10 de abril de 2012

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo


Equívoco fundamental: O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Décimo terceiro equívoco: o universo criou-se a si mesmo a partir do nada

1.No seu livro recentemente publicado, A Universe out of Nothing. Why there is Something rather than Nothing (Free Press, 2012), Lawrence Krauss propos-se esclarecer definitivamente uma questão que até agora tem estado nas mãos de filósofos e teólogos, o que, segundo o autor, levanta a suspeita de que apenas Deus poderia ser a resposta para a pergunta: “Porque existe algo em vez de nada?”

2.Os neopositivistas do Círculo de Viena já tinham transformado a filosofia numa ‘serva da ciência’. No seu recente livro The Grand Design, Steven Hawking anunciou ao mundo que a ciência não precisa de tal serva e que a filosofia morreu. Krauss decidiu passar-lhe a certidão de óbito. É à ciência que compete explicar por que razão existe algo, e não à filosofia, muito menos à teologia.

3.Krauss nunca consegue ser convincente quando argumenta que a cosmologia contemporânea demonstra sem margem para dúvidas que o universo saíu do nada e que, por conseguinte, a hipótese de um Deus criador é totalmente inútil. Com efeito, o autor não conseguiu apresentar uma definição de ‘nada’convincente e consistente. Afirma que “por nada não quero dizer nada mas sim nada” (p. 58) e, mais adiante, referindo-se a uma possível explicação teórica de como os efeitos das partículas virtuais se anulariam, conclui que isso deixaria um “espaço vazio com exactamente zero de energia. Ou nada. Ou melhor, Nada” (p. 73) Krauss utiliza assim o mesmo termo em três formas diferentes: nada, nada e Nada. Para afirmar depois nos títulos dos capítulos nono e décimo, respectivamente, que ‘O nada é algo’ e ‘O nada é instável’. Um colossal equívoco.

4.Krauss rejeita com indignação o conceito filosófico de ‘nada’ como ‘não-ser’, afirmando que cabe agora à ciência, morta a filosofia, redefinir os conceitos filosóficos em termos científicos, um projecto que está a ter como efeito imediato criar polémica, provavelmente um dos objectivos principais do autor.

5.Krauss anuncia também que decidiu transformar as questões que começam por ‘Porquê?’ por questões que começam sempre por ‘Como?’. Sendo assim, explicando “como” surgiu o universo e tudo o que ele contém, e eventualmente outros universos, está resolvido, para o autor, o velho enigma de “porquê” haver algo. Como se um sociólogo pudesse proceder ao estudo sociológico do suicídio estudando simplesmente os diversos modos como as pessoas se suicidam.

6.Muitas opiniões já expressas sobre a obra são positivas, mas nem todas. Profundo desacordo foi o que sentiu o insuspeito Jerry Coyne (autor de Why Evolution is True, 2009). Tal desacordo deve-se a pelo menos três razões.

7.A primeira tem a ver com o facto de sobre o valor objectivo do livro se sentir em desacordo não só com Krauss mas também com o coro de aprovações que a obra parece ter recebido desde que foi publicada. E porquê? “Achei o livro de Krauss desajeitadamente escrito e pobremente explicado”, escreveu Coyne no seu blogue. Além disso, não só o livro não é fundamentalmente acerca da origem do universo, mas o que diz nas áreas da física e da cosmologia já está explicado em outros textos. A própria expressão ‘nada’ é equívoca, não só porque equivale a ‘vazio quântico’, o que não parece uma boa definição, como porque Krauss não explica de onde saiu este ‘vazio’, não conseguindo evitar um regresso ad infinitum. Segundo Coyne, o livro é medíocre, o que é objectivamente verdade.

8.A segunda razão do desconforto de Coyne tem a ver com o facto de se sentir de acordo com muita da crítica negativa publicada por David Albert no New York Times. Albert é actualmente um dos responsáveis por um vastoprojecto de investigação sobre ‘Filosofia da Cosmologia’ que inclui membros de universidades de prestígio, como Oxford e Cambridge, na Inglaterra, e, nos Estados Unidos, as Universidades de Colúmbia, Yale, New York, Califórnia em Santa Cruz e Rutgers. ‘Filosofia da Cosmologia’ é, para cientistas como Krauss, uma designação um tanto suspeita. Mas o pior é que o projecto é financiado pela Fundação Templeton, um nome proibido para qualquer cientista que tome a sério a cruzada da ciência contra a religião.

