31 de outubro de 2011

Santo Afonso Rodrigues


Afonso Rodrigues, nasceu em Segóvia, em 1533, e aos 38 anos entrou na Companhia de Jesus como Irmão em 1571, após a morte da sua mulher e dos dois filhos. Ainda como Noviço é enviado para o Colégio de Monte Sião, em Palma de Maiorca. Entre outros trabalhos de casa é sobretudo como porteiro que, durante 46 anos, colabora na vida do Colégio.

Pelos seus apontamentos podemos encontrar, deste porteiro simples, humilde e acolhedor, uma vida interior de enorme intimidade com Jesus e Nossa Senhora. Um ser contemplativo também na acção marca a sua espiritualidade, encontrando o amor de Deus em tudo. “Já vou, Senhor!” – desta forma, quando tocavam à porta, o Santo dirigia-se para a abrir como se tivesse Deus tocado à campainha.

Afonso Rodrigues morreu aos 84 anos em Palma de Maiorca a 31 de Outubro de 1617. Foi canonizado por Leão XIII em 1888.

29 de outubro de 2011

"PEREGRINOS DA VERDADE, PEREGRINOS DA PAZ"



DIA DE REFLEXÃO, DIÁLOGO E ORAÇÃO PELA PAZ E A JUSTIÇA NO MUNDO

Assis, Basílica de Santa Maria dos Anjos
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Queridos irmãos e irmãs,
distintos Chefes e representantes das Igrejas
e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo,
queridos amigos,

(…)
A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.
(…)
Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito. Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

(texto e vídeo completos em www.vatican.va)

27 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (V, e último)

V. O IMPERATIVO DO MEMORIAL: A TEOLOGIA ENQUANTO RESISTÊNCIA A AMNESIA

O drama do 11-S provocou em muitas consciências um forte impacto. Foram muitos os que se deixaram levar pela voragem duma espiral de violência que ainda não sabemos nem aonde nos conduzirá nem quando acabará; mas este drama fez reflectir à maioria acerca das causas que nos levaram até aqui e, sobre tudo, a se perguntar o que era preciso fazer a partir desse preciso instante. Neste sentido, perguntávamo-nos no início se é que a Teologia tinha algo a dizer após o 11-S. Se a teologia se auto-compreende como sendo um esforço para termos os olhos bem abertos à realidade, não pode dar por óbvio em absoluto a história da paixão da humanidade. A Teologia deve ajudar a manter a conexão entre a memória e o esquecimento, com o fim de manter a sua condição de comunidade de transmissão de sentido.

Nunca se pode perder de vista que a obrigação da Teologia é perguntar-se qual a resposta de Deus à escuridão da dor humana, e contribuir assim a pôr fim ao clamor dos que sofrem. O sofrimento que resulta da violência converte-se numa provocação religiosa e, sendo que perturba a tendência do crente à acomodação tranquila, força à compaixão. Dado que, no fim, o terreno no qual a Teologia é competente é o da história da paixão/compaixão humanas. Não amnésia contemporizadora, mas sim reclamação de justiça para todos os vencidos pela dinâmica da história; não discursos vazios, mas sim interpelação que aspira a suscitar uma resposta; não cansaço ou surdez perante a queixa, mas sim persistência utópica numa solidariedade que recusa a paralisia; não narcisismos auto-complacentes que convidam à reclusão reconfortante na própria intimidade, mas sim a denúncia profética que apela ao testemunho da esperança que não desfalece.

Se a Teologia não tiver em conta as catástrofes provocadas em nome de Deus e da religião, se se centrar somente naquilo que a humanidade já conseguiu e esquecer tudo aquilo que foi destruído de caminho, perde a sua capacidade de transmitir um discurso acerca da necessidade de sermos salvos. Aquela Teologia que perdeu a tensão entre a realidade e as expectativas é vã, porque arranca de raiz aquele único espaço onde Deus ainda pode ter a última palavra.

