de ontem, nem da fé. Aceitar os diferentes implicará sempre uma viagem missionária rumo ao lado-de-lá das nossas mútuas fronteiras, até que deixemos de ser o centro.

João, no entanto, adoptou rapidamente a cultura do Maduré, e também ele foi adoptado pela população. O discernimento difícil a respeito da relação entre evangelho e culturas europeia e indiana (com as suas mútuas resistências) foi alimentando tensões e suspeitas. Finalmente, a 4 de Fevereiro de 1697, João de Brito acabou por ser martirizado, sob a acusação de querer eliminar as tradições locais em nome da religião.

A grande dificuldade do anúncio da fé está em conseguir transmitir que aquilo que nos chega de fora (as palavras e as fórmulas) é apenas sintoma do que trazemos por dentro (a própria vida de Deus). Precisamos de linguagens e de gestos: é por meio deles que comunicamos e que compreendemos – de uma determinada forma – o mundo. Assim é nas ciências (há que aprender cientês para ver o mundo como um cientista), nas artes, mas desde logo nos pequenos grupos (com os seus locais de culto próprios – “aquele café” – e os seus ritos – “vamos fumar um cigarro?”). Assim é também na fé. No entanto, enquanto essas linguagens forem apenas exteriores, nunca descobriremos o seu verdadeiro sentido. Enquanto não respirarmos ciência, uma experiência é apenas um protocolo; enquanto não vibrarmos com a arte, uma tela cor-de-laranja é apenas um capricho de um artista; enquanto não formos verdadeiramente íntimos daqueles de quem gostamos, cafés e cigarros são apenas entretenimento e poluição, e nunca relação. Por isso, precisamos das exterioridades para aprender a ver e a viver no mundo; mas tudo isso só terá sentido quando descobrirmos o mundo que trazemos por dentro.

O evangelho não muda uma cultura; cultiva-nos para que a saibamos viver bem.