28 de junho de 2011

A VOCAÇÂO, por Filipe Martins sj

A pergunta sobre a vocação costuma assustar e até incomodar não poucas pessoas. No uso corrente da palavra é normal pensar-se que só uns poucos “têm vocação”, poucos são os “eleitos” por Deus para uma vida consagrada a Ele de uma forma radical. E forma de vida não só radical como habitualmente vista como uma limitação, ao ler-se a consagração religiosa pela negativa: a pessoa não se pode casar (o voto de castidade), nem desfrutar dos bens (o voto de pobreza), nem “fazer o que quer” (a obediência).

No entanto, convém começar por clarificar que todos temos “vocação”! Pois vocação vem do latim vocare (chamar), e cada um de nós é “chamado” por Deus a ter uma vida realizada, “em abundância”. Alguns como consagrados, é certo. Mas muitos outros como solteiros ou casados, como pais e avós, como profissionais empenhados naquilo em que trabalham, como membros de uma família, de um grupo concreto, ou de uma comunidade social e eclesial. É neste sentido que todos temos vocação, já que todos somos convidados a viver uma vida plena, onde quer que ela se realize.

Falar de “vocação”

Falar de “vocação” significa assim falar de busca e de procura, de tentar seguir e encontrar-se nos caminhos que levam a uma vida maior. No ser humano, a “vida plena” coincide, por paradoxal que pareça, com a “vida plena” das outras pessoas à sua volta: “o segredo da tua felicidade”, já apontava a fada num famoso conto infantil, “está em fazeres felizes as pessoas à tua volta!”. Esta é no fundo a experiência que todos temos, do “quanto mais (te) dás, mais rico ficas” (Madre Teresa de Calcutá), constatando aquilo que Jesus já dizia há 2 mil anos: “Que o maior de entre vós seja aquele que serve. E felizes sereis se o puserdes em prática!” Todos andamos a tentá-lo por muitas vias, quando a “fórmula da felicidade” acaba por ser bastante simples!

A vocação não é assim um privilégio ou uma característica só de alguns, mas uma interrogação de vida a ser respondida por todos. Interrogação que passa pela questão “Senhor, onde queres que eu Te sirva?”, que é outra forma de perguntar “Onde queres, Senhor, que eu ponha em acção a minha capacidade de amar, de forma a dar mais fruto, a transformar mais o mundo?”. Interrogação que envolve um discernimento às vezes prolongado, já que poucas vezes a resposta é logo evidente.

Uma entre várias possibilidades

O discernimento da vocação passa, em primeiro lugar, por um processo de “escuta” do que Deus vai propondo a cada um. Não há receitas à priori, nem fórmulas infalíveis para chegar à resposta. Não há uma “lista de requisitos” a cumprir, como se Deus só contasse com os super-dotados (dizia um jesuíta que “Deus não chama só os melhores; mas a todos os que respondem à chamada, torna-os melhores!”). A vocação não passa também pelo “sacrifício”, como se Deus só se alegrasse com o mais custoso. Nem pode ser fuga ou solução alternativa para algum tipo de frustração.

Discernir a vocação coloca-se, assim, sempre entre duas (ou mais) possibilidades, que em si mesmas são boas. Ser padre ou consagrado não é melhor do que ser casado ou solteiro. Como ser médico não é melhor do que ser engenheiro ou artista. E que a pessoa escolha uma destas possibilidades, não significa que viesse a ser infeliz na outra. A vocação é, escreve outro jesuíta, um “encontro de duas liberdades”: é convite de Deus a viver a vida como missão, numa forma concreta que é a que dá mais “frutos de Reino”; e é reconhecimento e aceitação por parte da pessoa, que assim se encontra e se realiza nesse projecto concreto de “bem maior”.

Confiar em Deus

Se o processo de discernimento é “escuta”, então torna-se essencial a confiança n’Aquele a quem escutamos, Deus e a sua vontade. Falar na “vontade de Deus” traz sempre o perigo de vê-la como predestinação ou imposição, um caminho a ser aceite com resignação ou por medo. Mas isso significaria imaginar Deus como um “tirano”, imagem afinal muito distante da do “Pai próximo” a que Jesus se referia constantemente: um Deus-Pai que nos quer dar “a vida em abundância”, com ânimo e alegria interior (por isso a palavra “entusiasmo” significa, na sua origem etimológica, “estar habitado por Deus”).

