20 de fevereiro de 2012

Debate com Dawkins



1. No próximo dia 23 terá lugar na Universidade de Oxford um debate entre Richard Dawkins, e Rown Williams (Arcebispo Anglicano de Canterbury) moderado por Anthony Kenny. Embora o debate tenha lugar numa ampla sala (Sheldonian Theater) e seja transmitido por vídeo para uma outra sala no Departamento de Física da Universidade, os lugares – pagos, no Sheldonian Theatre - foram todos reservados em questão de horas após o anúncio do debate. O mesmo aconteceu com os lugares disponíveis no Departamento de Física. O debate, promovido pela Faculdade de Teologia, sobre o tema “A natureza dos seres humanos e a questão da sua origem última” pode ser seguido em directo (16.00h-17.30h) pela internet no site http://fsmevents.com/sophiaeuropa, no qual ficará também arquivado o respectivo vídeo. Para seguir a transmissão em directo é necessário dispor do programa Adobe Flash Player. A página indicada permite realizar um teste para certificar que o programa está instalado no computador e, caso não esteja, fazer o download.

2. Richard Dawkins continua muito envolvido na sua missão de espalhar a ‘boa nova’ de que Deus não existe e a religião deveria estar fora da vida pública, uma tese muito comum aos não crentes e actualmente em debate público em Inglaterra nos últimos dias, de tal modo que até mesmo a Rainha, tradicionalmente silenciosa, veio a público defender a presença da Igreja Anglicana na sociedade Inglesa. No passado Domingo, o Jornal Britânico The Observer publicou um conjunto de cartas trocadas entre Dawkins e o jornalista William Hutton sobre esta questão. As cartas podem ser lidas no site do jornal. Dawkins apoia-se em sondagens que mostram o declíneo do número de ingleses que se declaram cristãos. Também por esta razão ele defende que a religião deveria ser mantida na esfera privada – até mesmo íntima. A religião, no caso o Cristianismo, deve, segundo ele, permanecer no silêncio e no segredo do íntimo de cada um. Não deixa de ser surpreendente que seja um não crente a dizer aos crentes de que modo devem viver a sua dimensão religiosa. Por outro lado, a vertente social, comunitária, da religião em geral e do Cristianismo em particular, constitui um elemento fundamental da sua atureza. Deste modo, a posição de Dawkins tem a ver não apenas com a questão do lugar do Cristianismo na sociedade mas com a questão da própria natureza da experiência Cristã.

3. Dawkins surge como ‘um homem com uma missão’: divulgar a ‘boa nova’ da não existência de Deus e da natureza privada da religião. Objectivamente, ele assume atitudes que critica nos Cristãos: a sua palavra é indiscutível, infalível. Que eu saiba, nunca admitiu que em alguma coisa se tenha enganado, ou que as suas posições possam ser postas em dúvida. Os seus argumentos são para ele inatacáveis e quem os não aceita revela falta de inteligência e de objectividade. As muitas obras de análise crítica das suas obras não lhe merecem mais que um sorriso de desdém. É pena que assim seja. Como tenho defendido repetidamente, o Cristianismo só tem a ganhar com críticas objectivas, venham elas de onde vierem, também de ateus. Mas as críticas de Dawkins, como as dos ateus em geral, enfermam de muitas das falácias que constam de qualquer manual de teoria da argumentação.

P. Alfredo Dinis,sj

7 comentários:

Joao disse...

Caro Prof. Alfredo Dinis,

Fiz aqui uma crítica a este seu post que muito me desaponta pela falta de vontade que parece mostrar em discutir o que foi dito e não que quer convencer os outros que foi dito. Com todo o respeito, é abusivo.

Cumprimentos,

http://cronicadaciencia.blogspot.com/2012/02/tendo-lido-as-cartas-trocadas-entre.html

alfredo dinis disse...

Caro João,

1. Obrigado pelo seu comentário critico.

2. Ao contrário do que parece pensar, o meu post não tem a ver apenas com as cartas trocadas entre Dawkins e o jornalista mas sim com as posições que este autor tem manifestado nos seus livros e nos muitos debates em que tem participado.

3. Afirma Dawkins numa das cartas: “Secularism is categorically not saying that the religious may not speak out publicly or have a say in public life. It is about saying that religion alone should not confer a privileged say in public life, or greater influence on it.”
Ora, Dawkins sabe perfeitamente que a sociedade inglesa em muitos aspectos tem-se afastado das posições da Igreja Anglicana, por exemplo em questões éticas. Neste campo, a mesma Igreja não tem tido qualquer influência em muita da legislação produzida. Por outro lado, Dawkins ele parece ignorar que esta Igreja tem sido desde há décadas uma voz pública crítica em relação à actuação política do Governo inglês. No tempo de Margaret Tatcher a Igreja Anglicana publicou um relatório sobre a situação económica e social do país, denunciando as muitas injustiças existentes. O responsável por este relatório, um padre anglicano, foi pouco depois impedido de ser bispo por oposição de Tatcher. Estará Dawkins de acordo com esra atitude de Tatcher?

