29 de dezembro de 2011

Muçulmanos moderados garantem Natal em Java


Indonésia
29-12-2011


Dezenas de voluntários montaram guarda à casa onde os cristãos se reuniram para celebrar o Natal, impedindo fundamentalistas de atacar a comunidade.
A comunidade cristã de Java Ocidental, na Indonésia, conseguiu celebrar o Natal em paz graças à intervenção de dezenas de voluntários da ala juvenil de uma organização islâmica moderada, conhecidos como Banser.

Os Banser montaram guarda à casa de um dos cristãos, onde a comunidade se deslocou para celebrar o Natal, uma vez que a polícia local lhes tinha impedido o acesso à Igreja. Um grupo de quarenta radicais pediu que os Banser saíssem, mas estes mantiveram-se firmes, garantindo que tinham mais mil voluntários prontos a acudir, caso a situação se tornasse violenta.

“Estamos aqui para impedir que quaisquer distúrbios inesperados incomodem as cerimónias de que quer que seja”, afirmou Rome, um dos líderes dos Banser, em declarações à agência AsiaNews.

A comunidade cristã agradeceu a ajuda dos muçulmanos moderados, mas indicou que vai apresentar queixa pelo facto de as autoridades locais terem interferido, visando impedir que passassem o Natal na Igreja.

A acção da polícia seguiu-se às declarações públicas do presidente da Câmara, que se opôs à construção de uma nova igreja para os cristãos.

Os cristãos são minoria na Indonésia, o país com maior número de muçulmanos do mundo. Em algumas ilhas, existem maiorias cristãs, mas, em muitos dos locais onde são minoria queixam-se de perseguições e actos de violência, levados a cabo por muçulmanos mais intolerantes.

A Indonésia conta ainda com algumas comunidades budistas e hindus.

Prova-se assim que, ao contrário do que ideologicamente e sem se preocuparem com os factos, afirmam Dawkins e Harris, os religiosos moderados não são responsáveis pela violência dos extremistas. É exactamente o contrário que se passa.

23 de dezembro de 2011

Natal com os refugiados

Irmã Irene Guia, Escrava do Sagrado Coração de Jesus

Durante quatro anos, de novembro de 2006 a outubro de 2010, fui voluntária do JRS (Serviço Jesuíta aos Refugiados). Passei-os nos campos de refugiados no Ruanda e de deslocados internos à força na República Democrática do Congo.

Fui desafiada pela Ecclesia a contar como é que se vive o Natal em sítios como estes, onde se respira permanentemente um enorme e denso “advento”, onde se vive uma enorme e densa espera… onde se equilibra o desespero com a certeza do regresso a casa; onde se antevê a própria terra, que agora parece unicamente ser prometida, com a certeza de que Deus é fiel e não abandona o seu povo em terra estrangeira.

Durante esses quatro anos não faltei a um único Natal no campo. Eles eram, e ainda são, a minha Comunidade de referência.

Não é fácil falar do Natal quando o contraste é tão grande com o nosso. Não é fácil. Não é fácil porque o Natal num campo de refugiados é tão austero e tão extremamente pobre que a única coisa que realmente acontece é, de facto, o nascimento do Deus Menino, o Emmanuel, o Deus-connosco!

Não há iluminações porque não há eletricidade. Há apenas a Luz que veio habitar entre nós e que, guiados pela potente estrela da fé, nos faz sair do pequeno abrigo, na escuridão da noite e da própria vida, até ao presépio para adorar Aquele que quis ter a sua tenda do meio das nossas! Pode haver alguém que entenda melhor as razões pelas quais o Deus Menino quis nascer em extrema pobreza e habitar numa tenda, que nasceu numa gruta por não encontrar lugar na hospedaria, do que aqueles que, tal como Ele, vivem em pobreza e habitam em tendas porque não têm lugar no seu próprio país, na sua própria terra? De facto, a única coisa que realmente acontece no Natal dos campos de refugiados é o nascimento do Deus Menino, o Deus-connosco!