Também a fé, no sentido mais original hebraico, não é um conjunto de crenças ou de conhecimentos, mas é confiança, confiança na promessa de Deus. Deus não promete que a vida será sempre fácil, promete sim que sempre nos acompanha e anima, nas alegrias e nas dificuldades, sejam elas quais forem. Visto desta forma, o que se opõe à fé não é o ateísmo, mas o medo, o receio do que nos possa acontecer se Deus nos deixar sós. Mas “Deus é mais íntimo do que o nosso próprio íntimo” (Santo Agostinho), e foi essa confiança que permitiu a São Paulo escrever, a partir da sua experiência, que “nada nos separará do Amor de Deus”.

Crescer em liberdade

Tendo por base a confiança em Deus, o discernimento deve fazer-se com “liberdade interior”, pois só assim se pode estar realmente aberto às várias opções. O medo, como vimos, pode ser causa de falta de liberdade. Ou causa de falta de confiança em nós próprios (ou melhor, no facto de não acreditarmos que “se Deus chama, então Deus dá a graça para o que chama”). Ou mesmo causa de receio, no caso da consagração, de uma vida que se “perde” inutilmente, na qual se renuncia a coisas que em si mesmo são boas (uma família, uma carreira, um certo nível de conforto material). Mas, como é evidente, qualquer opção deve ser sempre tomada pela positiva e não centrada no que se fica a perder (p.e. quando alguém casa, não fica a pensar em todas as outras pessoas com quem deixa de poder casar).

Por outro lado, no caso do discernimento para a vida consagrada, acontece por vezes haver pessoas que estão tão “encantadas” com a possibilidade da entrega radical a Deus que, nesse caso, o “crescer em liberdade” pede que se encare com seriedade também a hipótese de vida laical. Inácio de Loyola ilustrava esta “condição inicial de liberdade” com a metáfora do fiel da balança, que deve estar exactamente a meio das duas opções.

Reconhecer os sinais

O processo de discernimento passa assim por aprender a reconhecer a “voz de Deus” dentro de nós. Tal não significa “escutar vozes” (como alguém brincava uma vez, se tal acontece então provavelmente essa pessoa não deve falar com um padre mas com um psiquiatra!), mas sim crescer no conhecimento dos “sinais de Deus” dentro de si. A estes sinais chamam-se “consolação” e “desolação”: a consolação traduz-se habitualmente por alegria e paz interiores (mesmo se implica consequências difíceis), e aponta o caminho a seguir, o caminho que deixa a pessoa “encontrada” e pacificada. A desolação, pelo contrário, costuma manifestar-se como inquietação e falta de paz consigo mesmo, e é sinal de que essa opção não é a melhor.

Foi através da sua própria experiência que Inácio chegou a reconhecer estes sinais de Deus em si: convalescente em Loyola e pensando nas duas possibilidades de futuro (entregar-se a Deus ou à vida de nobreza), Inácio acabava por se sentir pacificado e alegre com a primeira, e vazio e inquieto com a segunda. A partir desta experiência escreveria umas pequenas regras para “discernimento dos espíritos” (interiores), que são parte integrante dos Exercícios Espirituais.

Confrontar com alguém

Tal como explicado até aqui, o processo de discernimento não se aplica só às grandes opções de vida, mas faz sentido mesmo nas pequenas decisões e momentos da vida. Viver em “atitude de discernimento” é assim uma “arte” na qual todo o cristão pode e deve crescer, pois é ela que vai permitindo estar atento aos constantes desafios e “toques” de Deus através da realidade.

No entanto, é verdade que é especialmente nos momentos e períodos de decisão que esta “arte” deve ser exercida e exercitada. A isso ajuda o “exame de consciência” diário, a oração frequente, a prática dos Exercícios Espirituais. De grande ajuda costuma ser também o “acompanhamento espiritual”, possibilidade de ir contrastando, com alguém mais “experiente nas coisas de Deus”, os movimentos e inquietações interiores. O acompanhante não é alguém que toma as decisões “em vez de”, nem um simples “amigo próximo”, mas alguém que ajuda não só a libertar dos medos e preconceitos infundados, como a (re)conhecer e aprofundar a passagem da “presença de Deus” na vida da pessoa.

A “fidelidade no tempo”

É isto, em síntese, a vocação: caminho de bem entre outras possibilidades de bem, construído em diálogo com Deus e na confiança de que Ele está sempre presente e quer sempre o nosso bem. Confiança de que o que Deus nos pede é sempre caminho de paz, de alegria e de crescimento - para a própria pessoa, para os outros e em direcção a um mundo melhor.

