31 de maio de 2011

Um Deus que Dança



José Tolentino Mendonça revela"Um Deus que dança"

“Um Deus que dança – Itinerários para a oração” é o novo livro do padre José Tolentino Mendonça, que vai ser lançado em Lisboa a 7 de junho.

O volume constitui «um caso particular» nas obras do diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, dado que «o seu conteúdo não foi pensado, originalmente, para ser lido, mas para ser escutado», sublinham os responsáveis pela edição em nota enviada hoje ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

A primeira parte do volume, intitulada ‘Livro das Pausas’, é constituída por meditações inspiradas em textos bíblicos, lidas no site “www.passo-a-rezar.net” pelos atores Pedro Granger e Susana Arrais, cujas locuções podem ser ouvidas no CD que acompanha o livro.

A obra, com prefácio do encenador Luís Miguel Cintra e ilustrações do arquiteto e padre jesuíta João Norton, oferece no segundo capítulo, designado ‘Livro dos Andamentos’, «orações poéticas» lidas aos microfones da Rádio Renascença.

«Acredito num Deus que dança», «imiscuído, engajado, detetável até pelo impreciso radar dos sentidos, suscetível de ser invocado pelos motores de busca das nossas persistentes interrogações ou do nosso silêncio», escreve o autor na introdução.

Para o poeta e biblista, as palavras, «por pobres que sejam, constituem pontes de corda lançadas sobre a amplidão do mistério», e nelas se perscruta o «assobio que anuncia os passos do viandante que chega ou que parte».

O professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa sublinha que «a oração não se constrói de palavras, mas de relação», pelo que o «mais importante» é a «celebração de um encontro».

A sessão de lançamento do livro realiza-se às 18h00, no espaço da Companhia Olga Roriz (Rua da Prata, 108), com a presença de José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Cintra e João Norton.


Rui Martins
Agência Ecclesia / SNPC
30.05.11

29 de maio de 2011



(das leituras do dia)

«Eu já não estou no mundo mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti»

“Não voz deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis.”

“Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós”.





Hoje o tom é de despedida – quando partimos parece que arrancamos de nós próprios um pedaço do chão alheio. Mas temos que partir, pois não podemos criar camadas de gente que amamos, colando-as a nós para que não se apartem da nossa vista. Na verdade o medo de orfandade pede-nos que nos amarremos de unhas e dentes àqueles pelos quais se aperta o estômago quando os vemos de costas despedidas, já no fundo da rua, que parece querer traze-los de novo para os nossos braços ainda no ar.

No entanto temos esse medo.

Talvez o tenhamos, porque nos descobrimos tantas vezes, órfãos – como no supermercado a agarrava com a naturalidade de filho, uma mão de uma mãe desconhecida que pensava ser a minha – numa sensação de surpreendente solidão, de falta de tecto. Também nos sentimos órfãos, quando o silêncio supera largamente qualquer música, ou ainda, quando não descubro o meu lugar, por não receber o depoimento dos gestos, que nos gravam a paternidade nas mãos. Mas o Senhor dá-nos o Seu lugar quando parte, da mesma forma que o avô deixou o lugar da cabeceira vazio, para que agora o pai coma no dia da festa sem que ninguém lhe escape aos olhos.

No entanto, no lugar ocupado de quem partiu acumulou-se mais um, àquilo que inevitavelmente fica de quem já lá não está. Assim, para quem se sentou no colo do pai não existe orfandade e quem se viu entrelaçado nos seus braços nunca será órfão. Desta forma, o maior medo não pode ser de orfandade mas antes da amnésia, por isso a enorme necessidade de fazer memória, para que eu não passe de filho a órfão.

Quando um PAI parte não deixa órfãos mas filhos e, desfazendo-se o nó da falta que faz o corpo quente e a voz, ficamos sós, mas no seu lugar, logo mais nós mesmos.

É assim que o Senhor se despede e parte para o Pai para que fiquemos n’Ele, não órfãos, mas filhos que assumem as cabeceiras das mesas em paternidades fecundas.


O que hoje aprendi para dizer-me

talvez não caiba no jeito do verso

não cabe, por minha falta

mas eu aprendi.

Desde hoje serei mais eu

Estarei mais onde estiver

Almada Negreiros

27 de maio de 2011

A Terceira Provação, na Companhia de Jesus

No percurso de formação dos jesuítas, os anos dedicados ao estudo parecem nunca mais acabar mas, na verdade, as diferentes etapas têm oficialmente um final. O termo da formação do jesuíta não é a Teologia, como poderia pensar quem lida mais com os sacerdotes. Os irmãos também dedicam algum tempo ao estudo e ao conhecimento técnico e prático de um determinado ofício. Assim como o começo é para todos o Noviciado, também o final é para todos igual e tem um nome: Terceira Provação.


Pressupõe duas outras provações: a primeira logo a seguir à entrada do candidato e a segunda a partir do próprio Noviciado. Ainda que distante no tempo, a Terceira Provação tem a sua similitude com o Noviciado. Muitos dizem que é como regressar àqueles primeiros anos onde se aprendiam os fundamentos do que é ser Companheiro de Jesus. Esta etapa final, por um período de seis a nove meses, acontece habitualmente após dois ou três anos de actividade apostólica.

Tal como as outras fases se inspiram no percurso formativo de Santo Inácio, também esta vai beber, de algum modo, às experiências que ele e os primeiros companheiros, já sacerdotes, viveram na região de Veneza.

Escola do Coração ou Escola do Afecto é outro nome dado a este momento que encerra, no sentido formal, o período formativo: "uma vez acabada a preocupação e o empenho de cultivar a inteligência, no tempo da última provação, insistam na escola do afecto" (Constituições da Companhia de Jesus, nº 516). Esta etapa, que como vimos, vem já desde o tempo de Santo Inácio, não sendo nos nossos dias uma originalidade no contexto da vida religiosa foi-o sem dúvida na sua origem. Inácio mostra o seu génio intuitivo ao perceber os mecanismos psicológicos da pessoa. A preocupação de que a prolongada formação do jesuíta no plano intelectual o possa desequilibrar, fá-lo ver como necessário formar agora o coração para que o jesuíta se possa entregar à exigência da missão na totalidade da sua pessoa.

Do mesmo modo que todos os momentos da formação são pedidos pela missão da Companhia de Jesus, também este tem a sua razão de ser naquilo a que cada um é chamado a realizar na vida de cada dia.

Só após a Terceira Provação e com a realização dos "últimos votos" o jesuíta está plenamente integrado no corpo apostólico que é a Companhia de Jesus. De integração se trata na verdade. Esta procura-se que seja a melhor possível nos diversos âmbitos da vida: "relação consigo próprio e com Cristo, com a Companhia de Jesus, com a Igreja, com o Mundo.