4. Afirma o João: “Não é nada surpreendente que o que se faz e o que se diz deva ser discutido em relação ao que é e não em relação à suposta origem religiosa.” Não é nada surpreendente, de facto. Quem diz que é?

5. O sorriso de desdém de Dawkins tem a ver naturalmente apenas com as críticas que discordam das suas posições. No que se refere às ‘evidências’ muito haveria a dizer, mas não é esta a ocasião. Mas “rejeitar como conhecimento ou como pressupostos válidos aquelas coisas que não tenham uma justificação que as distinga da infinidade de coisas que nos possam passar pela cabeça. Não há uma fundação cognitiva numa fé” como afirma o João é de um grande simplismo.

6. A argumentação falaciosa a que Dawkins e os ateus em geral recorrem repetidamente tem a ver, por exemplo, com a generalização indevida. Justificam a generalizada falta de inteligência dos crentes com o exemplo dos criacionistas americanos, dos bombistas islâmicos, etc., generalizando depois a todos os cristãos e a todos os crentes. O mesmo no que se refere às injustiças da Inquisição. Com esta argumentação eu poderia pretender justificar a inconveniência do sistema político democrático com base em exemplos de atrocidades que se cometeram e cometem em nome da democracia. Mas isso teria um valor argumentativo nulo, como acontece com semelhante argumentação de Dawkins, Hitchens, Harris em relação à religião. Além disso, estes autores são peritos em escolher cirurgicamente as passagens bíblicas, sobretudo do Antigo Testamento, que exprimem factos e opiniões eticamente inaceitáveis. Repetem sempre as mesmas passagens, ignorando quer o seu contexto histórico, cultural e literário, quer as muitas outras passagens bíblicas com conteúdos éticos de elevado valor. Mais uma vez, esta argumentação tem um valor lógico nulo, embora para os ateus que lêem as obras deste autores se trate de uma argumentação inatacável e infalível.

Saudações,

Alfredo Dinis,sj

Paulo Jorge Ramos disse...

Caro Prof. Alfredo Dinis,
queria comentar apenas o 6. do seu comentário com as seguintes pontos:
1- a bíblia contém principalmente passagens de muito baixo valor ético.
2- os crentes afirmam que a ética e a moral vem exclusivamente de deus e da religião.
3- os descrentes dizem que a moral vem inteiramente de convenções nas relações sociais humanas (é o homem que avalia o que é moral ou imoral).
4- a ética é tanto mais elevada quanto mais contribuir para a felicidade geral do ser humano.

Resumindo: a ética e a moral são assuntos que o ser humano vai descobrindo e aperfeiçoando à medida que melhor conhece a natureza humana.
A visão naturalista é melhor que a visão teísta para atingir melhores critérios de ética e moral.

alfredo dinis disse...

Caro Paulo,

Obrigado pelo seu comentário.Respondo aos seus quatro pontos.

1. Não sei em que se baseia para dizer que "a Bíblia contém principalmente passagens de muito baixo valor ético." Não creio. Conheço bem a Bíblia e posso indicar-lhe um considerável número de passagens de elevado valor ético.

2. "Os crentes afirmam que a ética e a moral vêm exclusivamente de Deus e da religião". Nunca ouvi qualquer crente dizer tal coisa. Eu próprio estudei cinco anos de teologia e nunca ouvi qualquer professor fazer essa afirmação. Nem nuca disse ou pensei sequer tal coisa. Além disso, conheço pessoas, inclusivamente alguns ateus, que têm posições éticas idênticas às da Igreja Católica, por exemplo no que se refere ao aborto.

3. "os descrentes dizem que a moral vem inteiramente de convenções nas relações sociais humanas (é o homem que avalia o que é moral ou imoral)." Penso que mesmo sem invocar a religião se pode chegar a valores éticos muito elevados. Para os cristãos, os princípios éticos não desceram do céu numa bandeja. Nem estão dispensados de colaborar com não crentes na procura racional dos princípios mais racionais.

4. "a ética é tanto mais elevada quanto mais contribuir para a felicidade geral do ser humano." Inteiramente de acordo. Pessoalmente, não creio que seria mais feliz se não tivesse qualquer referência Cristã.

Saudações,

Alfredo Dinis,sj

Nuno Gaspar disse...

""Mas as críticas de Dawkins, como as dos ateus em geral, enfermam de muitas das falácias que constam de qualquer manual de teoria da argumentação." Como por exemplo?"

João,

Sabes muito bem que quem lê Dawkins e a seguir lê, por exemplo, Luciano Ayan ou Jairo Entrecosto(que até nem se consideram crentes) percebe como é evidente que aquilo que ele escreve sobre religião não passa de um conjunto de ilustrações de um manual de falácias. Do princípio ao fim. Dawkins representa para a religião atitudes comuns outrora no catolicismo europeu e actualmente no islamismo - a obsessão por eliminar os que têm uma visão diferente da sua, uns pela força outros invocando o nome da ciência em vão.

