17 de abril de 2012

passagem



A quarta feira de cinzas é um convite a entrar numa peregrinação. Não é uma qualquer viagem: é um fazer caminho confiado e procurando o transcendente. A pouco e pouco vai-se experimentando o deserto, a soledade, o isolamento, vamos habitando um lugar onde não se vislumbram direções. À medida que o que "sabemos" e "pensamos" de Deus vai sendo exposto como adorno - e por vezes até empecilho - de uma experiência de fé mais profunda, cresce a consciência da inconsistência de uma fé não-vivida, não encarnada. A quaresma é uma experiência de nudez e de exposição.

No domingo de ramos experimentamos o pasmo: quem é que estamos a receber de forma tão efusiva? Quem é que ele é? O que fez? Que festa é esta? O que sabemos deste homem? E durante toda a semana santa uma frase marca o passo: "amou-os até ao fim". Qual fim? O deste homem? O fim dele entre nós? O nosso fim? O que é "amar até ao fim"? E no lava pés, na via-sacra, na adoração da cruz, no silêncio do sábado santo, durante todo o tríduo até à vigília pascal, esta inquietação faz caminho connosco.

Temos de deixar que nos contem uma história, a nossa história. Somos criados. Somos salvos. E, mais do que uma vez , guiados no meio da noite por entre os maiores perigos. Amaram-nos até ao fim, o que quer dizer por inteiro, na virtude e no limite. Nada nos faz tão próximo do outro como a experiência profunda de ser amado até ao fim: é o que nos leva a querer testemunhar a fé em Cristo.

A Páscoa é de ficar estarrecido, agradecido, ajoelhado. E esperar que nos levantem.