Este processo acontecerá através das diversas "provas" que na Terceira Provação serão proporcionadas ao jesuíta. À semelhança do que aconteceu no Noviciado, o mais marcante é sem dúvida a repetição dos Exercícios Espirituais de mês, só que agora enriquecida por alguns anos de vida na Companhia. Uma posterior reflexão sobre esta experiência vai facilitar a interiorização da letra e do espírito dos Exercícios, fundamental em todo o modo de proceder do jesuíta.
O estudo também não está esquecido mas agora não tanto no plano meramente técnico ou intelectual, mas mais numa orientação sapiencial: a vida como o grande lugar de aprendizagem do que Deus quer dizer. O jesuíta voltará de novo aos textos fundantes e fundamentais da Companhia de Jesus: A Fórmula do Instituto; as Constituições, os escritos de Santo Inácio de Loiola.

Acresce a tudo isto, o exercitar apostólico que procura abrir à universalidade e ao discernimento da missão levando o jesuíta a campos de apostolado com os quais ainda não se confrontou ou a que mais dificilmente parece ter acesso.

Todos estes elementos procuram tocar os aspectos mais profundos do mundo afectivo do jesuíta para que seja cada vez mais dócil à acção de Deus na sua vida. Este, poder-se-ia dizer, é o fim desejado por Santo Inácio com a Terceira Provação. A Escola do Coração ou do Afecto é crucial na maturação do apóstolo que o Companheiro de Jesus procura ser.

24 de maio de 2011

África, acorda!

O teu avô deixou-me aqui.

Acho que se esqueceu de mim.

A sua intenção era que eu lhe desse abundantes frutos, mas sempre faltou a água. Nunca conseguiu regar-me, pois a fonte mais próxima só está na aldeia detrás daquela cadeia de montanhas. O céu também não é assim tão generoso em nuvens. Pouco chove neste canto da savana. Estava condenado a amadurecer estéril, mas nem por isso resolvi deixar de crescer. Começou tudo bastante direitinho, mas o vento é implacável. Sopra enérgico, e são poucos os que podem opor-lhe resistência. Eu esgotei logo, pois a sua aridez secava as minhas forças ingénuas. Sempre na mesma direcção, cada vez mais dobrada. A minha posição permite-me vigiar sobre os arbustos, mas perdi toda a estética possível. Além de inútil, feiosa.

Não será estranho que morra daqui a pouco. Não há ser vivo que ultrapasse a sua condição de mortal. O meu passado começou já a acabar-se, e o futuro é desaparecer dissolvida no mesmo chão para onde o teu avô me atirou naquela tarde de Outono.

Mas tu, tu vieste ter comigo.

Não te conformaste com ficar ao pé de mim, no entanto resolveste atingir esta cimeira vegetal. Pareces corajoso e são. Embora não logre adivinhar para onde estás a olhar, intuo que sabes observar e contemplar.

Os nossos olhos apontam para direcções opostas, e ainda bem! Eu desço para a terra, tu sobes cá para vê-la melhor.

Não podes imaginar como me fazes sentir feliz cada vez que para isto vens. Se eu fosse como aquelas outras árvores majestosas, dificilmente te terias elevado nas minhas costas.

Ó rapaz, ama esta terra!

Por vezes parecer-te-á não demasiado agradável, mas é a tua. Está cheia de possibilidades, e este encontro voltou a ser um exemplo. Visita-me quando quiseres, e convida o teu povo a acordar.

Quiçá apareça um dia a tua neta, simplesmente para ter uma conversa com a minha filha.

Ainda há muita vida escondida, e tu irás descobrindo-a. Aproveita o teu entusiasmo, que a mim há tempo que me falta.

Sopra o vento, mais uma vez.




Nossa Senhora da Estrada


A pequena igreja de Nossa Senhora da Estrada (datada do séc. V, originalmente Igreja dos Astalli – família a que pertencia) ficava na rua que dá para o Monte Capitolino. Santo Inácio e os seus Companheiros frequentavam com assiduidade essa igreja, quer para rezar, quer para exercerem aí os ministérios, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação.

S. Inácio teve sempre uma grande devoção a Nossa Senhora, dedicando-lhe muito tempo da sua oração, chamando-lhe Mãe da Companhia. No caminho de Veneza para Roma, quando ia confiar o grupo de Amigos de Jesus nas mãos do Papa, repetia incessantemente Mãe, põe-nos com o Teu Filho, sinal dessa grande devoção e confiança.

O Papa Paulo III acabou por entregar a Igreja aos cuidados dos companheiros de Jesus e, no seu lugar, acabou por ser construída a Igreja do Santíssimo Nome de Jesus – Igreja do Gesù – a primeira igreja da Companhia de Jesus. Para aí foi transladada a imagem da Senhora da Estrada (possivelmente, da segunda metade do séc. XIII), colocada entre o altar de Santo Inácio e o altar-mor, do Santíssimo Nome de Jesus.

A Senhora é representada com o Menino ao colo, sentado na Sua mão esquerda, tendo a mão direita aberta aos fiéis. Na cabeça, tem uma coroa rodeada por uma auréola, olhando de frente para quem a contempla, vestida com um manto dourado. O Menino tem, também, uma auréola e a postura do Pantokrator. Austero, mas de olhar sereno, segura o livro com a mão esquerda e a direita erguida, dando a bênção. É a imagem da Mãe Medianeira da Graça, que apela à confiança no Filho.

Hoje, como no séc. XV, muitos jesuítas se confiam à Mãe, pedindo a Sua intercessão junto do Seu Filho, Jesus, Companheiro e Senhor nosso.

23 de maio de 2011

Beato João Baptista Machado

João Baptista Machado nasceu nos Açores, na Ilha Terceira, em 1582, e foi admitido no colégio da Companhia de Jesus de Coimbra, no ano de 1597, com apenas 17 anos de idade. Depois de ter estudado em Coimbra, partiu para a Índia em 1601, com outros 15 companheiros jesuítas. Após os estudos de filosofia e teologia, foi enviado como missionário para o Japão em 1609.

Depois de estudar a língua japonesa iniciou as suas tarefas de missionação, acabando por se fixar na cidade de Goto, no sul do arquipélago japonês. Em 1614, após ter recebido ordem imperial para abandonar as ilhas, permaneceu no Japão, passando, então, a missionar na clandestinidade, trabalhando, disfarçado, para acudir às necessidades espirituais das comunidades cristãs japonesas existentes no sul do arquipélago. Em Abril de 1617 foi descoberto e preso quando confessava um grupo de cristãos. Foi levado para a cidade de Omura, tendo sido executado a 22 de Maio de 1617, no monte Obituri, juntamente com cerca de 100 cristãos de várias congregações. Tinha então 37 anos de idade, estando há 20 anos na Companhia de Jesus. Foi beatificado a 7 de Maio de 1867, pelo Papa Pio IX, juntamente com 205 mártires executados no Japão.

Soa estranho ouvir falar em morrer por Alguém em quem se acredita. Ficamos perplexos, não aceitamos, achamos exagerado. A morte do açoriano João Baptista Machado, em 1617, no Japão, poderá ser uma das que nos escandaliza. Afinal, o próprio facto de Jesus, o Filho de Deus, ter morrido numa cruz é um escândalo para muitos (já S. Paulo o afirmava)… No entanto, quando a morte de alguém significa dar (a) vida, parece-me haver nisso muito sentido. Tanto a morte de Jesus, como a morte deste jesuíta, abrem a mais vida. Sinal disso é o facto de elas não terem causado destruição, nem divisão, nem discórdia. São mortes que dão Vida a outros, a culturas, a projectos... São mortes que abrem caminho a uma proposta de amor e de dignificação do ser humano.