E é que, para as religiões, a salvação não se obtém à custa da desmemória. Ao contrário, o imperativo da fé é revelar aquilo que corre o risco de passar despercebido ou oculto pelo secretismo interessado do poder. A teologia deve anunciar e denunciar se não quer perder aquela sensibilidade espiritual que habilita para rezar, isto é, para falar de opressão e de libertação, de responsabilidade partilhada e de protesto, de solidariedade e de resistência. As religiões sabem que a autoridade de Deus se manifesta nos que sofrem e não nos aparentes triunfadores; que os textos sagrados que contêm a revelação não são mais do que o relato duma paisagem de clamores pedindo a Deus que mostre o seu rosto; que não há acesso possível a Deus à margem do esforço por se tornar compassivamente próximo do olhar das vítimas.

O 11-S recordou-nos dramaticamente que não podemos denominar religiosas aquelas pessoas que não se definem pela empatia, que os que recorrem à violência vivem de costas viradas para Deus. Depois do 11-S, houve quem pensasse que só fazia sentido esperar vingança ou converter-se em voyeurs passivos das decisões políticas. Outros optaram pelo protesto e pelo apelo ao diálogo. Os crentes recordaram que a sua fé é fundamentada num Deus que sempre advém, que não nos deixa abandonados à nossa sorte, mas que irrompe para pronunciar a Sua palavra. Um Deus por chegar definitivamente, um Deus da promessa que convida a um êxodo permanente de crises e conversões. Se a violência exercida enquanto abuso da religião nos paralisar, acabaremos por ser patéticos adoradores do fatalismo, seres melancolicamente resignados, simples administradores estratégicos das oportunidades de cada instante, cínicos apáticos ou conformistas gregários.

Só preservando uma irrenunciável disposição ao diálogo continuará viva a permeabilidade ao sofrimento alheio e a porosidade imprescindível para não cairmos num egoísmo doentio.

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

26 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (IV)

IV. BENTO XVI E O ISLÃO

Algo disto tem-se reflectido nas declarações de Bento XVI ao propósito do Islão, sempre caracterizadas pela tensão das semelhanças e diferenças entre cristãos e muçulmanos. Evidentemente, convém situar isto tudo no seu contexto específico: um encaixe difícil das duas grandes religiões da pós-modernidade, que tem levado o Cristianismo a um debate centrado na Nova Evangelização como estratégia para encontrar ou preservar um lugar num ambiente vivido como não necessariamente acolhedor; e que tem conduzido o Islão à discussão acerca do islamismo político enquanto possível estratégia identitária num mundo globalizado que ameaça com ocidentalizar tudo. Em definitiva, tanto para Bento XVI como para as autoridades do Islão, uma questão chave passou a ser a do lugar dos crentes numa sociedade secularizada e intercultural.

Aliás, no seu livro de entrevistas com Peter Seewald titulado La sal de la tierra (2005), Bento XVI faz um resumo da sua visão panorâmica do Islão como sendo uma religião com uma concepção da vida distinta da do Cristianismo, caracterizada pela rigidez e pela falta de adaptação ao mundo moderno. Mas no dia 20 de Agosto do mesmo ano 2005, num encontro com dirigentes islâmicos por ocasião da XX Jornada Mundial da Juventude de Colónia, Bento XVI coloca a relação entre Cristianismo e Islão mais a partir do respeito às respectivas identidades, a reconciliação e a defesa da liberdade religiosa, assim como a necessidade vital do trabalho em comum perante os reptos mundiais. Emergem já aqui os dois grandes eixos da sua posição perante o diálogo inter-religioso: a identidade religiosa e a liberdade religiosa.

No dia 12 de Setembro de 2006, Bento XVI dita em Ratisbona uma conferência intitulada “Fé, Razão e Universidade” na qual alguns creram ver uma disjuntiva entre um Cristianismo dialogante graças ao vínculo que estabelece entre fé e razão e um Islão violento que tentaria impor-se através da guerra santa. Isto provocou revoltas, protestos de todo o tipo (o assassínio da irmã Leonella Sgorbati en Mogadíscio) e exigências de desculpas públicas. A reacção do Vaticano consistiu em convocar os embaixadores dos Estados islâmicos no dia 25 de Setembro com a finalidade de explicitar que os protestos estavam a ser injustificados e que a intenção de Bento XVI era situar o debate num contexto estritamente académico.

