30 de março de 2011

Brota proveito no equilíbrio!

O sentimento deixa-me descansado. A razão não me exige explicação.

Ainda que a imagem seja esquisita, olho para ela e encontro algo de coerente.



Não sei muito bem o que é, e por isso continuo a escrever.



Sou incapaz de perceber se sopra o vento mas, mesmo assim, deduzo que as folhas não se poderiam mexer à vontade se não fosse graças à solidez conferida pelo tronco. Um tronco inesperado e provocativo, dado que não é seiva o que corre pelo seu peito de cortiça, mas um bloco compacto de mármore. Robusto, sem dúvida.



Um achado assim no meio do relvado tornar-se-ia um autêntico absurdo, se não fosse porque a sua consistência propicia a vitalidade dos ramos que nascem a partir dele.



Detecto logo uma reciprocidade entre estes dois elementos. Não consigo distinguir em que ponto se produz o intercâmbio de qualidades mas, antes de mais, fico convencido de que esta simbiose é eficaz.



Um pensamento espontâneo demonstra-me que não estou demasiado enganado, dado que nenhuma destas duas partes seria capaz de subsistir na sua independência. A copa frondosa precisa da coluna estável. A coluna estável precisa da copa frondosa. Se não, a primeira murcharia. Se não, a segunda perderia a sua eficácia.



Este conjunto amável na sua funcionalidade ultrapassa todo o escrúpulo estético.



Mas deixem-me tirar algum proveito deste entretenimento gráfico e informático.



Estou consciente do risco de abusar da minha subjectividade. Também de interpretar a imagem demais onde simplesmente se encontra um insulto engraçado à Natureza vegetal.



A coluna é a tradição, o resto da árvore é o progresso. Vêm-me à mente mais alguns pares de conceitos aplicáveis às reacções após considerar esta imagem. Estou a ver o conhecimento descoberto durante séculos e as inúmeras possibilidades actuais, a sabedoria do passado e os desafios do futuro, o peso do consistente e a ligeireza do passageiro, as histórias das sociedades e a sociedade perante a História.



Pode-se aplicar a estas deduções o lido até este momento.



Haverá quem sinta a necessidade de refugiar-se nas seguranças da pedra e haverá quem prefira a agilidade das folhas quase livres no ar.



Cada pessoa possui um feitio, e este feitio aproxima-se inevitavelmente para uma das duas partes do nosso objecto, quer para a cinzenta quer para a verde. Mas, não só acontece isto com os feitios, mas também com as ideologias, com as escalas de valores, com os gostos vitais, com as perspectivas críticas, com a atitude perante o desconhecido…



Sendo bastante consciente da perigosidade do extremismo, eu não duvidaria em fazer o esforço de encontrar a opção equilibrada. No nosso caso, tratar-se-ia desse ponto de confluência entre a rigidez que sobe do chão e a frescura que acaricia as nuvens.



Saber encontrar o coração deste convívio pacífico garante que sejamos capazes de apreender na vida sem esquecer o que já nos ensinaram, de nos adentrar nos anos que virão sem deixar de valorizar os que já não voltarão, de observar o vindouro com esperança sem desprestigiar o que aparece no canto do olho.



Dedicar uns parágrafos sugestivos a esta imagem não é fácil.



Conviver na relatividade do presente também não.



Mas é aqui que vivemos, e é com esta realidade que lidamos.



Antes de acabar, sou eu agora quem propõe uma imagem irreal, impossível.



Experimentem trocar a posição desta coluna e desta copa sem mudar o seu chão e o seu céu.



Razoável?


Não sofre o sentimento?

27 de março de 2011

Temos sede!

Aquando dos últimos dois grandes, e trágicos, tsunamis que se registaram no nosso planeta, no meio de tantas mortes, destruição e sofrimento, ouvimos histórias muito felizes de pessoas que sobreviveram depois de vários dias debaixo dos escombros, principalmente porque tinham algo para beber (a água é um bem essencial para o nosso organismo, sendo que mais de 70% do nosso corpo é constituído por água), e porque alguém não desistiu de as procurar. Foram salvas!

No Evangelho de hoje fala-se também de água , de sede, e do desejo de salvação. Mas não só de sede de água, de H2O (fórmula química da água). Fala-se de sede de vida, de sede de esperança. Num horizonte espaço-temporal de maior proximidade, qual de nós, portugueses, não procura hoje sinais de esperança perante a situação tão difícil em que se encontra o país? Qual de nós, portugueses, não tem hoje sede de justiça social, sede de alguém que nos dê sinais indicando que as dificuldades pelas quais passamos terão solução?

Esta é uma sede de algo tão vital para o homem como vital é a água. É sede de esperança, de confiança, de ajuda, de alegria, de felicidade,...

Mas onde procuramos nós tudo isso? Onde procurar tudo isso?