Este açoriano, por acreditar nessa proposta, e em fidelidade àqueles a que foi enviado a servir, não teve medo de entregar a vida até às últimas consequências.

22 de maio de 2011

Tal Pai, tal Filho

Pessoalmente, sempre me incomodaram, em criança, os comentários dos amigos dos meus pais que, à custa de quererem certificar o parentesco, me desmembravam a identidade com os típicos “tem o nariz do pai” ou “sorri como a mãe”. Obviamente, naquela fase em que pensava povoar o mundo com a minha originalidade, a filiação mais soava a fronteira que a passaporte. Com o tempo, porém, tenho-me vindo a aperceber do quanto, realmente, trago pai, mãe, irmãos, amigos, e talvez até um pouco de terra (de tanto a comer dos vasos, em criança), no corpo. Não me refiro somente à genética; os outros também me compõem os tecidos.
A relação é uma grande escultora: esgravata-nos tiques, molda-nos o timbre, descobre-nos reentrâncias críticas. Quanto mais profunda a relação com alguém, mais essa pessoa nos fica vincada. Claro: há sempre o risco de o vinco virar cicatriz. Basta, para tanto, que nos grudemos de tal modo no outro que a fricção nos deixe a pele em ferida. Mas não me referia a essas formas doentias, pouco arejadas, de relação.



Os amigos de Jesus perguntaram-Lhe algo perfeitamente natural. Jesus falava-lhes repetidas vezes de Deus – o seu “Pai” –; mas, quem era Ele? Como poderiam vê-l’O? “Quem me vê, vê o Pai”. Decerto, ninguém jamais poderia supor a quem sairiam os olhos, os cabelos, o nariz ou o queixo de Jesus. Mas, embora inconfundivelmente de Maria e de José – como eu sou inconfundivelmente de tantos que me fizeram –, Jesus era também de Deus. Os mesmos tiques de loucura, a mesma capacidade de criar vida onde a morte era tão numerosa, a mesma liberdade para acolher e para dar: a vida de Jesus foi o vestígio da sua intimidade com Deus. A pouco e pouco, os amigos puderam ver que Jesus se mexia à [maneira de] Deus. As repetidas vigílias, o fogo nas palavras – tão espontâneas quanto mastigadas –, a força dos gestos: tudo isso falava de uma intimidade descarada, porque transbordante. «A boca fala da abundância do coração». E se Deus está no coração…

Hoje, a pergunta dos discípulos mantém-se como convite: onde está Deus, hoje? Onde estão os apaixonados que O têm à flor da pele? De que corpo se dirá: “repara como se parece com Deus”? Assim como há casais que, de se abrirem ao outro, lhe ganham as feições (“a cara metade”), talvez também em nós a longa permanência em Deus nos assemelhe com Ele, a ponto de O termos na biografia como no rosto.


21 de maio de 2011

Onde houver o bem a fazer, que se faça! - Beata Maria Clara

É com muita alegria que a Igreja proclama hoje beata a Madre Maria Clara do Menino Jesus, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Ao ser proclamada beata, a Igreja reconhece publicamente, que a vida da Madre Maria Clara pode ser modelo de inspiração para todos os que procuram uma vida alegre (beato vem do latim beatus e significa isso mesmo: vida feliz!), na entrega a Deus e aos Homens.

Na celebração de hoje de beatificação, no estádio do Restelo, o Cardeal Angelo Amato refere que a nova beata foi “grande apóstola da ternura e da misericórdia de Deus” e tinha “profunda humildade”.

A beata Maria Clara do Menino Jesus nasceu a 15 de Junho de 1843, na Amadora, arredores de Lisboa. Aos 13 anos, perdeu a mãe e, um ano mais tarde, o pai, em Dezembro de 1857. A sua convivência com as irmãs Filhas da Caridade, de São Vicente de Paulo, ajudou-a a sentir o apelo de Deus e a consagrar-lhe a sua vida. Totalmente entregue ao serviço do Senhor, dizia que “só a caridade a norteava”. Considerada como uma mulher de oração, fez da sua vida uma presença de amor e compreensão, especialmente junto dos mais necessitados. Partiu para junto de Deus aos 56 anos, a 1 de Dezembro de 1899. E é neste mesmo dia que será celebrada todos os anos a festa litúrgica da beata Madre Clara.

Celebremos com alegria este dia em que se proclama beata a vida de alguém que deixou como lema: “Onde houver o bem a fazer, que se faça!

(fontes: http://www.agencia.ecclesia.pt e http://www.fatimamissionaria.pt)

19 de maio de 2011

Resumo de ASCHENBRENNER, George – “Consciousness Examen”

Neste artigo, o pe. Aschenbrenner considera o exame de consciência como um exercício de discernimento de Espíritos. Portanto, ele tem que estabelecer duas distinções, a saber: i) a distinção entre dois tipos de espontaneidade, centra o exame na espontaneidade da comunicação de Deus, e não na do mau espírito; ii) A distinção entre consciência moral, conscience, e consciência psicológica, consciousness, centra-nos na percepção dos subtis toques de Deus na nossa consciência psicológica existencial. Então, o exame é uma ferramenta de índole vocacional porque nos permite medir continuamente o que Deus nos vai mostrando e as nossas respostas aos seus toques. Porquanto, o exame é um tempo de oração. Examinar-me a partir de padrões morais auto, ou hetero-impostos é diferente da escuta do chamamento de Deus, esta só pode acontecer na sua proximidade. Aliás, o tempo de oração formal, sem o exame, pode tornar-se um tempo alienado do resto da vida – a prática do exame ensina a encontrar a Deus em todas as coisas, tornando-nos alter Cristus.

O pe. Aschenbrenner troca a ordem dos dois primeiros pontos do exame. Parece-lhe que pedir ao Espírito que faça ver como Deus vê, deve anteceder a expressão da nossa pobreza agradecida por tanto bem recebido. Ou seja, que a iluminação da nossa consciência psicológica, precede o reconhecimento do Dom. O exame das nossas acções, para o pe. Aschenbrenner, centra-se na pergunta: como se tem relacionado Deus comigo desde o último exame? E, só numa segunda fase, como tenho eu respondido ao chamamento do Espírito. A possibilidade desta pergunta dimana da nossa receptividade, passividade e conhecimento da dependência de Deus. Por isso, o exame particular não pode ser a enformação de um ideal exterior, mas a informação de Deus sobre o próximo passo da nossa conversão. Esta distinção é importante porque o mau discernimento do itinerário é tentação que nos afasta da conversão sob aparência de bem.

Se o examinante recebeu o dom de se ver como Deus o vê, se, agradecidamente, percebeu a graça superabundante, e percebeu por onde Deus o chama, além da incapacidade das suas respostas; então, o mais natural é que se apresente a Deus como penitente, como interlocutor incapaz do Espírito. No entanto, a contrição e a tristeza não são vergonhosas ou depressivas, são Graça para ver a realidade. Graça essa que se projecta na resolução esperançosa para o futuro.

