7 de março de 2012

A Igreja num tsunami cultural e espiritual


As mudanças culturais que estão a ocorrer por todo o lado podem ser consideradas, mesmo que apenas metaforicamente, um verdadeiro tsunami que ameaça e destrói muito do que se considerava ao abrigo de toda a ameaça. Já o Concílio Vaticano II afirmou, há cinquenta anos: “A humanidade vive um período novo da sua história, caracterizado por profundas mudanças e rápidas transformações que progressivamente se estendem a todo o mundo”.[Gaudium et spes, §4].

Uma reacção possível aos actuais desafios destas mudanças consiste em afirmar, defensivamente, que afinal não se trata de nada de muito novo. Mas o documento Lineamenta de preparação do próximo Sínodo dos Bispos sobre “A nova evangelização para a transmissão da fé” (Outubro 2012) chama a atenção dos cristãos para a necessidade de “olhar para estas situações, para estes fenómenos, sabendo superar o nível emocional do juízo defensivo e do medo” [§7].

As reacções defensivas podem exprimir-se-se no esvaziamento da novidade e da seriedade dos desafios (“a Igreja sempre teve necessidade de conversão”); na dúvida de que seja urgente uma autocrítica: (“há muitos problemas na Igreja mas há também boas razões para dar graças a Deus”); na falta de coragem para mudanças significativas (“o essencial da fé não muda”). Estas afirmações, certamente verdadeiras, podem porém ser expressões de atitudes defensivas, sempre paralisantes.

De facto, o documento Lineamenta insiste na necessidade de não diminuir nem a novidade nem a importância das actuais mudanças culturais, afirmando que elas”põem em causa práticas consolidadas, enfraquecem percursos habituais e já padronizados, obrigam a Igreja a questionar-se de modo novo sobre o sentido das suas acções de anúncio e de transmissão da fé.” [§3]
O documento afirma também claramente a necessidade de uma autocrítica, de “uma crítica aos estilos de vida, às estruturas de pensamento e de valor, às linguagens construídas para comunicar” [§7].

Torna-se necessário “lidar com estes cenários não permanecendo fechados no recinto das nossas comunidades e das nossas instituições” [§7], mas habitando as fronteiras do diálogo com os não crentes, os indiferentes, os que têm dificuldade em entender discursos e práticas que hoje perderam muito do sentido de outrora. Isto aplica-se particularmente à juventude, pois “já não somos capazes de oferecer aos jovens, às novas gerações, aquilo que é nosso dever transmitir” [§20]. Já não basta esperar que as pessoas venham ter connosco; os cristãos terão que estar cada vez mais onde estão as pessoas.

Vivido na sabedoria do Espírito Santo, o actual tsunami cultural transforma-se num tsunami Espiritual. Cairá por terra tudo aquilo que já não evangeliza, permanecendo apenas o que é essencial.

No passado predominava uma espiritualidade vivida individualmente como ‘fuga do mundo’. Hoje, num mundo em que vão caindo as fronteiras, deve predominar nas famílias, paróquias, comunidades religiosas, Igrejas Cristãs, uma espiritualidade de presença no mundo, porque é aí que estão os seres humanos e, neles, o próprio Cristo; uma ‘espiritualidade de comunhão’, segundo a oração de Jesus: “Que todos sejam um… para que o mundo creia.” (Jo.17,21)

P. Alfredo Dinis,sj
(texto publicado no jornal Diário do Minho no dia 23 de Fevereiro)

1 comentário:

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

"Cairá por terra tudo aquilo que já não evangeliza, permanecendo apenas o que é essencial. "

A própria Igreja já não evangeliza!

Querem fazer acreditar em Estórias de Santos de pau oco...

E negam factos. Como por exemplo a Torre da Babel... ou vai negar a Pedra Roseta?

Sem ela ainda hoje não saberiamos porque o Vaticano tem o oblisco em que tem. Sem a Torre de Babel, presente na Pedra Roseta ainda hoje não saberiamos porque está na praça do povo o oblisco que está. Escolha curiosa, colocar na praça do povo um oblisco que o povo não sabe ler... Se soubesse sabia que quem inventou o monoteísmo para acabar com santos e santinhos, tinha uma cidade muito especial, Heliopólis...

Quem evangeliza é a ciência...
Quem nos dá moral, é a ciência...

A religião? Só para soldados, para partirem numa luta mas asquerosa que a sangrenta.

Cordiais saudações,