No diálogo entre Jesus e a Samaritana, quem pede ajuda primeiro é o próprio Jesus: “Dá-Me de beber” (Jo 4, 7). Esse pedido pode ser visto como um sinal de que Deus procura a ajuda da humanidade, de que Deus precisa da humanidade, de que Deus dialoga, quer dialogar, com a humanidade. Provavelmente, por isso poder parecer-nos muito estranho, a nossa primeira reacção é igual à da Samaritana, e perguntamos: “Como é que Tu, sendo Deus, me pedes de beber, sendo eu um homem, sendo eu uma mulher?” E se, muitas vezes, ou sempre, não encontramos resposta a esta pergunta, porque não começar por ouvir o que Jesus responde: “Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!” (Jo 4, 10). Então, porque não procurar ajuda onde muitas vezes penso que ela não está? Quando a Samaritana percebeu que Jesus a poderia ajudar a suprimir as suas “sedes” mais profundas, suplicou: “Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.” (Jo 4, 15).

Depois, de tal forma a sua vida se transformou que, “Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram Nele devido às palavras da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz.» [...] então muitos mais acreditaram Nele por causa da sua pregação, e diziam à mulher: «Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.».” (Jo 4, 39-42).

Encontro alguém à minha volta que me ajude a matar “as sedes”? A reencontrar a esperança, a reganhar confiança,... Quando não encontro, disponho-me a procurar? Abro-me à possibilidade de essa ajuda poder vir de onde menos espero? De quem menos espero? Não vale desistir!

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.” (Cf. Refrão do Salmo da Missa de hoje).


Leituras da Missa de hoje: LEITURA I Ex 17, 3-7 | SALMO RESPONSORIAL Salmo 94 (95), 1-2.6-7.8-9 (R. cf. 8) | LEITURA II Rom 5, 1-2.5-8 | EVANGELHO Jo 4, 5-42

26 de março de 2011

Portugal também precisa de um "Átrio dos Gentios"

O responsável pela relação da Igreja católica com a cultura, padre José Tolentino Mendonça, considera que Portugal também precisa de um “Átrio dos Gentios”, designação dada ao novo organismo do Vaticano para o diálogo com os não crentes.

«É necessário introduzir a dinâmica do projeto nas dinâmicas das dioceses, movimentos e realidades eclesiais, porque ele constitui um desafio urgente de abertura e diálogo», afirmou em declarações à Agência Ecclesia.

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sublinha que em Portugal se têm realizado experiências concretas, «extremamente fecundas em determinados momentos», de diálogo entre crentes e não crentes.

Referindo-se ao primeiro encontro internacional da estrutura da Santa Sé, que decorre em Paris, Tolentino Mendonça defende que «é preciso substituir o confronto pelo encontro e diálogo».

«O grande desafio é dizer “busquemos conjuntamente”: em vez de vivermos numa cultura de acusação mútua e de suspeição recíproca, confiemos uns nos outros, acreditando que os agnósticos, ateus e não crentes também buscam um sentido da vida e têm muito a ensinar aos crentes».

A espiritualidade dos católicos, por seu lado, pode ser avaliada como «uma experiência humana legítima, aceite e reconhecida fora das fronteiras da crença», sugere o sacerdote madeirense.

No entender do responsável, as iniciativas que decorrem na capital francesa «são o reflexo do esforço de encontro e diálogo que a Igreja pretende promover com o mundo contemporâneo, onde a presença dos não crentes é uma realidade muito forte».

Tolentino Mendonça recorda que «o modelo de entendimento da relação da Igreja com o mundo já está estabelecido» desde o Concílio Vaticano II (1962-1965).

«O que falta – salienta – é a ousadia da prática, de uma forma criativa, através das instâncias culturais, que são o elo comum entre crentes e não crentes», dado que «a gramática cultural» constitui «um lugar de encontro para as grandes procuras humanas».

«Basta olhar para o programa de Paris para verificar que temos a utilização de linguagens muito diferentes: as conferências e mesas-redondas, mas também as peças de teatro, a música e o audiovisual», assinala.

O especialista em hebraico diz que «a imagem do mestre que conversa com os estrangeiros», como acontecia no “Pátio dos Gentios” localizado no templo de Jerusalém, o local mais importante do culto judaico ao tempo de Jesus, traduz a «disponibilidade para a conversa, o caminho comum, a escuta e a aprendizagem» que a Igreja «quer recuperar para relançar uma nova atitude».

«A Igreja não é apenas ensino; ela também precisa de aprender a verdade do outro, como lembrou Bento XVI no Centro Cultural de Belém» [Lisboa, 12 de maio de 2010], frisa Tolentino Mendonça.

[Texto de Rui Martins In Agência Ecclesia]

24 de março de 2011

.Seja como for.


Só em meio do nada.

Umas figuras humanas ameaçam o que antes era companhia.

Perdeu-se a proximidade.

Escassos metros são distância.

Afecto amargo em insuperável abismo.

O inoportuno dum descuido fere esta solidão rotunda.

Inevitável indefensão, pena imutável.

Lágrima e lástima em sinfonia de silêncio.

Aterram as folhas e troça o vento.

Não foca a lua por vergonha: manda às suas nuvens dissimular este escândalo sem ciência.

O rosto em terra e a terra detesta-o.