Pouco depois, no 28-29 de Novembro de 2006, Bento XVI visita a Turquia num ambiente deteriorado ainda pelas declarações de Ratisbona e pela repetida negativa do Papa ao ingresso da Turquia na União Europeia. Perante as acusações de olhar etnocêntrico acerca do Islão, Bento XVI opta por uma estratégia distinta à utilizada na Alemanha: no seu primeiro discurso, glosa a tradicional defesa que os governadores islâmicos fizeram das minorias cristãs presentes nos seus territórios e, durante a visita à Mesquita Azul, detém-se diante o mihrab que aponta em direcção à Meca e durante uns instantes reza para que os crentes dêem testemunho de verdadeira fraternidade. Também não faltou a visita ao mausoléu de Atatürk, pai da nação turca e símbolo da laicidade do Estado, onde as palavras do Papa foram objecto de especial atenção, dado que ainda ressoava o protesto de Bento XVI pela não inclusão da referência às raízes cristãs no projecto de Constituição Europeia.

Algo parecido aconteceu com motivo da visita de Bento XVI ao Oriente Próximo entre o dia 8-15- de Maio de 2009, com escala em Jordânia, Palestina e Israel. Tratou-se duma peregrinação às origens do cristianismo com um profundo sentido identitário e contínuos apelos ao dever dos cristãos de preservarem a sua fé quando forem uma minoria social. Como fizera na Turquia, aqui Bento XVI também visitou a mesquita do rei Hussein Bin Talal, onde advertiu contra aqueles que incentivam a violência exagerando as diferenças entre cristãos e muçulmanos. Para além disso, por ocasião da bênção da primeira pedra da universidade católica de Madaba, Bento XVI elogiou os esforços da família real jordana em favor do diálogo inter-religioso. Logo a seguir, no difícil ambiente do conflito israelito-palestiniano, o Papa advogou pela paz entre crentes na sua visita à mesquita al-Aqsa e no campo de refugiados de Aida.

Podemos entender melhor estes matizes todos se abrirmos a objectiva para obter uma panorâmica mais ampla daquilo que está em debate. No dia 6 de Novembro de 2007 aconteceu um facto duma transcendência enorme: o rei Abdallah de Arábia Saudita, guardião dos Lugares Santos do Islão, visitou o Vaticano. Não houve quem não reparasse na importância desta visita do máximo dirigente do reino wahhabita, acusado de auspiciar atentados islamistas contra interesses ocidentais e que agora queria apresentar-se como sendo um dos adaís do diálogo de civilizações. Um exemplo desta mudança de atitude teve lugar no dia 24 de Março de 2008, dia do baptismo de Magdi Allam, jornalista italiano de origem egípcia, conhecido pelas suas virulentas críticas islamófobas. O facto de o evento ser presidido por Bento XVI provocou reacções iradas nalguns sectores do Islão, mas o rei Abdallah reagiu no mesmo dia convidando o Vaticano a participar numas jornadas de diálogo intercultural e inter-religioso para a promoção da paz.

Aliás, em Junho de 2008 foi convocada em Meca uma reunião da Conferência Internacional Islâmica que devia preparar o Congresso Internacional para o Diálogo, que teve lugar em Madrid entre o 16-18 de Julho do mesmo ano. Em realidade, o Congresso não abordou a temática inter-religiosa, antes o posicionamento das grandes religiões perante reptos como as relações internacionais, o meio ambiente, a droga ou a corrupção, e em momento nenhum se tratou da liberdade religiosa ou do respeito à diversidade. Tal como mencionou o cardeal Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, tratava-se duma opção pela realpolitik: o Vaticano evitava entrar no debate teológico e dogmático com a finalidade de não lidar com possíveis críticas tais como as derivadas da conferência de Ratisbona, enquanto que a máxima autoridade do wahhabismo se esforçava por mostrar à opinião pública internacional o rosto dum Islão tolerante e pacífico.