“O amor”, dizia Bento XVI na sua recente passagem por Portugal, “é a fidelidade no tempo”. E há medida que na vida fazemos a experiência de outras “fidelidades” e outros sentidos (alicerçando a vida nos bens materiais, nas capacidades e êxitos próprios, ou até no reconhecimento dos outros), muitas vezes acabamos por perceber que algo falta, algo que intuímos que só Deus pode preencher. Nas palavras de Jesus, “o meu alimento é fazer a vontade do meu Pai”, a vontade expressa pelo “amai-vos como eu vos amei”. E é a fidelidade a essa vontade, ao final de cada dia, de cada mês e de uma vida inteira, que a vai enchendo de sentido.


sugestões da aprofundamento:

MONIQUE LORRAIN, Discernir - O que é que se Passa em Nós. A.O., 2008

VASCO PINTO DE MAGALHÃES SJ, Vocação e Vocações. A.O., 2005 (2ªEdição)

CARLOS VALLÉS, Saber escolher. Loyola, 1986

P. Filipe Martins sj
in.: essejota.net

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24 de junho de 2011

Assunção Cristas e a questão de Deus



Excertos da intervenção de Assunção Cristas na mesa-redonda «Deus: questão para Crentes e não-Crentes, organizada pela comunidade da Capela do Rato (Lisboa).

22 de junho de 2011

Assunção Cristas sobre o ser católica na política

Ser católica na política

Soa-me sempre um pouco estranho quando me perguntam como é ser católico na política. Fico a pensar em que particularidade haverá quando comparado com ser católico no trabalho em geral ou em casa ou com os amigos ou com as pessoas com quem casualmente nos cruzamos na vida. É diferente?

“Ser católico” contém a resposta em si mesmo: é-se católico, não se está católico num momento ou numa condição, é-se ou procura-se ser em todos os momentos e em todas as circunstâncias. E por isso só sei responder o que é para mim ser católica ou, dito de outro modo, como me sinto católica. E aqui, na política, como na Faculdade ou na advocacia ou em qualquer lado, para mim ser católica é procurar sempre pôr a render ao serviço dos outros os talentos que Deus me deu e através desse serviço, desse acolhimento, dessa atenção e preocupação, sentir o Seu perfume e viver o Seu amor.

Não me sinto especificamente “católica na política”, procuro ser católica, da mesma maneira, em todo o lado, mas sei que estou na política porque sou católica.

Assunção Cristas
Deputada
In Observatório da Cultura, n.º 14 (Novembro 2010)
© SNPC | 09.11.10

19 de junho de 2011

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Hoje, dia 19 de Junho, primeiro Domingo depois de Pentecostes, celebra-se a Solenidade da Santíssima Trindade.

Não é fácil falar sobre a Santíssima Trindade. Sobre este mistério, central da fé e da vida cristã, de um Deus em três Pessoas, mas que é um Deus Único. Diz-nos o Catecismo da Igreja Católica: “As pessoas divinas não dividem entre Si a divindade única: cada uma delas é Deus por inteiro: «O Pai é aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja, um único» [XI Concílio de Toledo (ano 675), Symbolum: DS 530].” (CIC, 253).

O facto de esta Solenidade ter lugar após o período Quaresma – Pentecostes pode ajudar-nos a clarificar um pouco esta formulação da Santíssima Trindade, já mencionada nos escritos apostólicos, como podemos ver na Segunda leitura de hoje, na saudação de S. Paulo: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2 Cor, 13, 13).

Desde o inicio da Quaresma, fomos sendo convidados a conhecer, através do estabelecimento de uma relação pessoal, cada uma das três Pessoas divinas: Jesus Cristo que morreu e Ressuscitou por nós; o Pai que Jesus nos dá a conhecer: “E agora, glorifica-me, Pai, junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus e os deste a mim e eles guardaram tua palavra.” (Jo 17, 5-6); e o dom do Espírito Santo que Jesus nos dá: “No último dia da festa, o mais solene, Jesus, de pé, disse em alta voz: «Se alguém tem sede, venha a mim e beberá, aquele que crê em mim!» conforme a palavra da Escritura: De seu seio jorrarão rios de água viva. Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que haviam crido nele; pois não havia ainda Espírito porque Jesus ainda não fora glorificado.” (Jo 7, 37-39)

É sempre Jesus que surge como mediador entre nós, o Pai, e o Espírito Santo. De facto, quando perguntaram a Jesus: “Onde está teu Pai?” Jesus respondeu: “Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai” (Jo 8, 19). E também quando Filipe pergunta a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe?”

É o mistério do Verbo feito Homem que nos permite conhecer as três Pessoas em Deus. E porque quis Deus Pai enviar-nos seu único Filho? Para quê conhecermos Deus? O Evangelho de hoje dá-nos a resposta: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já está julgado, porque não creu no Nome do Filho único de Deus.” (Jo 3, 16-18). É um mistério de amor!