Sangra o sonho de servir a causa certa.

O manto sua lamento.

Em vão, pois não há ouvido atento.

Órfão deixou-o o deus paterno.

Instantes intermináveis de dor acumulada.

Não há ombro próximo para o aliviar.

E soam passos perto: não amaina mas aumenta esta tempestade.

Sem ninguém, avança. Sozinho vai.

A sua vontade arrancada é de abraçar as últimas consequências.

Ama tanto que de si se esquece.

Urge a noite e rasga condenado o dia.

Seja como for.

Sem remédio, que assim seja.

(Álber, sj)

21 de março de 2011

PÁTIO DOS GENTIOS | A falar é que a gente se entende!


“Penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de "átrio dos gentios", onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem O conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja. Ao diálogo com as religiões deve acrescentar-se hoje sobretudo o diálogo com aquelas pessoas para quem a religião é uma realidade estranha, para quem Deus é desconhecido, e contudo a sua vontade não é permanecer simplesmente sem Deus, mas aproximar-se d'Ele pelo menos como Desconhecido."

In Discurso do Papa Bento XVI à Cúria Romana para a apresentação dos bons votos de natal, no dia 21 de Dezembro de 2009.

Passados três meses, no passado dia 18 de Março, o Vaticano apresentou uma nova estrutura para o diálogo com os não crentes, denominada “Pátio dos Gentios” (evoca o espaço com o mesmo nome que no antigo Templo de Jerusalém hospedava os não judeus.), a qual, segundo o presidente do Conselho Pontifício da Cultura (CPC), o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, se destina a «derrubar» muros. “Crentes e não crentes estão em territórios diferentes, mas não se devem encerrar num isolamento sacro ou laico, ignorando-se ou, pior, lançando troças e acusações recíprocas, como desejariam os fundamentalistas de uma e outra parte», sublinhou o prelado na conferência de imprensa realizada no Vaticano.

O “Cortile dei Gentili”, cujo objectivo é, segundo a Santa Sé, «contribuir para que as grandes interrogações da existência humana, sobretudo as de carácter espiritual, sejam verdadeiramente tomadas em conta», vai ter a sua primeira iniciativa internacional já a 24 e 25 de Março em Paris, cidade escolhida por representar a «herança do iluminismo». Três colóquios sobre o tema “Iluminismo, religiões e razão comum” ganham destaque nesta «iniciativa de intercâmbio, diálogo e acção comum entre crentes e não crentes», promovida por indicação do Papa Bento XVI. As conferências, que decorrem em espaços simbólicos do mundo laico, realizam-se na tarde de 24 de Março (na sede da UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), e no dia seguinte (Universidade de Sorbonne e Academia de França). A directora-geral da UNESCO, Irina Bokova, o ex-primeiro-ministro italiano Giuliano Amato e o filósofo Jean-Luc Marion são algumas das presenças confirmadas.

Depois das sessões está prevista uma mesa-redonda no Colégio dos Bernardinos, edifício histórico do século XIII. A iniciativa inclui ainda uma festa pensada para os mais jovens, designada “No pátio do Desconhecido”, que vai decorrer na catedral de Notre Dame, também na capital francesa, com música, espectáculos e um encontro de reflexão, seguindo-se uma vigília de oração e uma meditação. Durante este momento, agendado para 25 de Março, o Papa vai falar sobre o «significado e os objectivos» da iniciativa através de uma ligação em directo ao Vaticano.

O Vaticano assinala que, depois de Paris, as iniciativas do «Pátio dos Gentios» vão passar por Florença (Itália), Tirana (Albânia), Estocolmo (Suécia), Berlim (Alemanha), Moscovo (Rússia), Quebeque (Canadá), Praga (República Checa), Chicago e Washington (EUA).

Informação retirada da Agência Ecclesia

20 de março de 2011

Como é bom estarmos aqui!

Jesus sobe ao Monte com três amigos e “transfigura-se” (muda de aspecto) diante deles… O homem que é capaz de amar em profundidade cada homem e cada mulher com quem se cruza, sente também necessidade de ter alguns amigos mais íntimos com os quais quer partilhar momentos especiais.

O cenário no Monte é bastante agradável: o rosto de Jesus fica «resplandecente como o sol» e as suas roupas «brancas como a luz»… Pedro, um dos amigos, chega mesmo a dizer: «como é bom estarmos aqui!» De facto, já todos nós vivemos experiências assim com aqueles amigos mais próximos: uma viagem que nunca deveria ter terminado, subir a um monte e desfrutar de uma paisagem, um fim de tarde numa esplanada no meio da cidade, ou uma noite na praia, a ver as estrelas e ficar ali, à conversa ou, simplesmente, em silêncio a desfrutar da presença do outro…

No fundo, esta é também a relação que Jesus, a partir deste Evangelho, nos ensina a viver com Ele. Neste domingo convida-nos a subirmos com Ele ao Monte para, no silêncio, nos ouvir e se dar a conhecer. É antiga a proposta da Igreja de nos desafiar à oração mais intensa neste tempo de Quaresma. A retirarmo-nos, por um momento, para estarmos inteiros com Jesus. Desfrutar da sua presença e intimidade. Simples. Mas cheia de beleza. Como dois, três ou quatro amigos que se encontram simplesmente para estar.

