10 de janeiro de 2012

Hawking e Deus


Stephen Hawking completou há poucos dias 70 anos, o que motivou a realização de um colóquio comemorativo na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Trata-se do maior físico da actualidade, conhecido em todo o mundo. Os seus livros vendem-se aos milhões.

Em recente entrevista ao jornal britânico The Guardian, Hawking afirmou que não acredita numa qualquer forma de existência depois da morte. Baseia esta afirmação em duas opiniões. A primeira é a de que todos os que acreditam numa vida depois da morte têm medo de morrer, o que não se passa com ele, ateu confesso. A segunda opinião é a de que o cérebro funciona como um computador, e nenhum computador funciona depois de destruído.

Nenhuma destas opiniões tem suficiente fundamento.

Em primeiro lugar, o mais provável é que entre as pessoas que têm medo da morte haja crentes e não crentes, o mesmo se aplicando às pessoas que não têm medo da morte. Hawking não explicou como sabe que todos os crentes têm medo da morte. Acresce ainda que segundo o filósofo Martin Heidegger o ser humano é essencialmente um ‘ser para a morte’ e isto é uma caraterística fundamental da existência humana. Quem evita esta questão só pode viver uma ‘existência inautêntica’. Neste autor a questão é de natureza filosófica, não religiosa.

Em segundo lugar, Hawking parte do pressuposto de que numa existência depois da morte o conhecimento e as relações interpessoais só serão possíveis através de cérebros. Hawking não explicou como sabe que não há qualquer outro modo de conhecer e comunicar. Acresce ainda que a ideia de que o cérebro funciona como um computador é questionada por autores como John Searle, ateu confesso.

9 comentários:

L disse...

Caro Alfredo Dinis,

A sua última observação

"...Hawking parte do pressuposto de que numa existência depois da morte o conhecimento e as relações interpessoais só serão possíveis através de cérebros. Hawking não explicou como sabe que não há qualquer outro modo de conhecer e comunicar."

Leva-me a perguntar se conhece outro meio de conhecimento e comunicação que não envolva o cérebro

alfredo dinis disse...

Caro L,
O conhecimento é essencialmente informação. Hoje conhecemos muitos meios de armazenar e activar informação diferentes do cérebro. A informação, em si mesma, não tem uma natureza física. E o download de conteúdos mentais noutro género de suportes tem sido considerado algo que está para breve. A criação de máquinas inteligentes e com sensibilidade, e talvez mesmo com consciência, não é considerada impossível, pelo menos em teoria. É verdade que só conhecemos suportes físicos da informação, mas não é contraditório conceber suportes não físicos.

É evidente que se há uns séculos alguém falasse na possibilidade de 'sobrevivência' depois da morte através do vídeo, e disséssemos a alguém que depois da morte da sua morte poderíamos continuar a vê-la e ouvi-la através de um qualquer instrumento, abanariam a cabeça.

Muitas concepções teóricas parecem durante algum tempo pura ficção. É o que acontece com a sobrevivência depois da morte. O facto de não sabermos como isso se realizará não nos impede de o pensar teoricamente.

Saudações,

Alfredo Dinis,sj

L disse...

Caro Alfredo Dinis,

Fala do armazenamento de informação - o que não se traduz em conhecimento automático. Posso ter um disco rígido ali guardado, mas isso não significa que conheço, apenas que tenho a informação disponível.

É provável que num futuro próximo seja construído um computador que faça todas as funções de um cérebro. E aí deixaremos de falar de morte física para falar de imortalidade virtual.

Continuo sem saber é como traduzimos a informação em conhecimento sem recorrer a um cérebro vivo, a menos que o Alfredo Dinis esteja a falar unicamente de comunicação entre máquinas, então não faz sentido falar em relações interpessoais após a morte. Isso só acontece nos livros de fantasia e ficção paranormal...

Ludwig Krippahl disse...

Caro Alfredo,

Este teu post, descuidado, é tão pouco característico do que escreves que gostaria de te pedir alguns esclarecimentos antes de escrever sobre isto.

