2 de maio de 2012

Ponderação do bem e sentimentos




Será que podemos dispensar os sentimentos na ponderação do bem? Será possível extrair, a partir da quieta e asséptica observação do outro, a ideia de bem? Será a partir da imperturbabilidade da alma que encontramos a justa medida da relação? E se o outro for o lugar da revelação, justamente pela aproximação, pela misericórdia, pelo “sentir com”?

Alguns traçam caminhos de felicidade fundados em exigências profiláticas e distanciamentos herméticos do turbilhão do sentir, uma perspetiva baseada na fugacidade da vida e na sua persistente imunidade às nossas querenças, desejos e entusiasmos. Contudo, a partir da mesma constatação, poderá ser sugerido trilhar um outro caminho: sem fugir da vida em consciência, com disponibilidade e abertura perante o imprevisível e o perecível, mas também sem alienação sentimental. É possível abraçar o turbilhão, fazendo-o em horizonte do Absoluto, Absoluto que ultrapassa em muito o grito do momento, a emoção do agora, usufruindo a pessoa ativamente dos vários cambiantes e matizes da capacidade humana. 

Onde descobrimos o nosso papel? Onde descobrimos o bem? Qual é o lugar da revelação? Ousemos dizer que existir fugindo à sintonia não é mais que acumular dias, é uma aparência de vida: a revelação dá-se na relação com o mundo e com o outro. E o ponto de partida para esse lugar é o “eu”. Nascer em corpo e viver em corpo não é suficiente para assimilar o “eu”: há que ousar viver em desassombrada clareza. 

É imprescindível colocar a questão: o que nos movimenta? O que nos leva a vencer a inércia? Que dificuldades antecipamos? Aceitamos ser surpreendidos pelo desconhecido? Sem pesar seriamente o alcance das nossas decisões, não estamos verdadeira e exclusivamente disponíveis para a fidelidade que elas nos irão exigir: vogaremos errantes, seres infantilizados, numa existência presa a – e dependente de – estados de ânimo, ilusões e entusiasmos vácuos.

É necessário moderação, combater a sofreguidão de viver empoleirado e de mão estendida, querendo possuir tudo o que estiver ao nosso alcance. Se o alvo da nossa atenção nos contorna ou se evade, há que colocar os meios, mas também há que saber esperar pacientemente. O grande desejo, para ser encontrado, precisa de luz, não se deixa apreender pelo que o outro tem, ou pela forma que o mundo assume: este é o caminho da ilusão. Há que ousar ser “eu” no meu caminho. Fidelidade ao que somos, em verdade, clareza e bondade é o melhor serviço a prestar.




2 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns. Um texto muito interessante e importante.

O "eu".

Mas, como é que o "eu" deve respeitar os outros e a natureza?

Sem a natureza o "eu" não é sustentável...

Filipe Noronha disse...

Deixa-me dizer-te, Nélson, que o teu texto cativa pela sensibilidade e pela justeza. Dou-te um grande abraço de parabéns por isso. É um texto de uma medida generosa. Muito obrigado!