Resumindo, o autor considera que: a) o exame da consciência psicológica, ou o exame de tomada de consciência, é ferramenta central para o nosso itinerário de fé pessoal, por isso não pode ser negligenciado, antes, é até mais relevante que o tempo de oração formal; b) a nossa relação com Deus deve ser guiada por Ele, não somos nós que escolhemos o itinerário da nossa conversão; c) Deus está na nossa vida e podemos ganhar sensibilidade para O encontrar em todas as coisas, essa sensibilidade passa pela distinção do bom e do mau espírito, que se adquire pela prática regular do Exame de Consciência.

18 de maio de 2011

Indie Lisboa - Prémio SIGNIS – Árvore da Vida

O documentário “La ilusión te queda”, de Francisco Lezama e Márcio Laranjeira, foi distinguido com o prémio Signis-Árvore da Vida, atribuído pela Igreja Católica na edição de 2011 do IndieLisboa, Festival Internacional de Cinema Independente.

Prémio SIGNIS – Árvore da Vida
"La ilusión te queda" de Márcio Laranjeira
e Francisco Lezama

«No trabalho destes jovens realizadores o cinema volta a ser uma arte de contar histórias, mas histórias onde as mulheres e os homens se contam a si mesmos, no seu presente e na sua memória, na sua ilusão e na sua incerteza, na grande dor e na grande ternura que vestem qualquer viver», escreve o padre José Tolentino Mendonça sobre o filme produzido em 2011.

«Estamos, assim, colocados perante um cinema imaginado como um segredo que é contado, de cada vez, a um só ouvido», assinala o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que com Margarida Ataíde e Inês Gil fez parte do júri de uma distinção que começou a ser atribuída pela Igreja Católica em 2010.

«Nos 33 minutos que dura “La Ilusión te Queda” Márcio Laranjeira e Francisco Lezama criam uma narrativa que vai muito além do que se vê e do que se diz», nota José Tolentino Mendonça sobre a produção luso-argentina.

«Em grande medida» - prossegue – a visualidade interior é interior, e mostra o espaço interno de uma casa, nas suas várias divisões, precisamente porque pretende avizinhar-se, com delicadeza mas também com eficácia, da revelação do que permanece dentro das próprias personagens e, certamente, também dentro de nós».

«E quando desta viagem interior se passa ao exterior, somos então colocados diante do intacto deslumbre pelo visível, que reconquista assim toda a sua força icónica, como a inesquecível cena final do filme nos dá a ver», salienta o poeta, que conclui a sua perspetiva sublinhando que no documentário premiado «o mundo é celebrado como uma revelação».

O texto do júri lido durante a cerimónia de atribuição do prémio, realizada este sábado em Lisboa, realça que o documentário «devolve o cinema como arte de contar histórias, onde as mulheres se contam a si mesmas, no seu presente e na sua memória, na sua ilusão e incerteza, na grande dor e na ternura que vestem qualquer viver».

O filme manifesta «um olhar masculino que espreita com delicadeza o universo feminino», sugerindo «que tão ou mais importante que o encontro, é a espera no amor».


Prémio SIGNIS – Árvore da Vida – Menção Honrosa


"Swans" de Hugo Vieira da Silva




"Os Milionários" de Mário Gajo de Carvalho




O prémio "Signis-Árvore da Vida" foi atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e pela Ecclesia, plataforma de comunicações sociais da Igreja Católica em Portugal.

16 de maio de 2011

andré bobola
jesuíta e mártir

Polaco, nasceu em 1590. Conheceu a Companhia de Jesus, e nela foi ordenado padre em 1622. Porque aquele foi um tempo de divisões, morreu dividido (16 de Maio de 1657). Abriu o corpo para ser

humano
e de Deus.






15 de maio de 2011

Professor Mousawi,Conferência sobre Jesus Cristo no Auditório Vita, Braga

Decorre, dia 16 de Maio, às 21h30, no Auditório Vita, uma conferência intitulada «Jesus Cristo segundo Ibn Arabi», orientada pelo Professor Mousawi.

Ibn Arabi foi um dos grandes místicos sufis, natural de Taifa de Múrcia, no Sudeste de Andalusia. Nas suas grandes obras, As iluminações de Meca (Al-Futûhât al-Makkaiyya) e A Sabedoria dos Profetas (Kitâb Fusûs al Hakim), Ibn Arabi elogia e descreve a grande personalidade de Jesus Cristo.



O Professor Mousawi Madani tem dedicado o seu percurso académico ao estudo e à investigação de temáticas islâmicas, com especial destaque para a sua obra publicada, na qual realça o papel da mulher neste tipo de sociedade. Actualmente, o professor iraniano lecciona em diferentes universidades e institutos, promovendo o resultado das suas investigações um pouco por todo o mundo, também no sentido de dar a conhecer melhor a religião e a cultura iranianas.

Uma nova autoridade



Os romanos faziam uma distinção muito importante entre potestas e auctoritas. A potestas, vinda de potis, significava ser senhor de, exercer poder sobre algo num sentido institucional. Por outro lado, a auctoritas, vinda de augere, significava fazer crescer, aumentar, qualificar. Reconhecer a autoridade de alguém consistia então em acreditar na sua palavra, na sua voz como algo que me faz crescer, me edifica, me qualifica e põe em movimento.


No Evangelho deste domingo, Jesus critica aqueles que fazem da religião uma forma institucional de exercerem o seu poder. Esses são aqueles que não entram pela porta e cuja voz não é reconhecida. Porque é reconhecida a voz de Jesus? Porque tem autoridade sobre as suas ovelhas, porque elas reconhecem-no como Aquele que lhes acrescenta novidade, humanidade, transformando tudo em espaços de pastagem, ou seja, mostrando como nenhum lugar humano é adverso à nossa realização mais profunda, ao encontro com Deus.



Mas como havemos hoje de reconhecer a Sua voz e autoridade? Na verdade, já não vemos Jesus fisicamente e a alegoria hoje proclamada, por mais bela que seja, pode tornar-se vazia se ninguém no-la explicar. Só explica o sentido das Escrituras quem tem autoridade sobre elas: o próprio Cristo, porque nos abriu com a Sua carne o sentido da palavra de Deus. Por isso será a Sua Vida que nos servirá de explicação desta alegoria. Reconhecer a Sua voz implica três movimentos: a memória que recorda a voz, o entendimento que percebe de quem é aquela voz e o que ela diz, e a vontade que segue a voz e o seu pedido.






Memória Lembram-se como sucedeu com os dois discípulos desiludidos que caminhavam para Emaús? O seu desejo era de voltar para casa, não por convicção, mas porque não tinham mais para onde ir depois do fracasso da morte de Jesus. Contudo o próprio Jesus juntou-se-lhes no caminho e, explicando-lhes o sentido das escrituras, fez com que ardessem os seus corações. Jesus não lhes disse que as suas desilusões eram vãs, mas que, no fundo das suas mágoas, havia uma esperança [de que fosse Jesus quem renovasse Israel] que já estava prevista pela Escritura. Por vezes também nos fixamos nos átomos dos acontecimentos e Jesus força-nos pela palavra a perceber como cada movimento interior que nos habita está enquadrado num movimento mais profundo e contíguo.


