24 de abril de 2012

um dramático equívoco

Num recente post no seu blogue Ktreta o Ludwig Krippahl levantou algumas questões acerca do meu último texto sobre os grandes equívocos os ateísmo contemporâneo. Agradecendo o seu desafio, sempre estimulante, deixo aqui a resposta a uma das questões: em que sentido falo de um "equívoco fundamental" dos ateus? Outras respostas seguir-se-ão depois.


A publicação de livros e artigos, a manutenção de sites e blogues, a constituição de associações e a realização de congressos, por iniciativa de ateus em todo o mundo são em número tão elevado que provavelmente ninguám sabe quantos são. São mesmo muitos, e todos têm uma finalidade expressa: combater o alegado obscurantismo das religiões e dos crentes. ‘A religião só faz mal’ é certamente um dos slogans que reúne maior consenso entre os ateus. O estilo de todas estas iniciativas é, quase sempre, de uma grande pobreza argumentativa, mas quase sempre também de uma extrema agressividade. A Amazon anunciou para o próximo sábado a saída de mais uma obra contra a religião, de Victor Stenger: God and the Folly of Faith, a juntar a um considerável número de outros livros do mesmo autor.

O pressuposto de todas estas incontáveis iniciativas é simples: os crentes são todos uns grandes ignorantes, a inteligência está toda do lado dos ateus. Isto torna-se claro começando já pelas fontes portuguesas. A missão dos não crentes é só uma: anunciar a boa notícia de que Deus não existe. Richard Dawkins usa de uma tal agressividade nos seus livros que ele próprio reconheceu que alguns amigos seus, igualmente comprometidos na luta pelo ateísmo, lhe têm dito que ele exagera. Recentemente li a opinião de um autor ateu que disse recear que as intervenções de Dawkins tenham o efeito oposto ao que ele pretende.

É por tudo o que deixei agora escrito que considero uma drama esta missão dos não crentes. Parece-me mais que evidente – empiricamente evidente – que o objectivo desta missão é claramente a de erradicar a religião – não apenas da vida pública mas também da vida privada. Mesmo se afirmam por vezes que não querem interferir nas crenças pessoais, é por demais evidente que os crentes são considerados uns prisioneiros do erro.

No entanto, como afirmei por diversas vezes, esta crítica, quando é objectiva – e ela é quase sempre apresentada de forma emotiva, agressiva - é objectivamente positiva para a religião, e a crítica não objectiva, não belisca objectivamente a religião. Isto é um dramático equívoco: os ateus a que me refiro investem considerável tempo e energias a tentar provar que Deus é uma ilusão, que a religião só faz mal, mas não o conseguem, o que é objectivamente dramático, uma vez que torna o seu investimento inútil; e é um equívoco porque pensando que estão a destruir a religião com as suas críticas, a sua acção acaba por ter um efeito positivo ou neutro. Conseguem o contrário do que pretendem e do que pensam que conseguem. Está aqui o equívoco.

12 comentários:

Anónimo disse...

Gosto do seu cuidado ao dizer que:

Os ateus consideram que "os crentes são todos uns grandes ignorantes"

Porque os ateus respeitam muito a inteligência e a capcidade de subjugção dos leigos==crentes por parte dos religiosos== clero.

Mas é verdade que 93% da população está errada ao acreditar, de uma forma ou de outra, num deus. Tal como as crianças ficam sempre tristes e com duvidas quando aprendem que o Pai Natal não existe. deus é uma estória da carochinha dos Israelitas, que deram muita luta aos Romanos e eles aprederam como fazer esta sociedade de escravos, com uma prisão mental, psicológica...

Parabéns pela prisão... como alguns animais, mesmo com a porta aberta, ficam com medo da liberdade!

"E lá fora como vou comer? É o vaticano que me dá comida e roupa..." pensam os prisioneiros...

Anónimo disse...

Não os próprios religiosos que chamam leigos aos não religiosos mas que acreditam na religião?

como leigo quer dizer ignorante, então são os próprios religiosos a chamar ignorantes aos crentes...

Cisfranco disse...

Não há dúvida que alguns filósofos consideram que a razão e a verdade está quase toda do lado deles. Eles sabem tudo, eles sabem tudo e não sobra nada para os demais... Os outros são todos uns ignorantes. Mas presunção e água benta cada um toma a que quer...

alfredo dinis disse...

Caro Cisfranco,

Pode dar-me um exemplo de um desses filósofos?

Obrigado.

Cisfranco disse...

Os que se pronunciaram antes de mim.

Eduardo Araújo disse...

Os comentários dos anônimos refletem muito bem a verdadeira "sabedoria" desses neo ateus.

O sujeito não sabe nem o que significa o termo "leigo" na acepção religiosa. Imagine-se, daí, como dialogar com uma mente tão rasteira.

O outro mostra a arrogância típica dessas pessoas. Mas nem pensem que adiantaria cobrar do "ilustre" provas de que Deus é uma estória da carochinha dos israelitas. Por isso e pelos exemplos grotescos que dá, podemos concluir quem de fato vive numa prisão mental. Outros diriam: uma espécie de distúrbio sério de comportamento e, observando as manifestações da maioria desses ateístas, sou tentado a acreditar nessa segunda explicação.