9.A terceira razão refere-se ao Posfácio do livro de Krauss, escrito por Richard Dawkins, o qual considera que o livro está para a Cosmologia como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, está para a Biologia, uma afirmação sem qualquer fundamento objectivo.

10.Dawkins afirma ainda que não vale a pena continuamos a acreditar que algum agente divino deve estar na origem do universo. Ele está convencido de que a questão está resolvida não só por Krauss mas também por muitos outros eminentes cosmólogos, entre os quais refere Martin Rees, cosmólogo e astrofísico britânico, que foi Presidente da Royal Society (2005-2010) e se interessa actualmente por Filosofia da Cosmologia. Vejamos, então, o que este autor tem a dizer no Prefácio do seu livro Before the Beginning (p. 6): “A incursão dos cientistas em teologia ou em filosofia pode ser embaraçosamente ingénua ou dogmática. As implicações da cosmologia nestes domínios do pensamento podem ser profundas, mas alguma hesitação impede-me de me aventurar neles. Concordo com outro colega, o cosmólogo Joseph Silk, segundo o qual: ‘A humildade perante o enorme e persistente desconhecido é a verdadeira filosofia que a física moderna tem para oferecer.” Compreende-se a razão pela qual o nome de Joseph Silk, docente de Astronomia na Universidade de Oxford, não está incluído na lista de cientistas recomendados por Dawkins.

11.O celebrado grupo dos novos ateus passa assim a contar oficialmente com mais um membro, Lawrence Krauss, o qual leva consigo a mesma já conhecida debilidade argumentativa dos demais membros.

17 comentários:

Miguel Oliveira Panão disse...

Excelente post!

Nuno Gaspar disse...

Lebre corrida.

http://neoateismodelirio.wordpress.com/tag/lawrence-krauss/

Anónimo disse...

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Como massa é igual a energia... E=MC2

deus nunca existiu.
deus nunca falou com pessoas mentalmente saudáveis.

Universo exite.
Porquê?
Porque tem de existir uma resposta?

Existe porque é um facto verificável, simplesmente. O resto é ignorância e podemos tentar responder com humildade sem a arrogância de dizer que é algo imaginário como: deus.

O Império clerical já não é a melhor forma de governar. O povo já não engole estórias da carochinha como um JESU-CHRISTO que não passa de uma alegoria da Primavera na Páscoa...

Cisfranco disse...

Ateus? Há de facto quem se diga ateu, o que a mim me parece uma adulteração dos termos e um absurdo...Ser contra Deus? Como? Incompreensível ser-se contra algo em que não se acredita, ser-se contra algo que é, segundo essa opinião, nada. Não se acredita, o mundo da divindade não lhe interessa para nada, nada sabe sobre isso? Diga-se, então, antes agnóstico. Proclamar-se ateu, para mim tem ressaibos de absurdo.

Anónimo disse...

Contiuam os oportunistas religiosas a tentar usar a ignorância do povo.
Não acreditar em deus, não implica descorar as consequências da escravização de um povo, pelo medo, pela religião e seus dogmas.
Religião? Não muito obrigado.

Streetwarrior disse...

http://www.youtube.com/watch?v=L777RhL_Fz4

Este é o Deus do Universo, quem ele ou o que ele é, por enquanto não se sabe.
Agora, de uma coisa eu não duvido.
A cupula das hierarquias religiosas sabem que assim se manifesta...e escondem-no!
Tal como os faraós o faziam e se auto-proclamavam, seus representantes.

Qual o Significado da Cruz? Qual o sentido das escrituras? Quem é a Virgem maria...Isis ou mesmo uma anterior?
Porque razão escondem este conhecimento das pessoas?
Até quando o vão fazer?
São tudo respostas que continuo a procurar.

Nuno

alfredo dinis disse...

Caro Streetwarrior,

Obrigado pelo seu comentário. Eu, autor do post, sou padre. Estudei cinco anos de Filosofia e cinco de Teologia, sou doutorado em História e Filosofia da Ciência e Professor Universitário. Com este meu CV abreviado não tenho a intenção de me exibir, mas simplesmente de mostrar que tenho preparação intelectual suficiente para conhecer bem o Cristianismo e a Igreja Católica.

