22 de janeiro de 2012

"Completou-se o tempo..."

E se o mundo terminasse esta noite?

Haveria maridos que entrassem no tasco da esquina, mais uma tarde, com a triste intenção de sair com menos moedas no bolso e mais álcool no corpo. Haveria netos que voltassem a adiar para a próxima semana a visita à sua avó, acamada com cancro durante meses. Haveria adeptos de futebol prontos a ficarem roucos mais um jogo, animando desde as bancadas. Haveria mães sequestradas pelo traje de Carnaval que os filhos vestiriam na escola. Haveria universitários sepultados sob montes de apontamentos e livros que, mais do que conhecimento, trazem stress. Haveria empresários que continuassem a ler atentamente a secção de economia à procura do investimento mais rentável em Bolsa. Haveria cozinheiros que descascassem batatas e cenouras para a sopa de depois, como cada manhã. Haveria motoristas que se sentassem na cadeira da viatura com a resignação de percorrer inúmeras vezes o mesmo trajecto. Haveria presos que traçariam mais uma risca na interminável lista dos dias que faltam para se libertarem da cadeia.

"Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho". Há anúncios que conseguem ser taxativos. Há imperativos que convidam ao sossego (de espírito, que não de acção).
As palavras de Jesus não soam a ameaça. Também não vendem um remédio de última hora. São palavras que supõem, porém, um impulso de vida, uma vida com sabor a promessa.
A pessoa é dinamizada para um olhar diferente sobre a sua própria existência. Os dias tornam-se únicos ao lhes acrescentar uma pitada de Evangelho à sua rotina. Nunca desprezáveis, mas semeados de horizonte.

Assim, é possível que o marido se disponha a encontrar solução para a sua adição, e que o neto se faça saúde para o doente com a sua presença, e que o adepto desfrute das suas paixões sem exageros, e que a mãe não se disfarce de escrava doméstica, e que os conhecimentos formem à pessoa mais do que ensinam ao aluno, e que o empresário não seja cego às pobrezas (próprias e alheias), e que os cozinheiros agradeçam poder alimentar, e que o motorista trabalhe satisfeito por ser causa de deslocação de centenas de cidadãos, e que os preso saiba confiar no (cada vez mais iminente) dia de liberdade.



Não. Felizmente, o mundo não terminará esta noite...
Ainda por cima, a inauguração do Reino de Deus não está marcada para essa tal "última noite".
Há tempo que aconteceu. Aliás, participamos já dele.
Assim, intui-se uma continuidade neste convite de Jesus.
Como não aceitar?

2 comentários:

Anónimo disse...

É pena que este "mundo",ie, "esta cultura" não termine esta noite.

No tempo de Caligula, terminou o império romano para dar lugar ao império clerical.

Como era bom que este mundo terminasse esta noite e amanhã a cultura fosse de liberdade financeira, e não de esmolas para pobres.

Como era bom que este mundo terminasse esta noite e amanhã a cultura fosse de fraternidade e não de extorção pelo maior lucro.

Como era bom que este mundo terminasse esta noite e amanhã a cultura fosse de igualdade e não de alguns mascarados com vestimentas que lembram o império romano e outros de joelhos...

Cisfranco disse...

O convite dEle é discreto e suave. E encontra-se bem no íntimo de cada um, se souber bem ouvir e ver.