Entendimento Mas como pode Jesus ser Aquele que nos ensina a ler as Escrituras se dissemos que já não O vemos? No prólogo do Evangelho de S. João é-nos dito que por contemplarmos a palavra de Deus feita Carne, Jesus, também participamos dela, também a experimentamos. Hoje com tanta publicidade e discurso podemos já ter perdido a atenção para as palavras quotidianas. Contudo, há palavras que nos tocam profundamente, abrindo-nos horizonte ou ferindo-nos. É o caso de eu amo-te ou eu odeio-te. Neste sentido, toda a Escritura leva-nos a contemplar palavras que respondem aos nossos anseios mais profundos. Diante dos nossos medos seremos indiferentes ao Cristo que diz: “Não temas”? Diante dos nossos cansaços físicos ou desgastes relacionais seremos indiferentes ao Cristo que nos diz: “Vinde a Mim vós todos que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei”? Experimentamos Cristo presente, aqui e agora, a mostrar-nos as pastagens que as nossas feridas reclamam. Esta é a autoridade do serviço.



Vontade Mas, se podemos experimentar e conhecer a palavra, porque precisamos de uma Igreja, de uma comunidade onde aprendemos a discernir a presença de Jesus no nosso mundo? A autoridade da palavra que serve fica incompleta sem o gesto que nos assegura que aquilo que a palavra dá não é apenas um conforto psicológico. Neste sentido, apesar das incoerências entre a palavra e alguns actos da nossa Igreja, o que lhe dá autoridade é que ela mantém os gestos de Jesus. O gesto de Cristo, prefigurado na porta das ovelhas, consiste em deixar entrar no Pão e no Vinho, que Ele assumirá como Seu corpo e sangue, o trabalho de cada homem e mulher. Tanto o pecado como a caridade dos nossos actos são acolhidos, absolvidos e elevados no corpo e sangue dAquele que partilha ainda hoje a mesa com os pecadores; mostrando o poder que se esconde nas suas fragilidades, que Ele mesmo partilhou. Há assim qualquer coisa maior que as palavras proferidas, que resulta desta misteriosa ementa feita de gestos e palavras. Qualquer coisa que nos toca, plenifica e cuja autoridade questiona e orienta a nossa vontade.


14 de maio de 2011

Andrés Torres Queiruga, sobre "Repensar el Mal"

Andrés Torres Queiruga, teólogo espanhol, deu uma estrevista sobre o seu novo livro "Repensar el mal", que acaba de publicar. O livro trata o velhinho problema do mal, mas aborda-o renovadamente. Para adoçar o interesse, acrescento ao filme da entrevista, alguns parágrafos do artigo que Anselmo Borges dedica a "Repensar el Mal", no DN de hoje.

Penso que Andrés Torres Queiruga, da Universidade de Santiago de Compostela, é um dos mais vigorosos e penetrantes teólogos católicos vivos, numa ousadia única de colocar a fé cristã em confronto radical com a modernidade e vice-versa. Acaba de publicar em castelhano uma obra seriamente original sobre o tema em epígrafe: Repensar el mal, que obriga a pensar.

Lá está o famoso dilema de Epicuro: Ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?




Sim, a pessoa é um ser finito, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Há aquele passo de Tristão e Isolda, na experiência amorosa, quando Tristão diz: "tu és Tristão e eu sou Isolda". E Isolda: "tu és Isolda e eu sou Tristão". Esta reciprocidade no amor, que não anula a pessoa, porque quanto mais amas mais és, cria uma relação especial. Ora, esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé, apoiada em razões: "Deus pode entregar-se-nos nesta abertura infinita, de tal modo que podemos dizer, como Tristão e Isolda, que somos Deus, que está em nós", desde sempre.

12 de maio de 2011

Teilhard de Chardin: um filho do Céu e da Terra

Jesuíta, teólogo e paleontólogo, o padre Teilhard de Chardin no livro a “A minha fé” dirá que «A originalidade da minha crença está em possuir as suas raízes em dois domínios de vida habitualmente considerados antagónicos. Por educação e formação intelectual, pertenço aos “filhos do Céu”. Mas, por temperamento e pelos estudos profissionais, sou um “filho da Terra”»

Marie-Joseph Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Orcines no seio de uma família aristocrática no dia 1 de maio de 1881, sendo o quarto de onze irmãos. Passou os primeiros anos da sua infância com a família da qual recebeu a educação e a sua primeira formação. À influência da mãe, Berthe-Adéle de Dompierre d’Hornoy, deve como dirá o próprio ‘o melhor da sua alma’. Do pai, Alexandre-Victor-Emmanuel Teilhard de Chardin, recebeu as primeiras letras e alguns dos traços do seu caráter, bem como o interesse pelos mistérios da natureza, a paixão pela investigação dos minerais e dos insetos.

No ano de 1892, perto de fazer 11 anos, o menino Marie-Joseph entra no colégio dos jesuítas de Notre-Dame de Mongré onde concluirá com brilhantismo os seus estudos secundários em 1898. Após uma adolescência sem grandes turbulências, entrará no noviciado jesuíta em Aix-en-Provence que termina em outubro de 1900, iniciando nesse mesmo ano o ‘juniorado’ em Laval, onde professa os primeiros votos no dia 25 de março de 1901. Todavia, com a expulsão das ordens religiosas em França, no ano de 1902, os jesuítas partem para Inglaterra e Teilhard de Chardin fez em Jersey entre 1902 e 1905 os seus estudos filosóficos que parecem não ter sido brilhantes. Durante este tempo de formação Marie-Joseph pensa abandonar a geologia e o tempo que a ela dedicava com paixão, mas graças ao sábio conselho do padre Paul Troussard, mestre de noviços em Jersey, não o faz. Antes em 1904 se junta ao grupo do padre Félix Pelletier que era licenciado em Química e Mineralogia e com este publicará uma nota mineralógica no boletim anual da Sociedade Geológica de Jersey.

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Concluídos os estudos de Filosofia o jovem Teilhard de Chardin inicia, como era tradição nos jesuítas, um tempo de ensino que durará três anos num colégio da Companhia no Cairo(Egito) onde ensina bases de Química e Física entre os anos de 1905 e 1908. Por esta altura desenvolve muito trabalho de campo descobrindo e divulgando fósseis e séries geológicas que o tornam conhecido junto dos especialistas. Mas o seu tempo de ‘magistério’ termina e Teilhard regressa a Inglaterra para os estudos de Teologia em Hastings, no condado de Sussex, que durarão até 1912, com a sua ordenação sacerdotal um ano antes no dia 24 de agosto, na qual estão presentes os seus pais que vieram a Inglaterra para o efeito. Em Hastings continuam as suas aventuras científicas na companhia sempre amiga do padre Félix Pelletier e durante as quais recolhe exemplares fósseis e mineralógicos que oferece quer ao museu local quer ao British Museum.