Jesus convida-nos a uma relação que nos permitirá conhecer o Pai, o amor que o Pai nos quer dar. Tudo poderá tornar-se mais compreensível partindo desse ponto de vista vivencial de uma relação. Até mesmo porque o Deus único não é um ser solitário, é um Deus comunitário, um Deus de relação, é comunidade de vida e de amor. E é este amor, que nos é oferecido, aquilo que nos salva. Se tudo nasce de uma relação, mais fácil do que falar sobre a Santíssima Trindade, do que demonstrar a Santíssima Trindade, poderá ser o mostrar essa relação através do que ela é na vida de cada um. E de viver este amor em relação.

Imagem: Santíssima Trindade, de Masaccio. Leituras de hoje: PRIMEIRA Ex 34, 4b-6. 8-9; SALMO Dan 3, 52.53-54.55acd-56Se; SEGUNDA 2 Cor 13, 11-13; EVANGELHO Jo 3, 16-18


14 de junho de 2011

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo


Deus é uma criação do cérebro?

Experiências ‘estranhas’, ‘sobrenaturais’, são frequentemente narradas por pessoas afectadas por doenças mentais. Para alguns neurocientistas que se têm pronunciado sobre esta questão em décadas recentes, as experiências fora do comum, relacionadas com Deus, anjos e demónios, relatadas pelos seus pacientes afectados de perturbações mentais, são por eles acriticamente identificadas como experiências religiosas, e com base nelas consideram que se pode proceder a uma análise clinica e cientificamente objectiva da experiência religiosa em geral. Esta corrente tem sido denominada ‘neuroteologia’.É no contexto da neuroteologia que surgem quatro afirmações sobre a experiência religiosa.

A primeira é a de que ela acontece nos estreitos limites do cérebro humano. A segunda, é a de que a experiência religiosa é algo de extraordinário, não comum, e está com frequência associada a perturbações mentais. A terceira é a de que tal experiência é essencialmente emocional e não cognitiva. A quarta, consequência das três primeiras, é a de que o conteúdo da experiência religiosa nada tem a ver com qualquer realidade divina existente fora dos percursos neuronais do cérebro humano.

Michael Persinger é um dos neurocientistas que primeiro defendeu desde a sua primeira obra Neuropsychological Basis of Human Belief (1987), as teses hoje integradas na neuroteologia, afirmando: “as experiências de Deus são fenómenos transitórios, carregados de referências emocionais. A natureza dessas experiências é influenciada pela zona específica do cérebro na qual tem a sua origem”.( Michael Persinger, Neuropsychological Basis of Human Belief, New York: Praeger Publishers, 1987, p. 1.)

Na mesma linha de Persinger, Rawn Joseph afirma mais especificamente: “a intensa activação do lobo temporal, do hipocampo e da amígdala, têm sido entendidas como fonte de intensas experiências sexuais, religiosas e espirituais, e a sua hiperestimulação contínua pode levar o indivíduo a estados de hiperreligiosidade ou à visualização e experiência de fantasmas, demónios, anjos, e até mesmo de Deus, a afirmar-se possuído por anjos ou demónios, ou ter a experiência de deixar o seu próprio corpo.” (R. Joseph, “Dreams, spirits, and the soul” in R. Joseph (org), Neurotheology. Brain, Science, Spirituality, Religious Experience, San Jose, Califórnia, California University Press, 2003, p. 412.)

Um outro neurocientista, V.S. Ramachandran, afirma, referindo-se às experiências religiosas dos pacientes que sofrem de epilepsia no lobo temporal esquerdo, que “todos os estudantes de medicina aprendem que os pacientes com crises de epilepsia nesta parte do cérebro, podem experimentar fortes experiências espirituais durante as crises, e preocupam-se frequentemente com problemas espirituais e morais, mesmo durante os períodos entre uma crise e outra.” (V.S.Ramachandran – S. Blakeslee, Phantoms in the Brain, New York: Quill William Morrow, 1998, p. 175) Tais pacientes “vivem experiências espirituais profundas e impressionantes, como o sentimento de uma presença divina e a sensação de se encontrarem em directa comunicação com Deus, e afirmarem-se possuídos por anjos ou demónios, ou a terem a sensação de sairem do próprio corpo.”( Ibid., p. 179)

Observando o lobo parietal posterior superior durante o estado de profunda meditação de um monge budista, Andrew Newberg, um dos mais conhecidos e reputados ‘neuroteólogos’ verificou que existia naquela área cerebral, responsável pela percepção dos limites do próprio corpo e do seu movimento no espaço, uma actividade particularmente baixa. O sentimento de perda da percepção dos limites do próprio corpo e de união com o universo experimentado pelo monge, é o simples resultado da diminuição de actividade neuronal naquela zona do cérebro. O autor afirma que encontrou o mesmo género de correlação em religiosas franciscanas que entravam em profunda oração. Newberg apresenta a sua teoria como uma metateologia, que revela as condições neurobiológicas de possibilidade da experiência religiosa.