Não há rabanadas, nem peru, nem bacalhau, nem vinho nem azevinho. Nalgumas tendas haverá batata cozida, um verdadeiro manjar de festa, para quem conseguiu trocar, por estas, parte da farinha de milho que, há anos sem fim, é o prato do dia a dia que se recebe mensalmente do Programa Alimentar Mundial. Pode haver alguém que entenda melhor o que experimentaram os pobres pastores, que viviam fora das cidades, ao serem os primeiros a dar “as boas vindas a este mundo” ao Salvador do que aqueles que de mãos vazias e coração ardente adoram o Menino na grande tenda do Campo onde se celebra a missa do galo?

Pode haver alguém que se alegre mais com os anjos que cantaram naquela noite “Glória a Deus no Céu e Paz na terra aos homens por Ele amados” do que aqueles que depois da missa ficarão horas a dançar com o coração repleto de alegria porque nasceu novamente o Menino, o Príncipe da Paz que fortalece a esperança que lhes permitirá voltar a casa?

Pode haver Alguém que entenda melhor o que é ser refugiado do que Aquele que também o foi? “O anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.» E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito, permanecendo ali até à morte de Herodes” Mt.2,13-15

No Natal num Campo de Refugiados de facto não acontece nada. Unicamente nasce o Salvador ardentemente esperado!

Irene Guia,aci (in agência ecclesia)

22 de dezembro de 2011

nascer

Manila, Filipinas. Mais de duas mil famílias vivem
sobre os mortos no cemitério de Navotas.

Above and Below from Stefan Werc on Vimeo.


quem brinca calmamente nos seus lagos? quem se estica para ver a vida? quem ousa olhar as mortes que o rodeiam e encontra descanso sobre elas?

ver. estar. viver. morar na vida; na minha infância, na minha adultez... brincar, jogar... e vêr as cores todas, as faces todas. e saltar de campa em campa. não as evitando, chorando-as como o que são: lugar onde a morte cessa.

a vida está em mim. um lar abençoado, onde me sento no chão, no meio da confusão e olho... e vejo... que há luz na solidão, que há vida em torno da morte. a vida está em mim.

Ele nascer é encarnar toda a vida.

21 de dezembro de 2011

.Natal como convite.

Dezembro. O Natal chega neste tempo, um tempo que pede recolhimento, que pede calor do lar, que pede silêncio e contenção.
Este ano, para nós portugueses, para nós europeus, o Natal apanha-nos no coração de uma grande crise. Uma crise não só económica e financeira, mas também social. Uma crise, em parte fruto de uma alteração de valores que, subterraneamente, nos foi minando por dentro e ganhando expressão nas várias dimensões da vida.
O que é que este Natal nos pode dizer sobre esta crise? Como sabemos, o espírito de Natal tem sido, nos últimos tempos, subvertido a esta época aproveitada para se fazer consumo desenfreado, pondo a tónica mais no embrulho do que no conteúdo.
Este ano, o convite deste Natal pode e deve ser um apelo ao regresso do verdadeiro espírito natalício. Um apelo a um tempo em que, apesar da crise e também porque estamos em crise, possamos pensar e reinventar novas maneiras de nos presentearmos, de nos mimarmos, de dizermos uns aos outros quanto nos amamos e somos importantes na vida uns dos outros.
Este Natal apela-nos a compras pensadas em função das necessidades e não de vaidades. Neste Natal, podemos e devemos não pôr a tónica no papel e nos laços, nos grandes embrulhos, contendo, tantas vezes, coisas sem utilidade, expressão de uma cultura de aparências disfarçada de beleza que esvazia o planeta de recursos e cria lixos desnecessários e difíceis de reciclar.
Este Natal, em época de crise, também nos convida -aos que ainda temos a sorte de ter emprego e salário- a uma reflexão conscienciosa de como gerir o nosso orçamento para que ele seja fonte de vida. E podemos canalizar de tantas maneiras um pouco do que nos sobra, inclusive, um pouco do nosso tempo, mesmo que isso implique sacrifícios.
Este Natal convida-nos a ter os pés bem assentes no chão e a estarmos bem conscientes das dificuldades que vivemos e a discernirmos o que é que cada um de nós pode fazer para ultrapassar. Par isso, precisamos de ajuda. Precisamos da Luz do Menino para não nos deixarmos influenciar pela poeira do tempo. Para isso, precisamos, além do discernimento, ter a convicção de quão importante é o empenhamento de cada um de nós, na gestão criativa e solidária das dificuldades que atravessamos.
E para aqueles que sofrem na carne os efeitos desta crise, este Natal traz a Esperança de um novo amanhecer, Esperança essa que carrega a força e a criatividade que permitem criar soluções que conduzam a um viver digno para todos.
Nesta época de advento, preparemo-nos pois para nos despirmos de velhas roupagens que nos impedem de ver claro e nos amarram a condutas egoístas e clubistas e saibamos criar espaço interior para que o Menino nasça em cada um de nós e, com a sua Luz, fazermos juntos deste Natal uma sinfonia de mudanças, de coragem, de audácia, de esperança, de solidariedade, de compaixão e alegria. Porque seguir a Luz é sempre fonte de alegria mesmo que naveguemos num mar de dificuldades. Os Céus escutar-nos-ão e juntar-se-ão a essa nossa sinfonia e engrandecê-la-ão com seus coros celestiais tecidos de amor e graça.