Depois, tal como aconteceu com estes amigos, descemos do monte e recomeça a rotina. Mas já não voltamos iguais ao que éramos antes...

Mt 17, 1-9

19 de março de 2011

A Igreja não prova a existência de Deus, testemunha-a.

Que provas dá a Igreja da existência de Deus?, perguntaram-me há dias.

Como responder a uma pergunta, imagino que sincera, mas, em si mesma, tão insidiosa? Que dizer de significativo se, à partida, Deus fosse colocado como simples objecto de uma prova científica ou como demonstração de tipo matemático? Existirá, na história do cristianismo, uma única pessoa que tenha chegado à fé, só porque alguém, particularmente inteligente e claro, lhe provou que Deus, de facto, existe? Ou, ao invés, haverá alguém que deixe de crer, simplesmente porque outro, igualmente inteligente e muito esclarecido, lhe prova que Deus, afinal, não existe?

Bastaria abrir uma só vez qualquer página da Escritura para perceber que, na tradição hebraico-cristã, a existência de Deus se coloca num registo totalmente diferente. Antes de mais, porque é o Deus de um povo, de homens e de mulheres de carne e de respiro. Ou bastaria recordar que o cristianismo não se compreende sem a encarnação de Deus na história de Jesus. Portanto, que Deus não diz de Si senão enquanto Se dá a nós, dando-Se a reconhecer por dentro dos cumes e dos abismos da nossa humanidade, das nossas linguagens, dos nossos ritmos e lugares. A fé cristã não professa simplesmente que Deus existe (seria tão pouco ou quase nada), mas, sim, que a Sua existência é radicalmente relevante para a nossa. Em Jesus, sim, professa que Deus existe, mas enquanto existe desde sempre para nós e que é para sempre connosco. Deus é enquanto Se dá e dá-Se enquanto Se dá ao reconhecimento dos nossos afectos e da nossa inteligência. No fundo, da nossa liberdade.
É verdade que o tema das provas da existência de Deus é muito antigo no pensamento cristão. Diz respeito ao «conjunto de procedimentos intelectuais pelos quais a razão humana se eleva até à formulação de Deus». Sobre ele escreveram pensadores de tanta relevância como S. Agostinho, S. Anselmo, S. Tomás, Kant ou Hegel. Em 1870, foi um Concílio, o Vaticano I, a afirmar que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido e, portanto, demonstrado a partir «das obras visíveis da criação», tal como uma causa é conhecida pelos seus efeitos. Não é pouco o que aqui se declara. Trata-se da relação íntima e inseparável que, no cristianismo, se estabelece entre criação, fé, inteligência e procura da verdade. Ou, de outro modo, da afirmação de que Deus, Aquele que na fé Se professa e Se adora, não é estranho à razão que partilhamos enquanto seres humanos. O Papa Bento XVI não se tem cansado de o recordar. Sabemos, porém, que colocar, hoje, a questão de Deus em termos de provas irrefutáveis, ilude, antes de mais, a dinâmica e a
fecundidade existencial da fé que é sempre visceral e dramática. Sendo questão de vida, não pode não implicar a totalidade de uma vida e uma vida toda. Além disso, não é difícil encontrar quem, por meio de provas irrefutáveis, pretenda argumentar a não existência de Deus. Basta recordar R. Dawkins (A ilusão de Deus) – autor que recentemente escreveu sobre as «razões para não crer». Colocando-se no campo das provas, pretendeu provar, finalmente, que Deus é apenas uma ilusão. Mas, dito isto, sobre Deus e sobre a fé, não ficou ainda (quase) tudo por dizer?
Voltando à pergunta inicial – que provas dá a Igreja da existência de Deus? – responderei que a Igreja não prova, testemunha. A primeira testemunha é o próprio Jesus que, na história da sua vida entre nós, realiza a reciprocidade mais perfeita que um homem pode desejar ter com a sua própria origem. A esta chamou Pai. Assim é para cada cristão. Pela configuração da sua vida ao Evangelho de Jesus, cada qual, segundo a sua medida, diz quem Deus é, garantindo que quer ser para nós, mas não sem implicar a nossa liberdade. Depois, por serem testemunhas, nem os cristãos, nem os mártires entre eles, são cópias ou repetidores. Por darem uma configuração particular e única à «verdade que é a vida de todos e de sempre»; por lhe darem corpo e biografia, cada qual testemunhará sempre a originalidade de um encontro único, dizendo, por isso, algo de singular sobre a infinita riqueza de Deus que é para nós.

Para aprofundar este tema:
J. I. G. FAUS – I. SOTELO, Deus e a Fé, Casa das Letras, 2005.
E. SALMANN, La palabra partida: Cristianismo y cultura postmoderna, PPC, 1999.
P. SEQUERI, La idea de la fé, Sigueme, 2007.

