29 de março de 2012

Pior sem erro


“Será, portanto, melhor que eu me engane do que não me engane?” A angústia de Descartes encerrada neste dilema ressuma profecia. Aponta para a conveniência do equívoco. A fraqueza humana perante a verdade encontra um respiro. Uma resposta negativa sepultaria toda a esperança de conhecimento permanentemente infalível. Porém, o “sim” rotundo e confiante desenha um caminho de constante aprendizagem. Esta suspeita cartesiana acerca das possibilidades inerentes ao engano, exprimida quase no início deste quarto fragmento das meditações, suscita um elogio. O erro reclama um elogio, e eu não lho negarei nestas linhas.

Errar coincide em essência com a incapacidade de acertar sempre. Os sonhos de perfeição alojados no homem diluem-se com a presença incómoda do erro. Embora o deseje, o homem não é perfeito. Assim sendo, aceitar as próprias incapacidades parece mais recomendável para a saúde existencial de cada um do que alimentar-se com ilusões de perfeição. A pergunta intencionada de Descartes sugere esta conformidade, pois não só o engano é humano, como é humanizante. O erro escolta a caminhada do homem enquanto vive. Esculpe-a para lhe dar uma estrutura sólida. Nenhum bebé nasce sábio, mas são poucos os idosos que morrem sem sabedoria. Sabedoria de vida que não pressupõe a ausência de equívocos, mas a adequada atitude interior adoptada para os ultrapassar. O erro chateia porque denuncia a nossa fragilidade, mas é um inimigo imprescindível. Como corrigir a falha sem ele se pronunciar primeiro? Como aprender sem reconhecer antes a ignorância? Como avançar sem admitir uma rigidez prévia? Concluo afirmando que o erro dinamiza. Raramente bem-vinda, a energia que o erro desencadeia em nós põe-nos rumo ao encontro duma integração pessoal cada vez mais perfeita, ainda que nunca idêntica à perfeição. Convém-nos muito incorporar o erro com naturalidade, enquanto puramente humano e tremendamente humanizante.
O optimismo funcional perante este erro-conveniente significa que o erro é, em si, uma situação a evitar, mas largamente proveitosa quando chega… Certamente, ninguém vive sem errar e, quem achar o contrário, é o mais enganado de todos.

3 comentários:

Anónimo disse...

Muito obrigada!

João Cunha disse...

O que é "o erro"?
É ser diferente?

João Cunha disse...

O que é "o erro"?
É ser diferente?