O Cristianismo tem sido para mim uma fonte de inspiração para viver todos os aspectos da minha vida, e posso dizer que me sinto uma pessoa feliz e realizada. Como padre tenho ajudado um incontável número de pessoas, não apenas crentes, a sentirem-se bem na vida.

Muitos ateus falam como se os crentes fossem uns ignorantes e uns incompetentes, vivendo numa prisão que é a Igreja Católica e os dogmas da fé. Os ateus que assim falam limitam-se a repetir rotineiramente ideias feitas que têm pouco a ver com a realidade.

A Igreja Católica não está acima de qualquer crítica, e tenho dito muitas vezes que as críticas objectivas, inteligentes e informadas só fazem bem aos Cristãos, que são a Igreja de Cristo. Por outro lado, se há instituição que tem aberto os seus arquivos secretos é a Igreja Católica, o que mostra, se necessário fosse, que nada tem a esconder.

A confusão entre elementos e personagens do Cristianismo, como Jesus Cristo e a Virgem Maria, e os de outras religiões como a dos Egípcios, essa confusão é feita e em larga escala pelos ateus. Já tive oportunidade de estudar com algum pormenor o que os não crentes dizem a este respeito, e com toda a objectividade posso dizer que a confusão é muita, e isto deve-se a falta de informação.

Eu procuro estar informado sobre o pensamento dos não crentes, leio as obras de Dawkins, Hitchens, Harris, Stengler e outros. Gostava de saber que obras de autores Cristãos lêem os não crentes para estarem informados do que pensam realmente os crentes Cristãos. Dawkins afirma com frequência que não lê nenhum livro de teólogos Cristãos porque a Teologia não vale nada. Eu considero que a argumentação publicada por Dawkins nos seus livros é muito fraca, mas não é por isso que deixo de os ler, para poder pronunciar-me sobre eles com objectividade e fundamento, algo que me parece que ele não faz, em grande parte, quando critica os crentes.

Cordiais saudações.

Anónimo disse...

"Muitos ateus falam como se os crentes fossem uns ignorantes e uns incompetentes, vivendo numa prisão que é a Igreja Católica e os dogmas da fé. Os ateus que assim falam limitam-se a repetir rotineiramente ideias feitas que têm pouco a ver com a realidade. "

a ideia de que repetir muitas vezes uma mentira a torna verdade é falsa.

Qual o volume de impostos arrecadado pelos padres durantes a Páscoa? Os impostos pagos pelos leigos crentes, claro...

Anónimo disse...

O problema dos crentes é que a sua crença tem muitas faces, muitos Papas que dizem uma coisa e o seu oposto...

Só toma por verdade quem quer...

Streetwarrior disse...

Obrigado pela Resposta caro A.Dinis.
Para começar, gostaria de declarar á partida que não sou Ateu, creio-me Agnóstico, logo, em certo nivel de comparação embora com diferentes nomes, não duvido que existe um criador, quem ele é não sei, como se manifesta, todos os dias vejo-o e sinto-o á minha volta .
Até porque se fosse ateu, logo á partida, seria um debate impossivel e mesmo surreal, pois o Ateu acredita em algo que não existe e isso é impossivel.

Não ponho em causa a sua solidariedade nem a sua honestidade e também gostaria que soubesse que apesar de não praticar religião alguma, também eu, ajudo a minha comunidade naquilo que posso, inclusive, adoptei uma criança.

Como será previsivel perceber, não acredito na Teologia, pois para mim, a mesma não passa do estudo aprofundado acerca de uma figura mitologica que professa o culto pelo qual, todas as religiões professam ou seja, O Culto do Universo e da Natureza,embora neste caso ( Cristianismo ) transmutado, configurando esta religião.....já em Astronomia, acredito bastante.
Com respeito ás semelhanças entre a religião egipcia e o cristianismo, existe sim uma confusão, sobretudo porque se as razões da comparação fossem esclarecidas, caia por terra o Cristianismo.
A meu ver porquê?
Porque, embora a linguagem seja diferente de religião para religião, todas elas professam os mesmos mandamentos que no fundo, são as leis pelas quais o Universo e a Natureza se regem.