Texto de José Frazão Correia sj na Secção Razões da Fé de essejota.net

15 de março de 2011

Escolher a Vida

Oprah Winfrey é das apresentadoras mais conhecidas em todo o mundo: a sua história é conhecida de muita gente; nos EUA, o seu programa cria tendências e modas, torna anónimos em celebridades, é capaz de angariar milhões para uma causa de solidariedade.

A vida religiosa não está na moda: ou é um desgosto de amor, ou fuga da vida, ou gente retrógrada, conservadora e alheada da realidade do mundo.

Oprah quis saber por que razão há mulheres que “trocam” o glamour das roupas e das festas, uma carreira executiva prometedora, uma vida sexual activa, por uma vida aparentemente desprovida de sentido. Encontrou no convento das Irmãs Dominicanas de Maria, em Detroit, cem mulheres alegres, cheias de vida, cuja resposta para a felicidade é Jesus.

Aqui está a entrevista e a reportagem. Oprah faz as perguntas que muita gente faz ou gostava de fazer, sem tabus. Viver a castidade, a obediência, a pobreza como uma escolha livre, uma entrega radical a Jesus, que se reflecte – e só pode ser assim – na entrega gratuita aos outros.

13 de março de 2011

.Sim, sou tentado.

Quanto mais se identifica a sua condição com a nossa fraqueza, mais credível se torna sua grandeza.

No deserto. O filho de Deus tentado. (Mt 4, 1-11)

Eu não sou ninguém para mergulhar sequer nas Suas tentações.

Limito-me apenas a encontrar entre estes homens as suas homólogas.

Existem de todas as cores e tamanhos. Todas imensamente atractivas.

Tentação de crer que este mundo é um trágico erro sem remédio, de pretender impor uma razão que destroça toda a opinião diferente numa conversa, de encarar sempre o que acontece com a violência de uma crítica mordaz, de saber-se melhor e mais capaz do que todos aqueles com os que se partilha comunidade, de ignorar o mais próximo apenas por causa do seu feitio, de deixar que um excesso de passividade entope a iniciativa natural, de não valorizar o pormenor indo em constante procura do sublime, de atirar a toalha ao chão confiando em que isso de confiar é coisa de crentes, de asfixiar todo o gesto espontâneo por culpa de um formalismo mal interpretado, de tingir de pessimismo as inúmeras oportunidades de crescimento que existem, de sepultar-se em baixo duma tristeza sempre menor que toda a alegria escondida, de esquecer que Cristo é pão.

Tentação de inclinar-se para extremismos perigosos que ignoram que o equilíbrio é muito mais recomendável, de estragar a beleza da sexualidade por perseguir apenas uma satisfação pessoal, de marginalizar aspectos da vida que merecem bastante mais atenção, de conformar-se com o suficiente embora haja sempre possibilidades de mais, de tirar proveito da debilidade de quem é encontrado por acaso, de eliminar o privilégio da vida própria ou alheia, de ultrapassar o ritmo de Deus no momento da oração, de idolatrar tudo aquilo que possa ser motivo duma mínima atracção; de reconhecer-se num nível inferior aos colegas, traindo uma data de qualidades inerentes; de esquecer que Cristo é modelo.

Tentação de competir enfurecidamente violando prioridades, de apartar os pobres do projecto de colaboração, de disfarçar com palavras inventadas as acções inatingíveis, de absolutizar o que é só relativo, de pretender fingir uma imagem que em verdade não pertence, de culpar a memória após os tropeções repetidos, de fugir em resposta a uma realidade desagradável, de escolher condenar em vez de perdoar, de construir uma vida sobre os alicerces do egoísmo tão destrutor, de esquecer que Cristo é serviço.

“Tentação de…” Estas são só algumas.

Quais as minhas? Quais as tuas?

A tentação não o é em si mesma, mas só aos olhos do tentado.

Se a consentimos, pecamos.

Se permanecemos cegos a ela, enganamo-nos.

Que situação complicada!

Manter-se espevitado para a reconhecer, acesa a atenção para detectá-la, parece ser bom conselho.

Jesus assim venceu-as.

Aliás, demonstrou que é possível.

Força então!

12 de março de 2011

Aconteceu a 12 de Março de 1622

Hoje lembramos a canonização de Santo Inácio de Loyola e de São Francisco Xavier, pois foi há 389 anos que o Papa Gregório XV proclamou santos dois dos fundadores da Companhia de Jesus, juntamente com Santa Teresa de Ávila, Santo Isidoro e São Filipe Neri. Transcrevo aqui um excerto de uma extraordinária carta enviada por volta do ano 1542 desde a Índia, por Francisco Xavier, para Roma, onde se encontrava Inácio de Loyola.

“Viemos por povoações de cristãos, que se converteram há uns oito anos. Nestes sítios não vivem portugueses, por a terra ser muitíssimo estéril e extremamente pobre. Os cristãos destes lugares, por não terem quem os instrua na nossa fé, somente sabem dizer que são cristãos. Não têm quem lhes diga Missa e, ainda menos, quem lhes ensine a Credo, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e os Mandamentos.