Primeiro, a sensação que dá é de que o teu argumento principal é uma falácia de apelo à ignorância: não se justifica crer que a vida acaba com a morte corporal porque, sabe-se lá, talvez haja vida depois. Como certamente sabes que este argumento é inadequado, gostaria que elaborasses um pouco este ponto.

Em segundo lugar, toda a crítica que fazes à posição de Hawkins aplica-se igualmente bem à posição contrária, que tu defendes. Nem toda a gente acredita, e também não sabes que a vida não acaba mesmo com a morte do cérebro. Por isso queria perguntar-te se estás também a querer dizer que a posição de quem acredita na vida depois da morte é igualmente infundada.

Finalmente, gostaria de saber porque é que consideras que casos como, por exemplo, a doença de Alzheimer, não contam como evidência a favor da posição de Hawkins. A mim parece-me evidência bastante forte de que a vida acaba com a morte do corpo vermos pessoas a perder inexoravelmente tudo o que as torna as pessoas que são conforme o cérebro se degrada. As capacidades cognitivas e emotivas, a capacidade de se relacionar com os outros, a memória e até a vontade. Não me parece plausível que uma pessoa que, durante anos, gradualmente vá perdendo tudo o que era, subitamente o recupere assim que o corpo morre. Tens alguma sugestão para o mecanismo que permita tal coisa? É que encolher os ombros e dizer que talvez ocorra um milagre será, novamente, uma falácia de apelo à ignorância...

alfredo dinis disse...

Caro L,
O meu texto situa-se ao nível da hipótese e não da prova. Se isto é uma fantasia, o L deve ter as suas provas. Ou está também ao nível da hipótese?
Saudações,

Alfredo Dinis,sj

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

É sempre estimulante ler as tuas críticas. Obrigado.
Comete a falácia ad ignorantiam quem a firma o seguinte: Se não se consegue provar que p é falso, segue-se que p é verdadeiro. Não é esta a minha posição no que se refere às declarações de Hawking sobre a imortalidade. Em primeiro lugar, porque a minha crença na imortalidade não se baseia na impossibilidade de Hawking não demonstrar que esta crença é falsa, mas sim na afirmação de Cristo, que considero verdadeira. Em segundo lugar, porque me limitei a afirmar que Hawking não explicou em que baseia a sua afirmação sobre a inexistência de vida depois da morte, o que é um facto.

Acresce ainda que Hawking foi entrevistado na sua qualidade de cientista, e que por isso transmite a ideia de que ‘sabe’ que não há vida depois da morte com base na ciência. Ora isso não é possível, como afirma o agnóstico Michael Ruse:

“the question is whether someone who accepts modern science has any good reason to reject it purely on the grounds of science. Of course, the scientist might well want to deny the possibility of life after death, whether as a disembodied mind or as a resurrected body. The question is whether one can do this on the grounds of science. If the claim were being made that, say, somewhere elsewhere in the universe we shall find Saint Paul and Julius Caesar and Napoleon and Charles Darwin – as minds alone or with bodies also – then, as a scientist, one might be skeptical. But this is not the claim. It is rather that there is another dimension of existence where resurrected bodies exist – or minds, if that is all. It is the place of the spiritual body. As such, I doubt that science can lay a finger on the idea. The scientist may not much care for the religious claims – the philosopher Bernard Williams (1973) once wrote an article on “the tedium of immortality” – but he or she is not able to reject them on the grounds that they go against scientific understanding.”
(Science and Spirituality, Cambridge Univ. Press, 2010, p. 228).

Pretendi dizer que a dificuldade em aceitar a hipótese de uma vida depois da morte está apenas na dificuldade em aceitar uma forma de existência que seja não física. Mas porque não há-de haver uma tal forma de existência, diferente daquela que conhecemos? Será esta uma hipótese contraditória com tudo o que sabemos? Não vejo. Não estou aqui a falar ao nível de prova mas da legitimidade, isto é, do carácter não contraditório, de uma hipótese.