Sem negar o interesse dos estudos de Newberg e dos neuroteólogos em geral, deve dizer-se que há em todos eles um esquecimento da natureza relacional do ser humano, e da dimensão comunitária da experiência religiosa, entre outros elementos.
Além disso, as experiências acima apresentadas pelos neurocientistas, são em geral, fonte de prazer. Como afirma mais explicitamente Persinger, “normalmente a experiência de Deus inclui emoções eufóricas e positivas. A pessoa fala de uma extraordinária experiência de Deus que é caracterizada por um profundo sentimento de paz, de serenidade cósmica e do significado de tudo. Trata-se sempre de um estado que inclui a redução da ansiedade acerca da morte.” (Neuropsychological Basis of Human Belief, p. 2)

Ora, a experiência religiosa não tem que ser necessariamente caracterizada por uma paz silenciosa, ou sequer por uma agitada euforia. Há pessoas cujas experiências religiosas passam por períodos, por vezes longos, de aridez e sofrimento. Como afirma Woodward, “um dos principais erros dos neuroteólogos consiste em identificar a religião com experiências e sentimentos específicos. Perder-se na oração pode ser agradável e excitante, mas estas emoções não têm nada a ver com a qualidade da nossa relação com Deus. De facto, muitas pessoas rezam melhor quando sentem vergonha ou dor, e o sentimento da ausência de Deus não é menos válido que a experiência da presença divina.” (“Faith is more than a feeling”, Newsweek, 7, May 2001, p. 58.)

Os autores que associam as experiências religiosas à activação neuronal do lobo temporal esquerdo durante episódios de epilepsia não fazem qualquer distinção entre experiências religiosas normais e patológicas, com excepção de Andrew Newberg. O autor reconhece que é um erro estabelecer uma associação necessária entre experiência religiosa e patologia: “nem todas as pessoas com epilepsia no lobo temporal esquerdo têm experiências religiosas, e certamente nem todas as experiências religiosas estão relacionadas com a actividade epiléptica no lobo temporal esquerdo. … Por conseguinte, o estudo neurocientífico das experiências espirituais deve, em parte, incluir uma ulterior distinção entre experiências espirituais que ocorrem em pessoas sem perturbações neuropsiquiátricas e experiências espirituais associadas com patologia.” (A. Newberg, “Pathological and normal spiritual experiences”, in The Global Spiral, 2001.12.10, em www.metanexus.net.)

Persinger e os demais neurocientistas citados não estabelecem a necessária distinção entre a condição necessária para que se verifique a experiência religiosa, ou qualquer outra experiência, – a actividade neuronal -, e a condição suficiente para que se verifiquem tais experiências. Uma condição necessária não é sempre condição suficiente e, no caso da experiência religiosa, a actividade neuronal só poderia ser considerada condição suficiente se aquela experiência fosse fundamentalmente causada pelo cérebro. Ora, isso é o que se pretende provar. Não se pode partir desse pressuposto. A experiência religiosa tem a ver não apenas com a activação cerebral, mas também com a cultura em que a pessoa se encontra – não necessariamente aquela em que nasceu ou em que foi educada – e tem a ver com opções livres e racionais no contexto da vida quotidiana, opções que são o resultado da interacção de complexos factores, internos e externos. Para os crentes, entre estes factores está, tanto interna como externamente, Deus. Por conseguinte, a activação neuronal é condição necessária mas não suficente da experiência religiosa.

P. Alfredo Dinis, sj

9 de junho de 2011

Ensino Ciência Religião


No dia 10 de Junho estarei na Feira do Livro do Porto,Avenida dos Aliados, às 18h, junto do pavilhão da Gradiva, a autografar a obra Ensino, Ciência, Religião, de que sou co-autor.

P. Alfredo Dinis,sj

6 de junho de 2011

A vocação do silêncio: José Luís Peixoto na Cartuxa de Évora

José Luís Peixoto penetrou no praticamente inacessível mundo de contemplação do Convento da Cartuxa. Ali, dez monges vivem em isolamento total, movidos pela fé.