Quando eu chegava a estas povoações, baptiza todas as crianças por baptizar. Desta forma, baptizei uma grande multidão de meninos que não sabiam distinguir a mão direita da esquerda. Ao entrar nos povoados, as crianças não me deixavam rezar o Ofício divino, nem comer, nem dormir, e só queriam que lhes ensinasse algumas orações.

Comecei então a saber por que é deles o reino dos Céus. Como seria ímpio negar-me a pedido tão santo, comecei pela confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelo Credo, Pai-nosso, Ave-Maria, e assim os fui ensinando. Descobri neles grande inteligência. Se houvesse quem os instruísse na fé, tenho por certo que seriam bons cristãos.

Muitos deixam de se fazer cristãos nestas terras, por não haver quem se ocupe de tão santas obras.

Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos colégios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o juízo e, principalmente à Universidade de Paris, falando na Sorbonne aos que têm mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir à glória e vão ao inferno por negligência deles! E se assim como vão estudando as letras, estudassem a conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas e do talento que lhes deu, muitos se moveriam a procurar, por meio dos Exercícios Espirituais, conhecer e sentir dentro de suas almas a vontade divina, conformando-se mais com ela do que com suas próprias afeições, dizendo: «Senhor, eis-me aqui; que quereis que eu faça? Mandai-me para onde quiserdes; e se for preciso, até mesmo para a Índia».”

10 de março de 2011

.É estarmos doutra maneira.

Convocaste-nos para te despedires.

Sabias que ias, e não fugias.

Não querias ir embora mas devias.

Saíste a morrer, e ficaste a alimentar.

Num pão, dentro, diariamente elaborado.

É a contínua lembrança dum mistério não esquecido.

Incansavelmente celebrada,

pois consiste em participar partilhando.

É dar-se sentindo, sabendo agradecer o que temos,

mostrando-o e repartindo.

É a novidade da tua presença,

é ficares a tua ocorrência.

É estarmos de outra maneira.

Esse pão não é já só pão, mas provocação de quem se dá.

Convidas a uma vocação de generosidade,

e o teu sonho torna-se real.

Morre em paz, pois não se ignora a tua bondade.

Tomamos e comemos.

Uma e mais uma vez.

(Álber,sj)



9 de março de 2011

Memento aos vivos


«Lembra-te, homem, que és pó e em pó te hás-de tornar»


Pe. António Vieira, em Sermão de Quarta-feira de Cinzas, sobre a vaidade do pó levantado:

«(…) em que nos distinguimos os vivos dos mortos? (…) Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são o pó que anda, os mortos são o pó que jaz: Hic jacet [1]. Estão essas praças de Verão cobertas de pó: dá um pé-de-vento, levanta-se o pó no ar, e que faz? O que fazem os vivos, e muitos vivos. Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por essa rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra; em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é. E que pó, e que vento é este? O pó somos nós: Quia pulvis es [2]: o vento é a nossa vida: Quia ventus est vita mea [3]. Deu o vento, levantou-se o pó: parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó levantado; estes são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído; estes são os mortos. Os vivos pó, os mortos pó; os vivos pó levantado, os mortos pó caído; os vivos pó com vento, e por isso vãos; os mortos pó sem vento, e por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra.

(…)

À vista desta distinção tão verdadeira, e deste desengano tão certo, que posso eu dizer ao nosso pó, senão o que lhe diz a Igreja: Memento homo? Dois Mementos hei-de fazer hoje ao pó: um Memento ao pó levantado, outro Memento ao pó caído: um Memento ao pó que somos, outro Memento ao pó que havemos de ser: um Memento ao pó que me ouve, outro Memento ao pó que não pode ouvir. O primeiro será o Memento dos vivos, o segundo o dos mortos.

Aos vivos, que direi eu? Digo que se lembre o pó levantado que há de ser pó caído. Levante-se o pó com o vento da vida, e muito mais com o vento da fortuna [4]; mas lembre-se o pó, que o vento da fortuna não pode durar mais que o vento da vida, e que pode durar muito menos, porque é mais inconstante. O vento da vida por mais que cresça, nunca pode chegar a ser bonança; o vento da fortuna, se cresce, pode chegar a ser tempestade, e tão grande tempestade que se afogue nela o mesmo vento da vida. Pó levantado, lembra-te outra vez, que hás-de ser pó caído, e que tudo há-de cair e ser pó contigo. Estátua de Nabuco: ouro, prata, bronze, ferro, lustre, riqueza, fama, poder; lembra-te que tudo há-de cair de um golpe, e que então se verá o que agora não queremos ver: que tudo é pó, e pó de terra. Eu não me admiro, senhores, que aquela estátua em um momento se convertesse toda em pó; era imagem de homem, isso bastava. O que me admira, e admirou sempre, é que se convertesse, como diz o Texto, em pó de terra: In favillam aestivae areae [5]. A cabeça da estátua não era de ouro? Pois por que se não converte o ouro em pó de ouro? O peito e os braços não eram de prata? Por que se não converte a prata em pó de prata? O ventre não era de bronze, e o demais de ferro? Por que se não converte o bronze em pó de bronze e o ferro em pó de ferro? Mas o ouro, a prata, o bronze, o ferro, tudo em pó de terra? Sim. Tudo em pó de terra. Cuida o ilustre desvanecido que é de ouro, e todo esse resplendor em caindo, há de ser pó, e pó de terra. Cuida o rico inchado que é de prata, e toda essa riqueza em caindo há de ser pó, e pó de terra. Cuida o robusto que é de bronze, cuida o valente que é de ferro, um confiado, outro arrogante; e toda essa fortaleza, e toda essa valentia em caindo, há de ser pó, e pó de terra: In favillam aestivae areae.