Com estas demandas e descobertas o padre Teilhard começa a ser reconhecido e citado nas revistas da especialidade. Assim, no ano de 1912 o padre Teilhard de Chardin dirige-se a Paris onde entrevista Marcellin Boule e consegue um lugar ao seu lado. Graças a M. Boule conhecerá no Instituto de Paleontologia Humana o padre Henri Breuil com o qual manterá ligação e cooperação não só científica mas também espiritual.

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Chegado o ano de 1914, altura em que estala a I Guerra Mundial, o padre Teilhard de Chardin inicia a sua última ‘provação’ (a terceira), a qual não terminará uma vez que será destacado para o serviço militar. Assim, é mobilizado para a secção de enfermeiros, sendo posteriormente, em 1915, enviado para a frente de combate como maqueiro. No ano de 1918 o padre Teilhard de Chardin faz os votos solenes como jesuíta, sendo desmobilizado a 10 de março de 1919. Neste mesmo ano retoma os estudos e em 1922 o padre Teilhard de Chardin, passa na Sorbonne as três provas da licenciatura em Ciências Naturais, apresentando e defendendo com brilho uma tese de doutoramento que havia iniciado nas trincheiras de Reims. Todavia, é desde 1920 assistente de Geologia e Paleontologia no Instituto Católico de Paris, sendo promovido a professor adjunto após o doutoramento. Contudo, não ficará muito tempo, pois aceita o convite de um confrade, que tinha dado início a um museu de geologia, para ir investigar em campo para a China. Tal tempo de investigação será marcante para o desenvolvimento da sua carreira científica e do seu pensamento.

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No ano de 1922 escreveu, a pedido do padre Riedenger, uma nota sobre o problema do pecado original e do monogenismo, que teve como consequência a acusação de negar o pecado original sendo aconselhado a afirmar o dogma na sua ortodoxia e ao mesmo tempo a abandonar a Universidade. Aconselhado a não escrever sobre tema eclesiais e teológicos, o padre Teilhard de Chardin foi enviado novamente para China a fim de prosseguir os seus estudos científicos e onde permaneceu até ao fim da II Guerra Mundial. Durante este tempo parte para em inúmeras viagens e expedições científicas à Mongólia, Somália, Birmânia, Índia, Java e a Estados Unidos.

Entre o ano de 1926 e 1927 escreve “O Meio Divino”, tendo a obra sido considerada aceitável. Em 1929 participa na descoberta e estudo do ‘sinantropo’ (o Homem de Pequim) e entre 1938 e 1940 escreve a sua obra maior ‘O Fenómeno Humano’, que envia a Roma para observação e apesar das revisões vê recusado o “imprimatur”. No ano de 1946 regressa a Paris e é convidado a lecionar no Collége de France, mas sob conselho não o fará. Contudo, ministrará cursos na Sorbonne entre os anos de 1949 e 1950 que resultaram na obra “O grupo zoológico humano”, e nesse ano é eleito como membro da Academia de Ciência do Instituto de Paris, mas no ano seguinte (1951), o padre Teilhard de Chardin muda-se para Nova York onde viria a falecer dia 10 de abril, Domingo de Páscoa, de 1955.

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No dia 24 de julho de 2009 na sua homilia proferida na celebração litúrgica das Vésperas na Catedral de Aosta, o Papa Bento XVI evocava o padre Teilhard de Chardin, a propósito da função do sacerdócio ser a consagração do mundo, com as seguintes palavras: «A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva.»

L. Oliveira Marques
© SNPC | 29.03.11

Teilhard de Chardin

11 de maio de 2011

Temos de ver "realismo sombrio" mas não perder esperança

“Atraídos pelo Infinito”, livro que reúne boa parte do pensamento do Cardeal Patriarca de Lisboa ao longo dos seus 50 anos de sacerdócio, foi apresentado esta terça-feira, em Lisboa.

Da autoria de D. Manuel Clemente, Guilherme d’ Oliveira Martins e António Araújo, a obra conta com vários contributos e pretende valorizar a riqueza do pensamento e testemunho de D. José Policarpo. “Não é um livro sobre o senhor D. José, muito embora seja um livro que reflecte sobre ele, sobre o seu pensamento, sobre a sua pessoa e, sobretudo, sobre o seu testemunho”, diz o reitor da Universidade Católica, Manuel Braga da Cruz.


“Essa é a nossa grande responsabilidade. Temos nas nossas mãos uma mensagem que é decisiva e só a podemos anunciar se amarmos a humanidade. Esta é, aliás, uma mensagem hoje difícil de passar. As pessoas estão de tal maneira preocupadas e fascinadas com o seu presente, que não são capazes de ver que a grandeza do presente do Homem é o horizonte de eternidade”, salienta D. José.

9 de maio de 2011

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA A INAUGURAÇÃO DO PÁTIO DOS GENTIOS



MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA A INAUGURAÇÃO DO PÁTIO DOS GENTIOS ORGANIZADA EM PARIS PELO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A CULTURA

Queridos jovens, queridos amigos!

Sei que estais reunidos em grande número no adro de Notre-Dame de Paris, a convite do Cardeal André Vingt-Trois, Arcebispo de Paris, e do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. Saúdo-vos a todos, sem esquecer os irmãos e os amigos da Comunidade de Taizé. Estou grato ao Pontifício Conselho por ter retomado e desenvolvido o meu convite a abrir na Igreja «Pátios dos Gentios», imagem que recorda este espaço aberto sobre a grande esplanada próxima do Templo de Jerusalém, para permitir a quantos não partilhavam a fé de Israel aproximar-se do Templo e interrogar-se sobre a religião. Nela, eles podiam encontrar escribas, falar da fé, e até rezar ao Deus desconhecido. Mas se, nessa época, os Pátios eram ao mesmo tempo um lugar de exclusão, porque os «Gentios» não tinham o direito de entrar no espaço sagrado, Jesus Cristo veio «destruir a barreira que separava» judeus e gentios. «Tanto uns como outros, reunidos num só corpo, ele queria reconciliá-los com Deus mediante a cruz: na sua pessoa ele venceu o ódio. Ele veio para anunciar a boa nova da paz...» (cf. Ef 2, 14-17), como nos diz são Paulo.

No coração da «Cidade Luz», diante desta magnífica obra-prima da cultura religiosa francesa, Nossa Senhora de Paris, abre-se um grande pátio para que um novo impulso seja dado ao encontro respeitador e amistoso entre pessoas de convicções diferentes. Jovens, crentes e não-crentes, presentes esta tarde, vós quereis estar juntos, como na vida de todos os dias, para vos encontrardes e dialogar a partir das grandes perguntas acerca da existência humana. Hoje são numerosos os que reconhecem não pertencer a uma religião, mas desejam um mundo novo e mais livre, mais justo e solidário, mais pacífico e jubiloso. Ao dirigir-me a vós, tomo em consideração tudo o que tendes para vos dizer: vós, não-crentes, quereis interpelar os crentes, sobretudo exigindo deles o testemunho de uma vida que esteja em conformidade com quanto professam e rejeitando qualquer desvio da religião que a tornaria desumana. Vós, crentes, quereis dizer aos vossos amigos que este tesouro que vós possuís merece ser partilhado, interpelado, reflectido. A questão de Deus não é um risco para a sociedade, ela não põe em perigo a vida humana! A questão de Deus não deve estar ausente das grandes interrogações do nosso tempo.

