14 de maio de 2012

disse 'sobre natural' ?


Partilho com os leitores deste blogue um comentário que deixei hoje no blogue 'ktreta', de Ludwig Krippahl:

Quando leio afirmações como a de que as pessoas têm crenças religiosas simplesmente porque têm medo da morte, doinferno, etc. - e há por aí em circulação um número quse infinito dessas afirmações - pergunto-me se realmente sou um homem religioso, algo de que tenho estado convencido desde criança. É que desde que me conheço com ser humano o medo foi coisa que nunca associei à religião.

Por outro lado, também nunca entendi muito bem o discurso, tanto crente como ateu, acerca do sobrenatural, como algo que está, literalmente, 'sobre' o 'natural'. É provavelomente com base na incapacidade de entender este pressuposto, que também nunca entendi, por mais que me esforce, o facto de em tempos recentes terem surgido inúmeras publicações a anujnciar triunfantemente o fim da religião com base na decoberta de que ela não passa de algo que surgiu no processo evolutivo e tendo alguma função 'positiva', função essa que hoje não necessita ser assegurada pela religião, a qual pode assim ir em paz.

Pelo mesmo pressuposto se afirma que a ética não precisa da religião para nada, não tem nada a ver com revelações divinas, com a Bíblia; as origens evolutivas da religião também estão suficientemente esclarecidas.

O desenvolvimento das neurociências também parece ter provado sem margem para dúvidas que os rituais e as crenças religiosas são pura criação do cérebro (daqui a ‘Neuroteologia’), o mesmo se diga da ética (daqui a ‘Neuroética’), da estética (daqui a ‘Neuroestética’), da filosofia (daqui a ‘Neurofilosofia’), da econiomia, etc.

O Ludwig não gosta que eu fale em equívocos, mas parace-me cada vez mais que aqui alguma coisa não bate certo. Ou então eu nunca fui um homem religioso e o equívoco está do meu lado!


Alfredo Dinis, sj

9 comentários:

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

Em primeiro lugar, não defendo que «que as pessoas têm crenças religiosas simplesmente porque têm medo da morte, doinferno, etc». Penso que as religiões são coisas muito diversas, com crenças muito diferentes e que o percurso pessoal de cada religioso pode ser diferente dos dos outros. Dito isto, também não acho que por tu não teres medo do inferno se possa inferir que o medo não é um dos factores que motivam algumas pessoas. Penso que desde a virtude de “temer a Deus” aos tele-evangelistas e às testemunhas de Jeová que nos dizem sempre que o mundo está a acabar, o medo parece ser uma ferramenta importante, mesmo que esteja longe de ser a única.

Quanto ao sobrenatural, pelo que entendo é apenas uma desculpa de alguns crentes para não terem de fundamentar minimamente as suas alegações. Por exemplo, pelo que sabemos da natureza, é fisicamente possível surgirem partículas onde nenhuma havia antes, porque o vazio é instável, mas não é possível um ser inteligente existir sem matéria, porque processar informação exige um aumento de entropia. Vê, por exemplo, o demónio de Maxwell.

Mas a desculpa dos crentes é que o seu deus criou todo o universo e existe para além da matéria, do espaço e do tempo, porque não é parte da natureza. Por isso podem-se marimbar para a física. E, como bónus, nem precisam de justificar as suas afirmações. É assim porque acreditam, e acreditam porque é assim. Pronto.

Quanto à neurologia acabar com a religião, não é assim que entendo essa investigação. É como o medo das cobras. Há muito mais gente com pavor de cobras do que de carros apesar de, aqui e agora, os carros matarem muito mais do que as cobras. A evolução e a neuropsicologia explicam isso. Milhões de anos de evolução criaram mecanismos neurológicos que nos tornam propensos a estas fobias, muito mais do que a outras que, neste momento, seriam mais úteis, como ter medo de atravessar a estrada sem olhar. No entanto, isso não acaba com as fobias. Apenas explica a sua origem.

O mesmo podemos fazer acerca das religiões. Não acaba com elas, mas explica como pode tanta gente acreditar tanto em tanta coisa falsa. O que é útil para rebater o argumento, que tu também invocas, de que deve haver algo de fundamentalmente verdadeiro na (tua) religião pelo simples facto de tanta gente ter acreditado nela com tanta intensidade. O que a psicologia, neurologia e sociologia mostram é que essa inferência é inválida. A intensidade da crença não implica que seja verdadeira.

Finalmente, a dicotomia que propões parece-me falsa: ou eu estou enganado ou tu nunca foste um homem religioso. Não só porque eu não defendo que o medo é o principal motivador para a religião, como também porque há muitas formas de ser religioso, e não podes assumir que todos os religiosos são religiosos como tu. Há gente que teme a Deus e que tem medo do castigo eterno, e é pena que não dediques mais dos teus posts a ensinar aos religiosos que tanto faz que sejam crentes ou ateus, que Deus ama todos por igual e não castiga ninguém por isso. Se for nisso que acreditas...

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

"o argumento, que tu também invocas, de que deve haver algo de fundamentalmente verdadeiro na (tua) religião pelo simples facto de tanta gente ter acreditado nela com tanta intensidade. O que a psicologia, neurologia e sociologia mostram é que essa inferência é inválida. A intensidade da crença não implica que seja verdadeira."

A única coisa de que me lembro é a de ter constatado que a crença religiosa é bastante generalizada, mas não considero que isto seja uma argumento para provar seja o que for.

Saudações,

Alfredo

Anónimo disse...

O Alfredo é jesuíta. Logo não pode ser religioso.

E não finja ou faça fitinhas. Sabe muito o que estou a referir...

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,
Teria imenso gosto em dialogar consigo, mas esse seu estilo de pregador de sermões desanima-me.
Não quer mudar esse seu estilo de me passar um atestado de incompetência em cada intervenção?
Saudações,

Alfredo Dinis,sj

Pyny disse...

Tenho acompanhado com interesse alguns destes debates no Companhia dos Filósofos e no Que treta. Até agora nunca tinha comentado, mas de facto, faz-me bastante confusão que existam por aí anónimos a comentar com tanta arrogância. Concordando ou não com os argumentos de uma ou outra parte, é sempre bom ter direito a defesa/resposta, que não acontece quando se comenta anonimamente. Muito menos quando são comentários ofensivos, como se viu.

Anónimo disse...

Caro Pyny,

Claro que pode debater as ideias com anónimos. Fica é sem conseguir atacar a pessoa. Pode comentar apenas e só a ideia.

desconheço o anónimo das 12:05 AM.

Cordiais saudações.

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Concordo consigo que os pregadores de sermões desanimam-me...

principalmente os padres que ficam sem resposta na igreja.

Não me recordo de lhe passar qualquer atestado de incompetência. faço perguntas e deixo desafios. Se auto se considera como incompetente, isso já é uma opinião sua.

Neste debate até considero que a sua ampla visão e jogo de palavras e muito interessante.

Saudações,

desconheço o anónimo das 12:05 AM.

alfredo dinis disse...

Caros anónimos,

Dado haver pelo menos dois anónimos a deixar comentários, proponho que intervenham com nomes fictícios para evitar confusões. Pode ser?

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro anónimo das 12.05h

Disse: "
O Alfredo é jesuíta. Logo não pode ser religioso.

E não finja ou faça fitinhas. Sabe muito o que estou a referir..."

Bem gostava de saber. Sem fitinhas, pode crer!

Alfredo Dinis