(…) O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade e a fortuna os que fez iguais a razão. Ouvi a S. Agostinho: Respice sepulchra et vide quis dominus, quis servus, quis pauper, quis dives? Discerne, si potes, regem a vincto, fortem a debili, pulchrum a deformi: Abri aquelas sepulturas, diz Agostinho, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não, por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o etíope, todos ali são da mesma cor.»


A única distinção entre vivos e mortos é serem uns pó levantado e outros pó caído, que jaz. E não só não atentam os primeiros à sua finitude, como se nunca houvessem de cair, não só é tão ténue esta distinção que pertence ao vento, também se distinguem entre si, dando-se cores, considerando-se de dignidades diferentes, sem que a natureza o permita, pois uma vez caídos todos revelam a mesma cor. O dedo de Vieira está apontado à vaidade, no seu sentido etimológico daquilo que é vão. Vão é viver sem um olhar sobre a morte, sobre essa verdade que há-de trazer realismo a tantas ilusões e responsabilidade a tantos sonhos. Vão é viver como se algo nos distinguisse em diferentes dignidades e não ver como nos irmana a mesma condição humana, simultaneamente frágil e virtuosa.

A proposta deste dia, primeiro da Quaresma, novo tempo do dinamismo litúrgico anual da Igreja, é a de não viver uma vida vã. A Igreja tem, ao longo e no fim deste percurso quaresmal, uma Boa Nova para aqueles que, na verdade da sua humanidade, a quiserem escutar: O pó levantado e caído é pó amado; e o pó amado é pó erguido para a vida eterna.

Hoje, "lembra-te, homem, que és pó".


1 – "Aqui jaz"; 2 – "que és pó"; 3 – "vento é a minha vida"; 4 – sorte, ventura; 5 – "na cinza das praças de Verão".

6 de março de 2011

Sede o meu refúgio, Senhor. Salmo 31(30).

Em vós, Senhor, me refúgio,

jamais serei confundido (…)

Sede a ROCHA do meu refúgio

e a fortaleza da minha salvação;

porque Vós sois a minha força e o meu refúgio,

por amor do vosso nome, guiai-me e conduzi-me (…)



Na verdade, o termo hebraico normal para dizer «ROCHA», «ROCHEDO», «pedra firme», é tsûr ou sela‘, que designa também Deus no AT por 33 vezes, duas delas no Salmo Responsorial de hoje, o Salmo 31(30). Mas o hebraico também conhece o termo kef, aramaico kêfa’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e protecção a uma vida nova. Esta segunda cascata de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaf, palma da mão; kef, rochedo esburacado (grutas); kêfa’ (aramaico), rochedo esburacado; kêfãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado a Pedro (Jo 1,42), única vez nos Evangelhos; kîpah, folha de palmeira, e solidéu de veludo ou tricotado com que os judeus cobrem a cabeça, assinalando a protecção de Deus; kafar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão, propiciação, que aparece na leitura de hoje da Carta aos Romanos 3,25, aplicado a Jesus Cristo. D. António Couto (in mesadepalavras.wordpress.com)

Em 1993, o escultor Basco Eduardo Chillida, já falecido, recebeu uma encomenda do Governo das Canárias para realizar um monumento/escultura etnográfico na Montanha de Tindaya, em Fuerteventura, que a converteria numa referencia mundial. A ideia de Chillida consistia em abrir um canal na montanha e fazer um cubo interno de 50x50x50 metros, com dois túneis de 200 metros que funcionassem como clarabóias. Eduardo Chillida disse: "a minha única ambição é criar um espaço útil para toda a humanidade, para que quando um ser humano entre nesse cubo vazio de 50 por 50 por 50 metros sinta a sua plenitude e a pequenez humana".

Universos diferentes e a mesma imagem. Um Deus casa – em ROCHA firme – uma gruta, onde se dá o encontro com a Humanidade.

Talvez construir sobre a rocha, seja escavar em Deus.

3 de março de 2011

O Ser humano como corpo e o Cristianismo, por Nilo Ribeiro Junior S.J.