Queridos amigos, vós deveis construir pontes entre vós. Aproveitai a oportunidade que vos é apresentada para encontrar no mais profundo das vossas consciências, numa reflexão solidária e argumentada, os caminhos de um diálogo precursor e profundo. Vós tendes muito a dizer uns aos outros. Não fecheis a vossa consciência face aos desafios e aos problemas que se vos apresentam.

Creio profundamente que o encontro entre a realidade da fé e da razão permite que o homem se encontre a si mesmo. Mas muitas vezes a razão submete-se à pressão dos interesses e à atracção do útil, obrigada a reconhecer a segunda como critério último. A busca da verdade não é fácil. E se cada um é chamado à coragem de se decidir pela verdade, é porque não existem atalhos que levam à felicidade e à beleza de uma vida completa. Jesus di-lo no Evangelho: «A verdade libertar-vos-á».

Compete a vós, queridos jovens, fazer com que, no vosso país e na Europa, crentes e não-crentes reencontrem o caminho do diálogo. As religiões não podem ter receio de uma laicidade justa, de uma laicidade aberta que permite que cada qual viva o que crê, segundo a própria consciência. Trata-se de construir um mundo de liberdade, de igualdade e de fraternidade, crentes e não-crentes devem sentir-se livres de serem tais, iguais nos seus direitos de viver a própria vida pessoal e comunitária, permanecendo fiéis às próprias convicções, e devem ser irmãos entre si.

Uma das razões de ser deste Pátio dos Gentios é trabalhar a favor desta fraternidade para além das convicções, mas sem negar as diferenças. E, ainda mais profundamente, reconhecendo que só Deus, em Cristo, nos liberta interiormente e nos doa a possibilidade de nos encontrarmos como irmãos.

A primeira atitude que deveis assumir ou acção que podeis fazer juntos é respeitar, ajudar e amar cada ser humano, porque ele é uma criatura de Deus e de um certo modo o caminho que conduz a Ele. Levando em frente aquilo que viveis esta tarde, contribuís para abater as barreiras do medo do outro, do estrangeiro, daquele que não é parecido convosco, medo que muitas vezes nasce do desconhecimento recíproco, do cepticismo ou da indiferença. Dedicai-vos a fortalecer os vínculos com todos os jovens sem distinção, ou seja, não esquecendo quantos vivem na pobreza ou na solidão, os que sofrem devido ao desemprego, que atravessam a doença ou que se sentem à margem da sociedade.

Queridos jovens, não é só a vossa experiência de vida que podeis partilhar, mas também o vosso modo de vos aproximardes da oração. Crentes e não-crentes, presentes neste Pátio do Desconhecido, estais convidados a entrar também no espaço sagrado, a cruzar o magnífico pórtico de Notre-Dame para terdes dentro da catedral um momento de oração. Para alguns de vós, esta oração será uma prece a um Deus conhecido na fé, mas para outros ela poderá ser também uma oração ao Deus Desconhecido. Queridos jovens não-crentes, unindo-vos a quantos estão a rezar dentro de Notre-Dame, neste dia da Anunciação do Senhor, abri os vossos corações aos textos sagrados, deixai-vos interpelar pela beleza dos cânticos e, se deveras o desejardes, deixai que os vossos sentimentos se elevem ao Deus Desconhecido.

Sinto-me feliz por ter podido dirigir-me a vós esta tarde para este momento inaugural do Pátio dos Gentios. Espero que queirais responder a outros encontros que estabeleci, em particular o Dia Mundial da Juventude, no próximo Verão em Madrid. O Deus que os crentes aprendem a conhecer convida-vos a descobri-l’O e a viver cada vez mais d’Ele. Não tenhais medo! Pelo caminho que percorrereis juntos rumo a um mundo novo, sede pesquisadores do Absoluto e investigadores de Deus, também vós, para quem Deus é o Deus Desconhecido.

E que Aquele que ama todos e cada um vos abençoe e proteja. Ele conta convosco para se ocupar do próximo e do futuro, e vós podeis contar com Ele!

Vaticano, 25 de Março de 2011.

© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

8 de maio de 2011

Só a visão não chega.

O Evangelho de hoje relata-nos o episódio de uma das aparições de Jesus ressuscitado: a sua ida ao encontro com os dois discípulos de Emaús.

Centremo-nos na descrição que nos é feita a respeito da transformação que ocorre no olhar dos discípulos. No início não conseguiam reconhecer Jesus: “seus olhos, porém, estavam impedidos de reconhecê-lo.” (Lc 24, 16). Mas no final, foi pelo olhar que reconheceram Jesus: “seus olhos se abriram e o reconheceram…” (Lc 24, 31)

Mas que olhar é este? Esta mudança de olhar poderia ser apenas uma questão física, biológica, exterior. Como se inicialmente tivessem os olhos turvados, como acontece muitas vezes quando acordamos, e depois os limpassem. Mas de facto não é isso que nos é dito. Parece haver aqui referência a uma mudança num olhar que vem de dentro, do interior. Um olhar do coração. Um olhar que muda porque se converte.

De facto, porque é que estes discípulos não reconheceram Jesus quando o viram? Poderá ter sido pelo facto de terem esperado por um Jesus herói que afinal de contas tinha sido morto e tinha deixado inacabada a sua promessa de salvação. Esse herói, se tinha morrido, não poderia ser visto ali. Estes discípulos provavelmente não tinham percebido as palavras que Jesus tinha dito: “É necessário que o Filho do Homem sofra muito, seja rejeitado pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas, seja morto e ressuscite ao terceiro dia.” (Lc 9, 22).

Muitas vezes, é isto que nos acontece. Não encontramos Jesus, não o vemos, porque o Jesus que procuramos, que queremos encontrar não é o verdadeiro Jesus, aquele que quer vir ter connosco.

Esta mudança, esta conversão dos discípulos, dá-se para além da visão. É uma mudança gradual, que vai sendo aprendida pelo caminho, e é Jesus quem vai ajudando. Jesus ao recordar a sua vida, não só a vida que viveu de facto, mas aquilo que no Antigo Testamento já tinha sido dito sobre Ele, vai transformando o olhar interior destes homens. E de tal forma esta partilha lhes vai dando vida que, quando Jesus se afastou deles, eles não O quiseram deixar partir. Talvez possamos fazer aqui algum paralelismo com o que aconteceu no Monte Tabor, quando Jesus se transfigurou e Pedro não queria deixar aquele lugar (cf. Lc 9, 33). Depois, ao repetir o que tinha feito na última Ceia, Jesus recordou a sua entrega, e nessa altura os “seus olhos se abriram e o reconheceram” (Lc 24, 31).

Esta transformação nos discípulos é uma transformação que converte o coração ao ponto de “queimar” toda a tristeza e todo o desânimo que sentiam, “não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32), dando lugar a um coração novo, capaz não só de acreditar que Cristo ressuscitou, mas também de os fazer querer anunciar essa Boa Nova aos outros.