Porém, segundo o nosso parecer, têm muito mais futuro as seguintes iniciativas, que têm inaugurado uma nova dinâmica que convida ao optimismo. No dia 18 de Outubro de 2006, isto é, poucas semanas depois da polémica conferência de Ratisbona, o príncipe Ghazi bin Muhammad, presidente do Instituto ´Aal al-Bayt de Jordânia, auspiciou a redacção duma carta dirigida ao Papa e assinada por 38 governantes do mundo islâmico. Esta carta recuperou, com a intenção de os criticar, os sete aspectos que Bento XVI destacara em Ratisbona a propósito do Islão: a ausência de coacção na religião, a transcendência de Deus, a função do Logos, a guerra santa, a conversão forçada, a ideia de renovação espiritual e o estatuto dos especialistas religiosos.

Não houve reacção do Vaticano a esta carta, mas exactamente um ano depois, no dia 11 de Outubro de 2007, foi enviada outra carta dirigida a Bento XVI (“Uma palavra comum entre vós e nós”), esta vez assinada inicialmente por 138 governantes, entre os quais havia bastantes cristãos. Ainda que em continuidade com a carta anterior, esta outra não procura introduzir matizes entre as duas religiões, mas acentuar as possibilidades implícitas na base teológica do Islão e do Cristianismo: o amor a Deus e o amor ao próximo. Deste modo, recorrendo à mensagem partilhada dos respectivos textos sagrados, os autores da carta aspiravam a envolver os adeptos das duas religiões numa nova dinâmica de diálogo. Aqui já não havia olhares tendenciosos para com a alteridade religiosa, tinham-se eliminado os estereótipos e os preconceitos que não favorecem a mútua aceitação, e destacava-se em exclusiva a apelação ao compromisso humanitário.

Desta vez já houve reacção do Vaticano. A resposta favorável de Bento XVI propiciou uma primeira reunião com uma delegação de cinco elementos assinantes da carta do 4-5 de Março de 2008. Resolveu-se criar uma comissão mista para debater acerca dos principais pontos do diálogo islámico-cristão. A 4-6 de Novembro de 2008, foi assinada uma Carta de Direitos para cristãos e muçulmanos. Desde então, diferentes reuniões têm trabalhado acerca das implicações teológicas da liberdade de consciência religiosa, a violência exercida em nome de Deus ou da religião, e o respeito entre os crentes de distintas religiões.

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

25 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (III)

III. PLURALIDADE E ALTERIDADE: O DIÁLOGO COMO COMPROMISSO RELIGIOSO

Factos como o 11-S fizeram ganhar uma consciência ainda mais clara da urgência de nos comprometermos numa decidida opção pelo diálogo inter-religioso. No fim, assumiu-se que toda a religião é expressão simbólica dum encontro: encontro entre a Divindade e a humanidade, encontro do crente com a Palavra de Deus, encontro do mestre espiritual com o seu discípulo, encontro da comunidade de crentes para celebrar a liturgia… A convicção da impossibilidade de atingir a paz entre as civilizações sem trabalhar, ao mesmo tempo, em favor da paz entre as religiões aparecia diáfana. E –não é segredo para ninguém- todos os dedos assinalavam o Cristianismo e o Islão como sendo aquelas religiões sobre as quais recaía o peso deste compromisso. Certo é que estas duas religiões estão a fazer um trabalho bem louvável em favor da mútua aproximação desde há décadas e, embora a ritmos diferentes, nunca antes tinham sido as posições tão coincidentes. Encontros de todo o tipo têm ajudado a reconciliar ao longo dos séculos e a estabelecer ligações interpessoais.

Assumiu-se decididamente que o debate acerca da diversidade é inevitável e chave num contexto de globalização. É o imperativo da aceitação duma extraordinária variedade que reclama ser acolhida; é a exigência dumas relações entre as religiões baseadas no reconhecimento e não na imposição. Teologicamente, isto está a supor uma autêntica revolução: aprofunda-se na tese segundo a qual a humanidade espera das religiões uma resposta aos enigmas da condição humana; renuncia-se formalmente às teses exclusivistas segundo as quais não existe possibilidade fora da própria religião; reformula-se a histórica proposta da tarefa missionária e substitui-se por uma aposta pela evangelização; abre-se o debate acerca a dimensão salvífica da pessoa de Jesus Cristo, numa apaixonada e apaixonante tensão entre adeptos do inclusivismo e do pluralismo…

Não é preciso demorar muito mais na descrição deste fenómeno no qual ainda estamos imersos, sem saber sequer por quanto tempo. O que parece inegável é que o Islão e o Cristianismo têm assumido que não há atitude de respeito se um deles não consentir meter-se nessa experiência de gerir ao mesmo tempo a unidade e a diversidade, a igualdade e a diferença. Mas o respeito só enraíza no terreno fértil do diálogo aberto à novidade que o outro nos aporta, na procura conjunta da Verdade através do estabelecimento de critérios, a colocação de perguntas, a ponderação de opções e a avaliação de decisões.