Anónimo disse...

Então existe um significado epitemológico da palavra e um significado religioso da palavra?

E quem dá o significado? O Papa que diz que só existe uma religião verdadeira? Ou o Papa de diz que devem ser ecuménicos?

Anónimo disse...

Como autor do primeiro comentário, não acredito que a razão esteja sempre do meu lado...

É verdade que não aceito justificações de astrologia para justificar a realidade...

Tal como não aceito, teologia por teologia, uma vez que deuz não existe o seu estudo é tão válido como a astrologia... "porque plutão está na casa..."

Mas ainda não entrei prova racional, de quem se diz representante de deus. Aguardo pacientemente...

E claro que acho que um vigário sem prova é um vigarista...

E vigários que concordam com este Papa Alemão, que não ouve o apelo da própria igreja para aceitar mulheres como iguais...

São os padres que falam de igualdade e depois impedem que as mulheres sejam iguais...

São os padres que dizem que a família é o mais importante... e depois vivem no celibato...

Só não vê as contradições insanáveis... quem não quer.

Para os representenatnes do reles deus imaginário e impotente que vivem aprisionados, pela própria imagem do espelho, prisão psicológica e terrível, a minha palavra de esperança: Sim é possível viver sem deus. Sim é possível ter uma sociedade sem deus e muito melhor do que a sociedade das beatas, uma coisa pela frente e corta casacas por trás...

Sim, deus não existe.

Anónimo disse...

Caro Eduardo,

Lamento que seja fã da inquisição:

Este pensa pela própria mente... tem um comportamento desviante... mata, mata... esfola, esfola... queima os livros que publicou... para a fogueira... rápido antes que as ideias se espalhem...

saudações,

Anónimo disse...

Caro Cisfranco,

Tem toda a razão, por isso é que as igrejas apresentam ágia benta para consumo próprio...

E já agora, acredita que a água é benta como acredita em deus?
Porque inventou a igreja, algo como a água benta?
Não terá a Igreja Romana inventado deus, para não morrer pela espada?

Pois é, os romanos inverteram a espada e agora parece uma cruz... e tentaram apagar o passado... mas as pedras aindam falam... a arqueologia prova quem são os católicos romanos...

Roma vive no Vaticano, com tudo que isso implica. deus não existe.

Concorda? Porquê? Que provas apresenta?

cumprimentos,

Anónimo disse...

Para quem gosta de saber a verdadeira origem das palavras e não ser uma ovelha a balir sem pensar no que o seu auto-intitulado pastor lhe diz para balir:

Hiberno-Latin Laicus, Irish Láech and the Devil's Men

As Muitas Vidas ... disse...

Revelando as Religiões
As religiões são apenas superstições mais elaboradas. Mais elaboradas porque ao longo de sua formação seus criadores foram incorporando seus rituais, suas narrativas, primeiro orais, depois escritas, forjaram seus livros, sua doutrina, teologia, sua literatura, etc. As crenças foram perpetuadas através da doutrinação, repetição, usos, costumes e tradições.
Os livros sagrados de todos os credos são coleções de fábulas, mitologias, lendas e fragmentos de culturas antigas. A prova de que esses livros são mitologias está em seu próprio conteúdo fabulesco. Eram narrativas sujeitas àquela regra: quem conta um conto lhe acrescenta um ponto. Mais as supressões, adições, reinterpretações e recriações que esses textos foram recebendo. Não houve nenhuma revelação.
O Deus é um ser da mesma natureza dos deuses, semideuses, divindades, fetiches, xamãs, toténs, etc, etc, e todos são criações humanas. Todos os salvadores, messias, profetas e pregadores são os precursores dos atuais exploradores de nossa credulidade. Ainda assim, afastar de nossas mentes o Deus herdado desde o colo da mãe é uma tarefa impossível para muitos.
O conceito de espírito ou alma surgiu quando o homem primitivo começou a interpretar o sonho como uma entidade que habitava nosso interior. Surgiu então o animismo, de alma ou espírito, entes imaginários, pois o que temos de imaterial é a nossa consciência, o pensamento, a imaginação, a mente, mas gerados por nossa própria condição biológica.
A ética (ou a moral) independe de qualquer fundamento teológico, já que ela resulta da própria necessidade da convivência harmônica dos homens. O grande balizador da ética é a regra de ouro – Não fazer aos demais aquilo que não gostaria que lhe fizessem – e que vem desde os escritos antigos e repetida inclusive nos Evangelhos.
A existência do Universo. Por que existe Algo ao invés do Nada? Sabe-se que o Algo não pode vir do Nada, e isto leva a uma síntese inarredável: o Universo é eterno e existe por suas próprias contingências imanentes. E nós existimos porque o arranjo cosmológico aleatoriamente estabelecido permitiu que na Terra moléculas pré-biológicas se tornassem biológicas, e evoluíram.
Todo o mundo sobrenatural ou transcendente que imaginamos é resultante de nossos medos, fragilidades, compulsões, nosso autoengano e de nossa inconformidade com a finitude da vida.
Assis Utsch (autor de O Garoto Que Queria Ser Deus)