Por outro lado, o exemplo que dás da deterioração do cérebro de um doente com Alzheimer como indício ou prova de que a pessoa desaparece com a desintegração do cérebro pressupõe que a vida depois da morte é a vida biológica que temos agora. Mas isto, creio, ninguém o afirma. Além disso, para os cristãos a vida depois da morte é pensada como uma existência de relações interpessoais que fazem a pessoa ser quem é, e que se torna possível pelas relações interpessoais que se estabelecem entre as pessoas e Deus. Para usar o conceito informático de ‘rede’, digamos que na concepção cristã o ser humano após a morte entra numa rede de relações fora da qual não existe, tal como os pontos de qualquer rede não existem fora da rede. Numa tal existência não necessita de um cérebro porque o conhecimento e as relações interpessoais não se baseiam nas relações neuronais entre o cérebro e o mundo físico exterior.

Mais uma vez, não estou a fazer um apelo ad ignorantiam. Não estou ao nível da prova mas da hipótese.

Um abraço,

Alfredo

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,
Se não for possível “o conhecimento e as relações interpessoais” sem um cérebro funcional, então temos de concluir não há vida depois da morte. Por modus tollens, se tu rejeitas o consequente, tens de negar o antecedente e considerar possível “o conhecimento e as relações interpessoais” sem um cérebro funcional. No teu argumento, a proposição de que é possível o conhecimento e as relações interpessoais sem um cérebro funcional assenta apenas na alegação de que não está provado que “numa existência depois da morte o conhecimento e as relações interpessoais só serão possíveis através de cérebros”. Esta inferência, da forma “não se provou ~P logo P”, é uma falácia de apelo à ignorância.

A forma correcta de abordar esta questão, e outras em geral, é considerar a plausibilidade relativa das alternativas. Ao contrário do que tu alegas, eu não pressuponho “que a vida depois da morte é a vida biológica que temos agora”. Apenas considero a questão de ser ou não ser possível haver “o conhecimento e as relações interpessoais” sem um cérebro funcional. E, para responder esta questão, é importante considerar que temos imensos exemplos de perda dessas capacidades por danos no cérebro – alguns, como a doença de Alzheimer, com percursos fatalmente previsíveis – mas nenhum exemplo confirmável em que a perda total do cérebro não foi acompanhada da perda total da capacidade para “o conhecimento e as relações interpessoais”. Mesmo que estejas ao nível da hipótese, devias admitir que as evidências que temos suportam muitíssimo melhor a hipótese de não restar qualquer capacidade para “conhecimento e as relações interpessoais” depois da morte cerebral.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Fico contente que tenhas tomado a sério a minha afirmação de que a minha argumentação está ao nível das hipóteses e não das teses ou das provas. Hawking não disse isso, as suas afirmações, como as de Newton, não são meras hipóteses.

Devo porém reafirmar que a minha hipótese não está dependente de não ser ou não demonstrável a tese de que só é possível consciência e comunicação em cérebros e através de cérebros. Tal como a hipótese de haver vou não vida inteligente em outros planetas não está baseada nem no facto de algumas pessoas terem relatado que tiveram encontros com seres de outros planetas nem com o facto de a ciência não ter até agora detectado qualquer sinal da existência desses seres. Naturalmente que consideras esta hipótese interessante e digna de ser levada a sério porque é empiricamente falsificável. Considero que a hipótese de vida depois da morte também é falsificável, embora não empiricamente. No caso de não haver vida depois da morte, essa hipótese só é 'objectivamente' falsa, uma vez que hão haverá ninguém que, após a morte, conclua que não continua a viver. Ela será porém verificável por quem continuar a viver!

No que se refere ao que a evidência sugere, a história (da filosofia, da ciência, da economia, da política...) está cheia de episódios sobre o que as evidências pareciam sugerir e o que se veio a verificar que de facto não sugeriam. E o que parecia ser muito pouco evidente veio a ser reconhecido como sendo a realidade. Basta escolher entre os muitos exemplos. Por alguma razão os génios são muitíssimas vezes incompreendidos pelos seus contemporâneos.
Quem sugere somos nós, não as evidências.

Saudações,

Alfredo

João Machado disse...

Caros comentadores:

Há aqui a questão da fé que ninguém refere. Hawking é ateu não acredita. Os Jesuitas acreditam. conseguir provar que há vida além da morte é impossivel. Embora o debate seja estimulante no plano retórico por vezes perdemo-nos em considerandos paralelos que nada tem a ver com a questão fulcral.

Saudações

João Machado