Caminhava com o prior ao longo dos claustros quando os sinos começaram a tocar. A dissolverem-se no céu ou a retinirem nas paredes de pedra, chamavam para as vésperas e, longamente, acompanharam-nos até à entrada da igreja. A tarde dobrava o ponto em que o calor se transformava em calma, primavera de Deus. No interior da igreja, era fresco o eco da lonjura. Quase indistinto dos objetos e das imagens, imóvel, sentado, com o capuz a cobrir-lhe a cabeça, estava um monge velho, curvado. O prior apontou-me um lugar, fez-me gesto para esperar ali e saiu. O monge e eu ficámos a respirar. Foi então que o silêncio começou.

Calcular a passagem do tempo dentro do silêncio é comparável a contar segundos pela chama de uma vela ou por um abraço. Semelhante a estes dois exemplos, também o silêncio transporta um sentido imperturbável que é maior do que o tempo que pode ser medido. Como se acontecesse noutro lugar, como se ignorasse os minutos e, assim, lhes subtraísse toda a força da sua importância. O silêncio não se deixa transformar por horas, dias ou séculos. Aquilo que o silêncio era em 1084, quando São Bruno fundou a Ordem da Cartuxa, continua a ser, hoje, o silêncio.

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Não sei quantos minutos passaram até começarem a chegar monges e o prior entre eles. Os passos no estrado de madeira, o som de encontrarem o seu lugar, de tirarem os livros enormes e de os abrirem. E ninguém dirigia a atenção para fora daquilo que estava a fazer, ninguém fazia um gesto desnecessário, ninguém procurava o olhar de ninguém. As vésperas são o último serviço litúrgico no dia de um monge cartuxo. O primeiro tem início à meia-noite e, na semiescuridão da capela, dura cerca de duas horas e meia. São as matinas. Dividem o sono dos cartuxos, que dormem entre as oito e trinta e um pouco antes da meia-noite, voltando depois a dormir entre as três e as seis e meia da manhã. Às oito, inicia-se a missa, que dura cerca de uma hora. Nesses três momentos diários, sem acompanhamento instrumental, apenas voz, os monges cartuxos cantam. Naquele fim de tarde, quando todos estavam prontos, quando chegou o instante, o prior começou a cantar. Era quinta-feira, cantaram-se os salmos das quintas-feiras, 138, 139 e 140. Em gregoriano, um dos lados da igreja cantava um verso, o outro lado da igreja respondia com o seguinte. Encostados a paredes opostas, virados uns para os outros, de cabeça baixa, coberta pelo capuz branco do hábito, com o rosto fixo nas páginas do livro, os monges cantavam em português. Na vibração das vozes, dentro da sua mistura coletiva, era possível distinguir-se os erres suaves do monge californiano e, noutras vezes, os erres mais rasgados dos monges espanhóis.

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O Convento de Santa Maria Scala Coeli, em Évora, conhecido como Convento da Cartuza, único convento ativo desta ordem em Portugal, é a casa de sete monges espanhóis, dois portugueses e um norte-americano. Além destes, o convento recebe um número variável de aspirantes. A língua comum é o português, que, neste caso, não é tanto uma língua de falar, mas é sobretudo uma língua de ler, de pensar ou, mais ainda, é uma língua de orar. A Cartuxa é uma ordem contemplativa: entre os seus princípios fundamentais encontram-se a oração, a clausura, o silêncio e a solidão.

Scala Coeli significa “escada do céu”

E, realmente, é compreensível que, no tempo em que os textos sagrados se escreviam, tenha sido necessário o céu para simbolizar esse Deus omnipotente. À saída das vésperas, estava um céu imenso sobre o pátio do convento, era um céu de bondade. Os monges caminhavam e, um a um, iam entrando pelas portas baixas, distribuídas ao longo da distância dos claustros. O som breve, discreto, de cada porta a fechar-se. Os monges cartuxos passam a maior parte do dia na sua cela. Despida de tudo o que não seja devoto ou prático, cada cela é individual e constituída por uma primeira sala com lareira para acender no inverno e genuflexório, um pequeno escritório com secretária e cadeira, uma divisão de oração, um quarto com cama muito austera, catre com colchão de esponja, e um pátio quadrado de sol e plantas, com casa de banho ao fundo. As horas, os dias são preenchidos com oração e leitura. As refeições são servidas por uma janela e recolhidas desde o interior, através de um sistema pensado para evitar o contacto entre os dois lados. As leituras são escolhidas da biblioteca, onde a quase exclusividade dos livros são religiosos ou espirituais, com secções como Mariologia, Patrologia, Cristologia, Dogma, entre outras. Reparei nos títulos de alguns dos últimos livros consultados: “Ser Cristão Num Mundo Hostil”, “A Teologia da Doença”, “O envelhecimento”. Faz sentido que o envelhecimento seja um motivo de interesse na Cartuxa de Évora: quatro dos monges são octogenários, quatro são septuagenários, um está nos cinquentas e outro nos quarentas. Quanto aos aspirantes, mais jovens, até aos votos solenes, nunca é garantido que sigam a vocação cartuxa. Ao longo dos sete anos de preparação, incluindo postulantado, noviciado e votos temporários, os aspirantes têm liberdade de repensar a sua escolha e sair. O que acontece num grande número de exemplos.

