26 de março de 2012

A exigência da co-vivência


A co-vivência exige sabedoria. Podemos ser levados a pensar que coincidir com alguém num espaço é de tal forma natural que nada mais nos é pedido que partilhar oxigénio e uma ou outra opinião. Equivocamo-nos: a co-incidência não é co-vivência. Pelo nascimento, não somos projetados contra um outro; pelo contrário, somos chamados a viver lado a lado.

Quem sou eu? Quais são os meus gostos, os meus apetites, as minhas paixões? Quem sou eu? O que é que me eleva, o que é que me deprime? "Quem sou eu?" urge questionar, deixando a pergunta cair em mim no seco do estômago: ambicionar a consciência cortante de mim.

E quem é o outro? Que histórias lhe conheço, o que me interpela - nele e dele - que hábitos me agridem e que virtudes me encorajam? De que forma ele não me é neutro, mesmo no mais fugaz e extemporâneo encontro? Tenho consciência deste ligame tão vital que me define? Eu vivo o outro em mim, cordas profundas são simultaneamente despertadas e abafadas por que o outro me surpreende: o fato de um outro existir intriga-me, ainda que eu cale a dúvida que a sua presença é.

Vivo e existo só, e é em solidão e por solidão que descubro o outro: ela é força motriz, embala e impele. Nesse lugar de desassombrada consciência que a solidão pode ser, quando o é, ocorre a revelação do outro. Ele não existe para mim fora da minha percepção e, por isso mesmo, ela tem de ser enriquecida.