Reconhece-se que todas as religiões são respeitáveis porque todas elas andam à procura duma Verdade dinâmica e um Absoluto nos caminhos particulares de cada situação histórica; porque todas elas são ao mesmo tempo um convite e uma provocação, uma constatação das diferenças e um imperativo de hospitalidade, uma defesa da boa fundamentação da própria esperança e um esforço de conversão, uma proposta de discurso dirigido ao outro e de disponibilidade para uma escuta sincera. E, continuando com a mesma lógica, entende-se que a exigência de respeito fica aberta à dúvida quando se questiona que a base da espiritualidade é a origem comum de todos os seres humanos criados à imagem duma Divindade que sela uma aliança sempre único com cada um e universal com toda a humanidade; quando é negado o esforço conjunto que se concretiza em compromissos de solidariedade que consolidam aquilo que há de mais humano em nós; quando se renega a fé entendida como diálogo ao mesmo tempo com a Divindade e com a humanidade; quando o indivíduo vira as costas à iniciação espiritual entendida como um permanente recomeçar; quando faz ouvidos moncos à dimensão iniludivelmente interpretativa da fé e se cai na espiral diabólica do dogmatismo; quando há quem se erija como auto-suficiente e o resto dos seres humanos se tornam obstáculo para ele…

Em definitivo, aceita-se que as religiões põem também em risco –literalmente- a sua credibilidade na capacidade de serem respeitosas com o pluralismo; que perdem a sua razão de ser quando deixam de ajudar o ser humano a ultrapassar as reclusões asfixiantes e os horizontes sem perspectiva; que devêm malsãs quando não aportam sentido nem capacidade de admiração; que são destrutivas quando não geram crentes, mas que degeneram em fanáticos incapazes de dialogarem; que perdem interesse no mesmo instante em que abandonam o sentido crítico…

Encontramos um exemplo paradigmático deste novo espírito de concórdia nos encontros de oração pela paz de Assis: o primeiro teve lugar no 27 de Outubro de 1986 em protesto contra a guerra do Iraque; o segundo foi convocado para o 9-10 de Janeiro de 1993; o terceiro teve lugar no 24 de Janeiro de 2002, em reacção aos atentados do 11-S e culminou num Decálogo de Compromissos no qual as religiões optaram por condenar toda a forma de violência, por educar no respeito à diferença, por promover o diálogo e o perdão e por estar perto das pessoas necessitadas; já para acabar, para comemorar o 25º aniversário destes encontros, foi anunciada uma nova sessão para o próximo 27 de Outubro de 2011.

Através de iniciativas como esta pretende-se constatar que, no debate dos processos de construção da identidade, intervém poderosamente a percepção que temos dos outros. O nosso olhar sobre a realidade (invasivo ou atento, de recusa ou de aceitação) constrói os mapas mentais que determinam a nossa perspectiva: nós/eles, próximos/afastados, próprios/alheios, familiares/estranhos, amigos/inimigos…

Comprometermo-nos com o diálogo deveria ajudar a ver a realidade evitando as direcções etnocêntricas que conferem essência às diferenças e nos fazem perceber estas diferenças como ameaças. Talvez haja quem se negue irreflectidamente a conviver com os demais, mas não pode evitar coexistir com eles. As religiões não podem passar despercebidas entre si hoje, pretendendo ser invisíveis num mundo global no qual já não há canto algum onde se esconderem. Não se trata apenas de capacidade de abertura, mas de escuta respeitosa; não de simples tolerância, mas de capacidade de reconhecimento. Neste sentido, a diversidade cultural e religiosa não é mais do que uma releitura do clássico binómio Eu-Outros, um novo olhar sobra uma Identidade e uma Alteridade de perfis cada vez mais desfocado num mundo pós-moderno onde o medo ao Outro cedeu ao medo aos Semelhantes, e o Islão (enquanto religião abraâmica) se assemelha demasiado a nós…