Adelaide Alves, in "Diário do Minho".

18 de dezembro de 2011

DOMINGO IV do ADVENTO | O anúncio que ordena na espera.



Procuramos incansavelmente O Senhor. Procuramos procurar O Senhor. E de tal forma O queremos procurar que damos ordens ao coração para que O encontre. Damo-nos ordens para O poder encontrar.
Mas ordenamo-nos? Deixamo-nos ordenar? Ouvimos o anúncio que nos ordena? Ou a nossa surdez apenas nos deixa ouvir ordens?

… e Natã disse a Davi: “Vai e faz o que o teu coração diz, porque o Senhor está contigo.” …
[2 Sam 7, 3]

… e o Anjo disse a Maria: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”
… e Maria, porém, disse ao Anjo “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?”
… e o Anjo lhe respondeu: “O Espírito Santo virá sobre ti […]”
… disse então Maria: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra!”…
[Lc 1 28.34-35.38]

esperar



Leituras do  DOMINGO IV do ADVENTO:
2 Sam 7, 1-5.8b-12.14a.16
Salmo 88 (89) 2-3.4-5.27 e 29 (R. cf. 2a)
Rom 16, 25-27
Lc 1, 26-38
Imagem:
A Virgem da Anunciação, de Antonello da Messina

8 de dezembro de 2011

.Quando és interrogação.

Perguntas espreitam. Sobre o nosso mundo, acerca da vida, entorno à minha fé. Por isso duvido. Duvido e sofro. Factos inquietantes, palavras intrigantes, gentes desonrosas.

Mas tenho medo de me perguntar mas, mais ainda, de tu responderes.

Mas por que, se muitas vezes me basta com formular essa pergunta para achar tranquilidade ao partilhar a inquietação com quem me escutar?

E se me descobrir vulnerável e ignorante perante certo interrogante, não será que a resposta encontrada me aproxima realmente à verdadeira experiência?

Como não evitar uma questão, se está a incomodar-me e a confundir-me, me desordena e me faz fraquejar?

Mas, como não encará-la acertadamente, se isto aumenta conhecimento, confiança e sonho, em mim mesmo e em Deus?

Como é covarde o preferir estagnar-se nuns saberes incompletos podendo optar por alcançar a plenitude do mais divino!

Mas por vezes, tudo são perguntas que me asfixiam. Só importa então agarrar-se às poucas convicções que ficam. A certeza de Deus e a segurança de que Ele é que responde.

E pergunto-me eu, por que é que me não pergunto mais?

E pergunto-Te eu, por que é que gostas tanto de nós?

(Álber Fernández, sj, in “Silencios guiados”, Valladolid: 2008)

3 de dezembro de 2011

O vento do deserto não interessa a ninguém.

Haverá vento sempre.

O fiel companheiro dos nómadas que passam, vai para onde não se vê.

No meio da cidade sopra o vento do deserto.

É o vento do mundo, mudo, que rasga os cantos duros e indiferentes do betão armado.


O ruído é demasiado.

Contudo ninguém fala. Ninguém clama.

Pessoas sem ouvidos andam como cegos, para o amanhã igual a hoje.

Um dia morrerei e ninguém saberá que vivi.

Um dia não ouvirei o profeta que me chama no deserto da minha cidade.

Serei pó no meio de pó.

Com o caminho ali tão perto.