O corpo na contemporaneidade é exaltado a ponto de as identidades serem definidas em função de certa retomada de um vitalismo difuso na forma de uma estética da boa saúde e da boa forma. Em certo sentido este fenômeno é uma “invenção” da Cultura Somática ocidental graças aos últimos avanços das ciências, sobretudo da biologia e da informática. Estas passaram a exercer forte impacto sobre o “imaginário” do corpo e, consequentemente, da investigação e da compreensão hodierna a respeito da condição carnal do ser humano. Entretanto, apesar da hipervalorização do corpo associada ao advento do “indivíduo” em detrimento da pessoalidade do ser humano, o fenômeno cultural anuncia certo paradoxo. De um lado o corpo nunca esteve tão em voga ou em evidência se comparado a outras épocas e outras culturas. De outro, a cultura contemporânea corre o risco de reduzir o corpo à mera condição performática e de interpretá-lo a partir de uma estética objetal em que seus aspectos exteriores suplantam a fecundidade da interioridade vivida e sentida bem como a socialidade ou a narratividade da condição humana encarnada.

O cristianismo, por sua vez, identifica-se a uma religião no sentido eminentemente simbólico que a palavra comporta enquanto realidade capaz de religar (religare) o real. Nele, o humano e o divino se aproximam de maneira inédita e se significam graças ao que se denomina de Evento Cristo. Pelo fato de a Encarnação do Filho de Deus (Jo. 1,1) ser considerada eixo central da confissão de fé cristã, o cristianismo anuncia uma autência revolução a respeito da experiência humana do corpo na medida em que enaltece a carnalidade como lugar da experiência “de” Deus. Para o cristianismo, o Deus de Jesus revela-se ao mesmo tempo em que assume a humanidade desde a encarnação do Verbo. Nesta perspectiva o cristianismo é avesso aos neodualismos que repovoam o imaginário do corpo e do sexo do homem da cultura somática contemporânea.

Portanto, o corpo é considerado lugar por excelência no qual o Deus dos cristãos experimenta a humanidade por dentro. Ele contrái com a humanidade uma cumplicidade corpórea tal a ponto de tornar a carne humana lugar da revelaçao da interioridade do próprio Deus. Na perspectiva cristã o simbolismo do corpo excede toda a significação anterior: em Jesus de Nazaré o Verbo se faz carne reconciliando o humano e o divino sem separação e sem confusão, sem, contudo perder sua mundaneidade, isto é, sem qualquer traço de espiritualismo abstrato e desencarnado. Em termos antropológicos, significa dizer que o Verbo (palavra) assume a carne humana para que nossa humanidade se torne um “corpo de carne”, isto é, que o corpo não seja privado de transformar-se numa carnalidade humano-divina. Nesse sentido, referir o humano à carnalidade significa outrossim voltar-se a significação genuinamente humana do corpo que só a carne pode assegurar. A carne, portanto, assume a significação que transcende os aspectos meramente exteriores do corpo humano, sem contudo negar sua dimensão material.

A visão do cristianismo coincide, em certo sentido, com aquilo que a corrente filosófica, a Fenomenologia, propugna quando trata de recuperar o sentido do humano em função da significação filosófica da corporeidade. A saber, mais do que uma realidade biológica, genética, neurológica, morfológica ou do corpo reduzido a um conjunto orgânico bem articulado, a corporeidade diz respeito à própria identidade do ser humano e, por isso, visa a superar qualquer visão objetivista ou pragmática que tenda a reduzir o ser humano a uma coisa. Contra a visão do racionalismo ou do empirismo que de tempos em tempos voltam à baila no cenário da cultura contemporânea, a Fenomenologia insiste no caracter fenomenológico e ontológico do corpo. Por isso, sua preocupação em afirmar que o ser humano não apenas “tem” um corpo, mas de que ele “é” seu corpo: um corpo próprio, um corpo-sujeito, um corpo vivido e um corpo-relação. Uma vez inserido e jogado no âmbito das significações da vida - para o qual o corpo expressa a única possibilidade de o sujeito estar no mundo - o ser humano-corpo vê-se constantemente afectado, tocado e até mesmo alterado em sua própria identidade. O ser humano enquanto corpo, embora gerado de outrem e, portanto, como dom, percebe-se ao mesmo tempo como tarefa: graças à experiência de se fazer carne “no” mundo (vivido) e tornar-se carne “do” mundo, ele assume a dimensão carnal como constitutiva de realização plena de sua humanidade.

Graças à visão do corpo de que partilha o cristianismo, é possível dizer que ele é um autêntico humanismo da encarnação. Afinal, enaltece a carne como lugar da morada de Deus entre os seres humanos e afirma-se como um elogio à carne ao considerá-la como lugar da humanização da humanidade em Deus.

sugestões de aprofundamento:

* Xavier Lacroix, O corpo de carne. São Paulo: Ed. Loyola, 2009.

* E. Fuchs, Deseo y ternura. Fuentes e historia de una ética cristiana de la sexualidad y del matrimonio. Bilbao: Desclée De Brouwe, 1995.

* E. L. Azpitarte, Simbolismo de la sexualidad humana. Critérios para uma ética sexual. Santander: Sal Terrae, 2001.


Nilo Ribeiro Junior S.J.

[Texto publicado em "Razões da Fé" de essejota.net]