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

24 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (II)

II. PLURALIDADE E INTRANSIGÊNCIA: O FUNDAMENTALISMO ENQUANTO TRANSTORNO

Uma das dimensões mais chamativas das proclamas de Bin Laden foi o recurso sistemático a expressões prototipicamente teológicas. Podemos evidenciar nesta análise até que ponto esta estratégia constituiu um abuso flagrante e provocou todo o tipo de reacções de protesto por parte dos sábios do Islão, ainda que não se devesse dar por suposto neste assunto todo a terminologia religiosa em mãos de políticos e jornalistas ocidentais. Tudo isto há-de ser um aviso sério: tanto cristãos como muçulmanos provimos duma história profundamente marcada pelas repetidas interferências entre o político e o religioso. A época actual não parece ser uma excepção, e urge estar em permanente alerta para evitar este perigo. Impõe-se também uma reacção pública de protesto mais enérgica e decidida se é que se quer evitar que as instâncias religiosas sejam tachadas de conivência com multidões violentas.

Certo é que o mundo actual se caracteriza por um progressivo processo de hiper-complexidade dos sistemas. Mas a complexidade constitui um grave problema para quem acredita que é mais fácil gerir coisas simples. Desta maneira, o fundamentalista esforça-se por reduzir artificialmente a complexidade à procura dum sentido que lhe permita afrontar a incerteza. Negação do pluralismo, consciência de minoria, criação dum inimigo, estruturação em volta do princípio do líder, construção duma verdade absoluta, recusa da ambiguidade e defesa do sentido totalitário da tradição… Eis os traços básicos do fundamentalista. Narcisismo preso no sentimento de omnipotência, vivência unilateral do absoluto à margem da historicidade, mal-estar perante os limites, incapacidade para os matizes e a crítica. O fundamentalista não estabelece verdadeiras relações interpessoais, porque só anda à procura de adeptos que se convertam aos seus próprios pontos de vista. É um apologista hipersensível, que só aceita aquilo que confirma a sua tese. No fanatismo não existe pensamento nem diálogo, senão tendência ao doutrinamento. Perdeu a iniciativa e, portanto, é simplesmente reaccionário. A simples existência doutros pontos de vista põe em questão as suas seguranças. O medo às mudanças provoca-lhe uma espécie de regressão ao mundo das seguranças ingénuas, pagando a portagem que fecha as portas que nos comunicam com o exterior. Vive num regime carcerário de isolamento, guiado pela repetição compulsiva e não pela flexibilidade criativa. Perante as perguntas acerca das questões fundamentais, os fundamentalistas têm resposta clara e contundente para tudo; perante umas instituições cada vez mais mudas, eles abusam de tagarelices; perante umas colectividades cada vez mais inexpressivas, eles oferecem um gueto defensivo…

Segue-se que o perfil psicológico do fundamentalista está claramente estabelecido: autoritarismo, adesão rígida a sistemas de valores, atitude submissa perante a autoridade, criação de estereótipos que lhe permitem suportar a ambiguidade, preocupação pelas dualidades, complacência na manipulação, predomínio da intolerância, desconfiança, legalismo implacável e hiper-sensibilidade, intenção proselitista e ausência de flexibilidade, medos persecutórios… Salta à vista que isto tudo é o sintoma da incapacidade para estabelecer uma interacção criativa entre continuidade e mudança, persistência e transformação, vinculação e liberdade. O fundamentalismo é o fracasso sintomático da memória: quer-se viver só de recordações selectivas, sobreviver no meio de esquecimentos e pedaços que não permitem recompor o contexto com fidelidade. Em definitiva, o fundamentalista substitui a fé pela fiabilidade, a experiência religiosa pelo experimento espiritual.