Joao disse...

Caro Professor:

1. Obrigado pela resposta.

2. Aceito o reparo acerca da sua intenção de não se referir apenas às cartas, mas reli a passagem e parece-me que o meu erro não é assim tão grave. Seja como for, já li umas quantas coisas do Dawkins e a linha que conheço dele é a das cartas. Mesmo que tenha havido alguma evolução no seu pensamento, já que as cartas são recentes, devemos por-nos em actualização com elas. Nem que demos essa alteração como vitória. Não acha?

3. Se a Igreja não tem tido muita influencia na legislação produzida já é mau o suficiente. Não tem de ter, diretamente, nenhuma. Ou tem indirectamente, por ter seguidores ou não se introduz na camara dos lordes. (que ja de si é um aborto, mas pronto). Em relação à oposição de Tatcher não conheço a posição de Dawkins. Suponho que será bem fundamentada se se pronuciou. Á partida parece-me que o estado nao devia interferir nos assutos internos da igreja se não houver ilegalidades pelo meio. Dou-lhe a minha opinião porque talvez interessa, mas não é muito fundamentada, nao conheço o caso. Esse não é o tipo de coisas que me levantam interesse porque não vejo que as Igrejas estejam em risco de perder a sua independencia. Ter-se há tratado de um caso pontual. De qualquer modo não nos podemos esquecer que a rainha de inglaterra é a chefe da Igreja, e isto só por si é uma salada perniciosa que dá origem a intrusões bilaterais.


4. Porque Dawkins se refere exactamente a isso que o prof diz que não é surpreendente. Eles podem viver a sua dimensão religiosa mas não transborda-la para cima dos outros. É essa a posição que eu conheço de Dawkins e que tão bem ele define nestas cartas recentes. Por isso: "Não deixa de ser surpreendente que seja um não crente a dizer aos crentes de que modo devem viver a sua dimensão religiosa." me merece esta critica.

5. De sorrir a considerar-se infalível vai um grande passo. Sim, podemos deixar essa discussão para outra altura, da Fé ser ou não crucial na vossa aquisição de conhecimento sobre o universo. Mas o raciocínio que o Dawkins defende é o mais humilde que há. É considerar a nossa falibilidade e tentar acentar em provas simples e verificaveis pelos outros aquilo que consideramos conhecimento.

6. Eu penso que a Igreja não é só essa casos pontuais. E nem é só mal. Tenho dito várias vezes que não quero acabar com a Igreja porque não sei se isso é de todo bom. Mas esses casos que Dawkins refere existem e servem para aquilo que eu o vi utiliza-los. Que é que temos de ter muito cuidado com o que se diz e que achar que vem de deus não resolve nada. Nem pode resolver. A idade média foi um facto, o criacionismo é outro. A ICAR tem muitos problemas por resolver e considera pecado coisas que são da sua criação e não de deus, porque a origem é a a mesma dos outros erros.

alfredo dinis disse...

Caro João,

Embora não creia que fosse intencional e consciente da sua parte, passou ao lado de um elemento fundamental na minha crítica a Dawkins e à sua exigência da não intervenção da Igreja Anglicana na sociedade inglesa, enquanto Igreja e enquanto instituição com uma doutrina religiosa. Dawkins parece pressupor que as intervenções desta Igreja na sociedade inglesa têm como objectivo reclamar privilégios e influenciar as decisões políticas. Esquece-se que esta Igreja tem com alguma frequência intervenções que vão na linha de crítica à actividade política do Governo inglês em nome da justiça e em favor dos mais desprotegidos. Também em países subdesenvolvidos há leigos e padres de várias Igrejas Cristãs com grande visibilidade pública, precisamente porque reclamam justiça para os mais pobres, não privilégios si mesmos, pagando muitas vezes com a vida esta presença interventiva na vida pública. O facto que mencionei sobre o relatório publicado pelos bispos Anglicanos sobre a sociedade inglesa é, pois, apenas um exemplo.

Repito que a argumentação de Dawkins e de outros ateus é extremamente débil. Ele, como muitos outros, escolhe cuidadosamente passagens bíblicas que estão de acordo com as suas teses, ignorando todas as demais passagens. Escolhe factos sombrios do passado e do presente da História das Igrejas Cristãs, deixando de lado os factos positivos. No limite, esta estratégia leva, necessariamente, à afirmação de que ‘a religião envenena tudo’ e ‘a religião só faz mal’. Por muito que estas palavras soem bem aos ouvidos dos não crentes, elas são objectivamente falsas. Considero que as Igrejas não só não estão acima de qualquer crítica como devem receber bem as críticas objectivas. Não é o caso das críticas que acabo de referir. E não é pela sua repetição que adquirem qualquer valor argumentativo.

Saudações,

Alfredo Dinis