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Além da vida na cela, os monges tentam que o mosteiro se aproxime da autossuficiência e, para tal, dedicam-se a diversos ofícios. Entre os cartuxos, há alfaiate, eletricista, pedereiro, serralheiro, etc. Salta à vista a cuidada manutenção do mosteiro e um laranjal no pátio, que, nesta época, está carregado. O padre Isidoro não me deixou sair sem me entregar um saco cheio dessas laranjas. Algumas ainda estão ali, a olhar para mim. São doces. Mas aquilo que demove aspirantes, o sacrifício que torna a vida cartuxa tão específica é o seu carácter eremita. Até as escalas de trabalho são planeadas de modo a que cada monge desenvolva as suas tarefas sozinho, sem companhia. Com a exceção dos domingos e dos dias de festa, os monges cartuxos mantêm o silêncio total. Nessas datas, existe um período de recreio em que conversam, entre as três e as cinco da tarde. Essa é uma conversa coletiva, em que todos ouvem o que é dito. Os monges não aguardam essas horas com impaciência. Uma boa parte deles limita-se a ouvir e há mesmo alguns que podem escolher não participar, recolhendo-se à cela. É também nesses dias que o almoço é tomado em conjunto, simultâneo à leitura ininterrupto de um texto religioso, feita no centro do refeitório. A carne nunca faz parte da ementa dos cartuxos, apenas vegetais, peixe e laticínios. As sextas são passadas a pão e água. Individualmente, os monges podem escolher fazer períodos de jejum, bastando para isso afixar uma tabuleta com a palavra “abstinência” na janela onde os tabuleiros das refeições são servidos.

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Quando o clima permite, a clausura é amenizada por um passeio semanal pelos campos ou a um lugar próximo de interesse religioso ou histórico. Esse instante recreativo permite aos monges caminharem em grupos de dois e dá-lhes a oportunidade de falarem de si próprios. Além dessa ocasião, as raras saídas do convento restringem-se a idas ao médico. A clausura é um compromisso para toda a vida e implica, por exemplo, o sacrifício da família. No escritório, recordando, o padre Antão, prior da Cartuxa de Évora, contou-me que os seus pais, quando eram vivos, para aproveitarem a oportunidade, o visitavam separadamente, no aniversário de um e de outro, em abril e em outubro. Ao ouvi-lo, não consegui evitar dirigir o meu olhar na direção do telefone, o único de todo o convento, o mesmo para onde tinha ligado várias vezes, tentando imaginar onde era atendido. Sei agora que era atendido numa divisão de paredes grossas, brancas, com uma secretária de madeira antiga e silêncio.

Comunidade cartuxa

Ali, o prior é o encarregado de manter o contacto necessário com o exterior. Não é um contacto fácil ou facilitado. O aviso está bem explícito logo no portão, onde uma placa anuncia a clausura e um letreiro bastante direto demove os turistas de tentarem visitar o convento: “A Cartuxa não se visita.” Ao comentar a mudança na vida dos padres que passam a priores, passando da solidão a uma posição de maior convivência com o mundo, o padre Isidoro, brincando, dizia-me: «Por isso é que quase ninguém quer ser prior.» Num lugar onde não existe televisão ou rádio, esse contacto, por breve que seja, deve trazer uma grande diferença no modo de vida. A eleição para prior é feita por todos os monges. Aliás, as principais escolhas do convento são feitas através de um antigo método democrático. Na sala do Capítulo, os monges são chamados a votar com feijões brancos, pretos e vermelhos, que depositam numa caixa de madeira e que representam “sim”, “não” e voto “em branco”. O fundo da gaveta onde caem os feijões está forrado, de maneira a que não se ouçam cair, para preservar o anonimato da abstenção, também possível.

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Num mundo tão ambicioso de efémero, a vocação cartuxa espanta pela forma como leva a fé às suas últimas consequências. Esse quotidiano, aparentemente tão distante deste, é habitado por rostos reais, feitos de décadas passadas no silêncio contemplativo, nesse exterior que é, ao mesmo tempo, tão interior. É por isso que espanta, que marca, e não bastam algumas frases escritas com letra miúda no fim deste texto para agradecer a exceção de nos terem aberto os portões do convento. Eu sei que vão ler estas palavras e, a esses dez monges de Évora, quero expressar gratidão. Obrigado por aquilo que não se vê e por aquilo que não se diz. Obrigado também porque, agora, enquanto estamos aqui, eles estão lá, a fazerem-nos saber que “lá” é um lugar que existe.