Vivemos uns tempos críticos, que podem ser ao mesmo tempo atractivos e desconcertantes. Sabemos que para nos localizarmos precisamos de orientação, isto é, de sentido; que para definir e classificar há que estabelecer limites. Se não estabelecermos um limite, que sentido tem considerar a Transcendência como um dos elementos determinantes da irrupção da experiência espiritual?; sem um horizonte de compreensão, que sentido tem qualificar a experiência religiosa pela sua capacidade de suscitar auto-transcendência?; sem uma fronteira que desenhe as possibilidades da vivência, como poderíamos apresentar a violência exercida em nome da religião como uma extra-limitação? Sem esta dinâmica entre o interior e o exterior, a religião fica impossibilitada do êxodo que permite explorar novos contextos libertadores, e perde a metáfora do itinerário para simbolizar o nosso permanente estádio de aprendizagem espiritual.

Sabemos também, graças à Fenomenologia, que o sagrado, enquanto âmbito onde se inscrevem os fenómenos religiosos, está constitutivamente caracterizado pela tensão entre o “tremendum” e o “fascinans”, o temor e a confiança. E as ciências da religião têm-nos ensinado que o limite que separa o sagrado do profano, o puro do impuro, se designa tecnicamente com a palavra “santo”. Portanto, o santo encontra-se na periferia do sagrado para o isolar de todo o contacto comprometedor. Devemos considerar, pois, que a irrupção da denominada violência sagrada tem lugar quando se debilita a santidade como factor protector da sacralidade. E é que a religiosidade autêntica casa mal com a perda de consciência da santidade da vida…

Quando se esbate a dimensão santa e sagrada da realidade, dilui-se também a fronteira que separa a ordem da desordem religiosa. Então, o desejo espiritual deixa de ser a motivação e o estímulo para a descoberta da Transcendência e da Alteridade, e degenera num afã por implementar uma violência supostamente reparadora. É a violência gerada pela incapacidade de gerir adequadamente a sensação de vácuo ou, se se preferir, a impossibilidade da plenitude na nossa dimensão temporal. Por isso, as denominadas formas duras da religião são o sintoma dum défice de sentido ou da presença dum sucedâneo de sentido. A violência em nome da religião costuma provir duma sobre-expectativa de sentido que a realidade não pode satisfazer de modo nenhum. Por isso, o fundamentalista idolatra as próprias crenças e, em realidade, profana-as. Sob a aparência de apresentar a verdade como algo evidente, em realidade mascara-a. O fundamentalista é um iluminado que deslumbra os outros. É alguém que confundiu as prioridades e perdeu de vista que as pessoas são a única coisa importante.

É neste contexto onde a religiosidade vivida com autenticidade e esperança é um potente antídoto contra o fanatismo. A sabedoria espiritual ajuda a entender a experiência religiosa como terapia, isto é, como cura-salvação da realidade. As religiões ensinam que a atitude devida não deve ser nem a conformidade nem a rebelião, mas a esperança. Dito doutra maneira, que a incerteza nos submete à desolação e que, precisamente por isso, necessitamos apelar à consolação. Entre tanta violência destrutiva exercida em nome da religião, sempre está ao alcance da mão a religiosidade compreendida enquanto cura. Consolo em vez de luta, reconciliação em vez de divisão.

Todos os mestres espirituais da humanidade sofreram nas suas próprias carnes as iras dos que pretendiam falar em exclusivo em nome de Deus. Eles souberam confrontá-los, e a sua mensagem continua a ser actual contra qualquer pretensão dogmática: o que nos salva é o perdão, a compaixão e a gratuidade. O conhecimento de Deus passa indefectivelmente pelo reconhecimento da alteridade. A nossa atitude perante o próximo estabelecerá o critério de autenticidade da nossa fé. A nossa linguagem não deve ser a da captação, mas a da conversão. As nossas comunidades não devem falar tanto em certezas quanto em testemunhos. Não é questão de excluir os que vêem o mundo doutra maneira, mas de os integrar. Não é para nos instalarmos no centro desde o qual tudo se valoriza, mas de viajar até às margens para encontrarmos ali a renovação. Perante a desmemória dos fundamentos, devemos propugnar a capacidade de perseverar na memória dos outros. O futuro da humanidade e a credibilidade das religiões passa indefectivelmente por adoptar a atitude de quem se sabe em permanente peregrinação, sempre em caminhos rodeados de ambiguidade.

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.