24 de abril de 2012

Novos ateus: missionários com uma "boa nova"


Num recente post no seu blogue Ktreta o Ludwig Krippahl levantou algumas questões acerca do meu último texto sobre os grandes equívocos os ateísmo contemporâneo. Agradecendo o seu desafio, sempre estimulante, deixo aqui respostas a outras questões. Aproveito para lamentar que os comentários anónimos aqui deixados tenham em geral um valor argumentativo nulo.


Missionários de uma "boa nova". Richard Dawkins e Lawrence Krauss estiveram recentemente na Austrália a participar em debates contra a religião. Krauss aderiu à cruzada do novo ateísmo – infelizmente para ele e também para as pessoas que apreciam a sua produção científica, entre as quais me incluo. O recente livro de Krauss, A Universe out of Nothing, cria algum embaraço para alguns dos seus amigos, tal é a confusão que ele faz entre o discurso científico e a cruzada anti-religiosa. O ateu Jerry Coyne, autor do livro Why Evolution is True (2010), e amigo de Krauss, já exprimiu no seu blogue este embaraço. Krauss protestou, mas Coyne não lhe respondeu. Krauss faz objectivamente uma grande confusão à volta do conceito de ‘nada’, simplesmente porque quer deitar por terra a legitimidade da questão ‘porque existe algo em vez de nada?’ Crê que assim dará o golpe de misericórdia na religião. O facto de ter convidado C. Hitchens para escrever o Prefácio e R. Dawkins para escrever o Posfácio mostra isso mesmo. Dawkins confessa que percebe muito pouco de mecânica quântica, mas aceitou o convite para escrever um texto contra a religião.

Nada, “nada” ou nada? Krauss argumenta que o conceito de ‘nada’ da metafísica tradicional deve ser substituído pelo de nada da mecânica quântica. Uma posição semelhante é a de Stephen Hawking no seu recente livro The Grande Design (2011). Também aqui Hawking faz uma confusão semelhante entre o aspecto científico e o religioso com o objectivo de dispensar Deus, afirmando que segundo o novo paradigma quântico o universo saíu do nada por si mesmo sem necessitar de um criador.
A ideia de que o universo saíu do ‘nada’ já não é nova. Físicos tão eminentes como Hawking e Krauss – por exemplo, Alan Guth (The Inflationary Universe, 1998) e Alexander Vilenki (Many Worlds in One, 2007) – já abordaram o assunto. Curiosamente, Vilenki afirma neste seu livro (p. 181): “[T]he state of “nothing” cannot be identified with absolute nothingness. The tunneling is described by the laws of quantum mechanics, and thus “nothing” should be subject to these laws. The laws of physics must have existed, even though there was no universe.” Krauss afirma que o nada absoluto da metafísica tradicional não tem sentido, e deixa-o para os desactualizados filósofos. O mesmo faz Hawking, para quem a filosofia está morta porque não acompanhou os progressos da ciência. Mas o famoso neurobiólogo Cristoph Koch, autor de The Quest for Consciousness (2004), e ateu confesso afirma num livro há pouco publicado, Consciousness. Confessions of a Romantic Reductionist (2012, p. 154): “The greatest of all existentialist puzzles is why there is anything rather than nothing. Surely, the most natural state of being – in the sense of assuming as little as possible – is emptiness. I don’t mean the empty space that has proved so fecund in the hands of physicists. I am referring to the absence of anything: space, time, matter and energy. Nothing, rien, nada, nichts.”

Como e porquê. Quanto ao debate da diferença entre a questão do porquê e do como, ele existe há muito tempo em domínios como o da ética, que alguns autores, como o ateu militante Sam Harris (The Moral Landscape, 2011) pretendem sugmeter à objectividade científica eliminando a distinção entre facto e valor ou entre ‘ser’ e ‘dever ser’. Mas este debate está longe de conduzir a consensos. O facto de se conhecer cada vez mais os mecanismos neurobiológicos que subjazem às decisões éticas não elimina a questão do porquê do agir moral. O mesmo sucede em relação à diferença entre o conhecimento dos factos que explicam o universo e o porquê de haver um, ou múltiplos, universos, seja qual for a explicação do seu surgimento do nada. O ctual debate sobre esta matéria entre os próprios físicos é ainda muito especulativo e está longe de reunir consensos. A questão do porquê haver universos não está porém dependente da explicação do como surgiu o nosso e outros universos.

2 comentários:

A.Porto disse...

Laurence kraus faz afirmações sem provas científicas, isso já desmerece totalamente seu livro.

A.Porto disse...

Laurence kraus faz afirmações sem provas científicas, isso já desmerece totalamente seu livro.