Como podemos nós fazer este caminho de encontro e de conversão? Como podemos também nós reconhecer Jesus nas nossas vidas? Se lermos novamente as palavras de Lucas poderemos talvez nela encontrar uma descrição da celebração da Eucaristia: “Entramos, em cada celebração, de coração contrito e rezamos o Kyrie Eleison. Escutamos a Palavra – leituras da Escritura e a homilia – professamos a nossa fé, oferecemos a Deus os frutos da terra e do trabalho do homem e recebemos de Deus o Corpo e o Sangue de Jesus; finalmente somos enviados ao mundo com a missão de renovarmos a face da terra.”*

Façamos da celebração da Eucaristia lugar de encontro com Jesus e lugar de conversão. O que celebramos na Eucaristia é aquilo que somos chamados a viver: uma conversão capaz de nos fazer passar do ressentimento à gratidão, e capaz de nos levar ao encontro dos outros, principalmente dos que mais sofrem.

Citações bíblicas retiradas da Bíblia de Jerusalém. Edição portuguesa da Editora Paulus, 2003

* Nouwen, Henri J. M., "Não nos ardia o coração?" - 2ª edição. Trad. Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Paulinas, 2006, p. 10

LEITURAS de HOJE:

L 1 Act 2, 14. 22-33; Sal 15, 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11
L 2 1 Pedro 1, 17-21
Ev Lc 24, 13-35

7 de maio de 2011

Encontro na Feira do Livro


Amanhã, Domingo, estarei na Feira do Livro de Lisboa numa sessão de autógrafos da obra Educação, Ciência, Religião, que publiquei juntamente com João Paiva na Gradiva. O encontro será às 18.30h. Terei muito gosto em trocar impressões com as pessoas que quiserem aparecer, mesmo que não seja para pedirem um autógrafo!

P. Alfredo Dinis,sj

2 de maio de 2011

Bernard Lonergan: uma filosofia integral

O ano de 1904 viu nascer na Alemanha o grande teólogo Karl Rahner, mas do outro lado do Oceano Atlântico, em Buckingham, na região do Quebec, cidade situada entre o Canadá e o Estados Unidos da América, nascia outro grande teólogo e filósofo do século XX, de seu nome Bernard Joseph Francis Lonergan, cujo reconhecimento foi prestigiosamente consagrado recebendo quatro prémios internacionais pela sua produção filosófica e teológica e ainda dezassete doutoramentos “honoris causa”.

Filho de Gerald e Josephine, Bernard Lonergan nasceu do dia 17 de dezembro, tendo frequentado a escola primária dos Irmãos das Escolas Cristãs de Buckingham, passando com 13 anos, em 1918, para o Colégio dos Jesuítas em Montreal, onde continuou os estudos.

A 29 de julho de 1922 entra no noviciado de Guelph (Ontário) da Companhia de Jesus. Este será o tempo inicial da sua formação religiosa, que também dedica a algumas matérias académicas na qualidade de autodidata. Em 1926 vai para Inglaterra, onde inicia os estudos de Filosofia. Simultaneamente matricula-se em Latim, Grego e História de Roma, tendo ainda tempo para se dedicar ao estudo das ciências exatas, nomeadamente a Matemática. E também estuda Francês.

Terminada a formação em Filosofia, Lonergan inicia em 1930, em Montreal, o tempo de “magistério”, que visava a formação dos candidatos à vida sacerdotal e religiosa. No Loyola College ensina línguas mas também cálculo, geometria e física. Até que no ano de 1933 é enviado com outros estudantes canadianos para a Universidade Gregoriana de Roma, onde frequenta a Faculdade de Teologia até 1937. Nesse ano parte para a cidade francesa de Amiens, regressando a Roma em 1938 para dar seguimento aos seus estudos de doutoramento, que terminará no ano de 1940 com uma tese sobre o tema da graça e da liberdade em São Tomás de Aquino. Concluído este grau académico, passa a lecionar Teologia nos seminários da Companhia, primeiro em Montreal e depois em Toronto.

A partir de 1953 inicia a docência de Teologia Dogmática na Universidade Gregoriana de Roma, onde permanecerá como professor durante 13 anos. Neste período publica várias obras, entre as quais se destaca, no campo da Filosofia, “Insight: A Study of Human Understanding” (1957); e no domínio da Teologia “De Verbo incarnato”, em quatro volumes (1962).

A sua obra é vasta, escrevendo sobre a Trindade, Cristologia, Eclesiologia, Teologia Fundamental e Filosofia. Entretanto participa no II Concílio Ecuménico do Vaticano (1962-1965) como perito, nomeadamente na terceira e quarta sessões. Eem 1965 tem de ser operado pois fora-lhe diagnosticado um cancro da língua.

Após a recuperação volta para Toronto, lecionando num horário mais leve que lhe deixa espaço para a investigação e a escrita. Em 1972 publica “Method in Theology”.

Entre 1975 e 1983 reside no Boston College, Massachusetts, onde se dedica a uma intensa atividade académica que inclui conferências, lições e seminários, tanto nos Estados Unidos, onde se encontrava, como no Canadá, onde se estabeleceria de modo definitivo em 1984, morrendo nesse ano a 26 novembro, aos 79 anos. São deste período alguns escritos sobre moral e economia, entre os quais se destacam: “The Human Good” (1979), e “Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis” de publicação póstuma em 1998.

L. Oliveira Marques
© SNPC | 21.04.11

1 de maio de 2011

Oito dias depois

Deus tem destas coisas. Para Ele não há tempos certos e determinados para cada homem fazer a experiência da sua ressurreição, do seu nascimento para a vida nova. Muitas vezes, ou pela idade, ou pelo temperamento, ou por outra razão qualquer, julgamos que já não há nada a fazer por nós. Que já não há conversão possível. Tentamos, prometemos mas, no fim, continua tudo igual. Fizemos mil propósitos para a Quaresma mas, depois, nem aquele mais simples o cumprimos. Vivemos atrasados…

O Evangelho de hoje é para gente assim. Tomé, um dos discípulos, não estava com os discípulos quando o Senhor ressuscitou. Atrasou-se a celebrar a Páscoa. Isso desanimou-o, tornou-o incrédulo. Sentiu-se excluído do grupo, pensou que já não havia nada a fazer por ele… Acabou mesmo por dizer que a única coisa que salvaria a sua fé, o único acontecimento que o faria mudar de vida, era ver o Senhor. E Jesus não esperou pela demora. Teve paciência com a lentidão de Tomé e «oito dias depois», apareceu-lhe e mostrou-lhe as suas feridas.

É assim que Deus procede connosco. Para Ele, o tempo perfeito é o nosso tempo. Para Ele, nunca é tarde para celebrar a Páscoa connosco; para vir à nossa casa, pôr-se no nosso meio e nos dar-nos a paz. Talvez nunca lhe toquemos com as mãos nas feridas. Mas a experiência do nascimento para a vida nova, está ao alcance de qualquer um, em qualquer momento. E, afinal de contas, felizes são aqueles que, mesmo sem ver, acreditam.