José Luís Peixoto
Fotografia: Tiago Miranda
In Expresso (Única)
05.06.11

4 de junho de 2011

Herdeiros de um repto de ascensão...


Uma presença evidente é negada aos olhos.

Uma ausência sensível penetra na interioridade.

A Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo nutre com credibilidade as contradições.

No momento em que se vai embora quem estará connosco todos os dias da nossa vida, o eterno torna-se particular.

Inaugura-se uma intimidade tão abrangente que se reduz ao limitado de um instante.

Um parágrafo, um abraço ou um gelado.

Uma mão, uma memória ou uma chamada.

A vida está povoada de diminutos mistérios,

mas o principal parece continuar a ser quando deixar de respirar.

Esta inquietação pelo posterior só distrai da nossa colaboração com o actual.

“… porque ficais aqui parados, olhando para o céu?”

Há tanto por fazer cá na Terra…!

(… que todo o pouco nos parece insuficiente).

A semente de Reino está cuidadosamente depositada nesta terra.

Não cheira a fruto definitivo porque é só semente.

Por ser semente é que existe e é possível.

Indubitavelmente discreta,

as capacidades de fertilidade escapam a toda a previsão.

A grandeza de existir manifesta-se na pequenez de cada um.

São subtis as contradições que dinamizam o agir…

A confiança plena em que a duvida vai orientando o caminho.

A urgência de amor universal praticada no local.

A insinuação de Pai ao órfão de sentido.

A humildade do Filho recomendada ao excelso ninguém.

A ligação do Espírito como comum companheiro do amável.

Como atrever-se a ensinar, havendo ainda tanto por aprender?

“Puxar para cima” a realidade próxima é missão de gratuidade.

O pobre, o desiludido, o excluído… merecem “um sempre melhor”.

Somos herdeiros de um repto de ascensão.

A vitalidade do testemunho está no pormenor:

“Para Deus, sobe-se descendo”.





1 de junho de 2011

Ser contemplativo na acção

Uma das mais habituais queixas das nossas vidas é que estamos muito ocupados. (...) paradoxalmente, as tradições espirituais - tanto cristãs como não cristãs - não costumam imaginar Deus tão ocupado como nós. (...) Mas há uma tradição espiritual que oferece um certo correctivo à nossa imagem de um Deus a descansar eternamente. Essa tradição vem de Inácio de Loyola, que tinha uma certa predilecção para descrever Deus, Trindade e Encarnado, a trabalhar. Ele imaginava Deus activo e Jesus atarefado com os assuntos deste Deus a quem chamava Abba, Pai. (...)

Então, onde é que começamos a procurar Deus? Na actividade, no trabalho. O que distingue a perspectiva de Inácio não é chamarmos por Deus para Ele estar presente connosco nos nossos trabalhos, mas antes cairmos na conta que somos privilegiados por nos juntarmos a Deus nas Suas actividades, nos trabalhos de Deus. Mais correctamente ainda: devemos estar sempre a trabalhar com Deus e com o mundo de Deus. A nossa união com Deus, com Cristo, é encontrada primariamente, portanto, na actividade em conjuncão com Deus, com Cristo. (...)

O dom de lnácio para nós, nos nossos dias, é ainda o de nos apontar o caminho para a nossa vida peregrina, feita de movimento e actividade. O trabalho que fazemos deve envolver-nos na divina história que contemplamos. (...) Encontrar um Deus ocupado fornece um incentivo para o nosso trabalho, porque descobrimos que o próprio labor que nos caracteriza como humanos é um lugar especial onde Deus está. Tanto que precisa de ser feito e Deus chama-nos para a tarefa de construir com Ele um mundo ao mesmo tempo mais humano e mais divino.

Ao mesmo tempo, encontrar um Deus ocupado dá-nos um meio de nos libertarmos da ansiedade inútil e da impaciência de querermos terminar qualquer trabalho de acordo com o nosso calendário. Embora Deus nos tenha criado para O ajudarmos nas Suas ocupações, continuamos a ser apenas colaboradores. Cada vez que rezamos como Jesus nos ensinou, expressamos a nossa fé na vinda divinamente assegurada desse Reino. "Venha a nós o vosso Reino”, rezamos.

Por essa esperança trabalhamos; nessa divina certeza nos descontraímos.

David Fleming, Finding a busy God