Gostaria que o Caro A.Dinis me respondesse ás seguintes questões se assim o desejar.
Existe significado Oculto em quadros que representam várias figuras religiosas que representam, no fundo, os equinócios, os Solsticios, as estações etc.
Podemos até começar pela Cruz.
O que representa a Cruz de Cristo, visto que o mesmo só aparece representado como crucificado Seculos após o Inicio do mesmo, pois antes, era um Carneiro que aparecia com a Cruz?

Grato pelo seu tempo.
Nuno

Streetwarrior disse...

Caro Alfredo Dinis, se tiver disponibilidade e se lhe interessar, esta é a minha visão acerca deste assunto.

http://espirra-verdades.blogspot.pt/2011/09/filosofando-os-misterios-antigos-1.html

È só seguir os capitulos.

Grato
Nuno

Anónimo disse...

"pois o Ateu acredita em algo que não existe e isso é impossivel."

O cão já tomou banho?

O ateu não acredita que exista um ser omnipotente, omnipresente e omniciente... Como acredito, que não acredita, que existam fantasmas e duendes...

cumprimentos,

Streetwarrior disse...

Qual cão, anónimo?
Como debater o assunto dentro de niveis aceitáveis parece estar fora de hipotese, visto o tipo de debate que parece querer engaixar, pode considerar um previlégio, ter-lhe dispensado estas linhas.

Caro Pe A.Dinis, ainda gostaria que me elucidasse a respeito se existe ou não um significado oculto que me parece( e essa é apenas a minha opinião )existir em todas as religiões, relacionado com antigos cultos á Natureza?

Grato
Nuno

alfredo dinis disse...

Caro Streetwarrior,

Estive a ver o seu blogue, e suponho que se insere no estilo filosófico gnóstico. É uma antiquíssima tradição que procura em tudo e por sistema, seja em símbolos, seja em personagens ou acontecimentos, segredos ocultos. Não encontrei qualquer nível histórico nos muitos vídeos que tem no seu blogue. Não basta dizer que fulano foi educados numa colégio de Jesuítas e fez tal ou tal projecto dizendo que se inspirara nos Jesuítas, para concluir que sem margem para dúvidas que os Jesuítas estão envolvidos em tudo o que fulano fez. Há que ter em conta que outros fulanos que também foram alunos dos Jesuítas e neles se inspiraram foram por caminhos diametralmente opostos.

A metodologia que misturar elementos históricos, cuidadosamente seleccionados, com elementos cuidadosamente fabricados ou imaginados serve para se produzir o que se quiser, incluindo livros aparentemente históricos e com fundamento científico. o mundo está cheio desse género de livros e documentários.

Pense, por exemplo, nos incontáveis documentários sobre avistamentos, encontros, raptos, relacionados com extraterrestres. Para além de misturarem elementos históricos com fantasias, recorrem invariavelmente em teorias conspiratórias e segredos ocultos.

Saudações.

Anónimo disse...

Caro Alfedro,

Pense, por exemplo, nos incontáveis documentários sobre avistamentos, encontros, raptos, relacionados com a Bíblia. Para além de misturarem elementos históricos com fantasias, recorrem invariavelmente a pedidos de dinheiro para enriquecer Roma.

Saudações.

sonas disse...

" pois o Ateu acredita em algo que não existe e isso é impossivel."
Discordo respeitosamente.
O ateu não acredita em algo que simplesmente não tem provas para acreditar como a suposta existência do deus da bíblia, tal como vossa excelencia não acredita que exista um unicórnio cor-de-rosa invisivel, ou em fadas no jardim ou gnomos a viver em amanita muscaria. Consegue vossa excelência perceber a diferença na forma como formulei a sua descrença?
E se eu reformular e disser que vossa excelência acredita que não existe um unicórnio cor-de-rosa invisivel, ou fadas no jardim ou gnomos a viver em amanita muscaria?
Não me parece que esteja aqui alguém que acredite que existam os deuses do panteão grego, ou os do panteão romano, logo todos seremos ateus em relação a esses mesmos deuses... ou há alguém que se afirme agnóstico em relação a estes?

Anónimo disse...

As evidências existentes pro deus biblico são as mesmas evidencias para a existencia de Osiris ou zeus ou papai noel, ou seja, NENHUMA.