29 de maio de 2012

no-mission men


Ao contrário de Lawrence Kraus (A Universe out of Nothing, 2012) e Richard Dawkins (The God Delusion, 2007), Alexander Vilenkin (esquerda) e Alan Guth (direita), considerados dois dos maiores físicos teóricos da actualidade, não se consideram missionários. Conduzem as suas investigações sobre a origem do universo, sem a obsessão de Krauss, de nos convencerem que se o universo saíu do ‘nada’ por si mesmo, então Deus não é necessário, por conseguinte não existe, como afirmam insistentemente Krauss e Dawkins, este no que se refere à origem das espécies.

Alan Guth, considerado o autor da teoria inflacionária do universo, actualmente a mais discutida entre os cosmologistas e físicos teóricos, publicou em 1998 um livro intitulado The Inflationary Universe no qual afirma: “If the creation of the universe can be described as a quantum process, we would be left with one deep mystery of existence: What is it that determined the laws of physics? (p. 276) Esta pergunta que ficou no ar não pode naturalmente ser aproveitada pelos crentes para dizerem:”Ah, foi Deus quem determinou a existência dessas leis!”. Mas há que assinalar que Guth não só não se preocupou em deixar esta questão em aberto como não se lembrou de acrescentar: “Ah, mas atenção, não foi Deus quem criou as leis”. Porquê meter Deus nas teorias científicas? Boa pergunta para Krauss e Dawkins.

Por seu lado, Alexander Vilenkin afirmou no seu livro Many Worlds in One (2006): “the state of ‘nothing’ cannot be identified with absolute nothingness. The tunneling is described by the laws of quantum mechanics, and thus ‘nothing’ should be subjected to these laws. The laws of physics must have existed, even though there was no universe (p. 181). É de notar que Vinlenkin, ao contrário de Krauss, não tem nenhum problema em afirmar que o nada de que fala o físico não é o nada absoluto dos filósofos, e deixa também em aberto, tal como Guth, a questão da origem das leis da física que explicam a origem do universo, sem tirar daí qualquer conclusão a favor ou contra a existência de Deus.

São dois físicos da estatura de Krauss, pelo menos, mas, ao contrário dele, não se consideram missionários.

Ainda bem!

2 comentários:

anonimo disse...

Caro Alfredo,

Porque é que mostra estes textos, se são apenas de interesse físico.

Acha que Kraus e Dawkins não devem dizer que não foi deus, mas quer dar a entender que deus poderá estar nessas dúvidas?

O nada e o efeito túnel quântico são coisas distintas e será a janela de observação que permite essas coisas que parecem estranhas... penso que a filosofia pode ajudar e muito nesse campo.

Por exemplo: imagine que tem um filme, em que os fotogramas são tirados de 24 em 24 horas. Nesse filme observa duas salas sem contacto aparente nas imagens, com uma parede a separar. No entanto repara que ao longo do filme há uma pessoa que está numa sala e de "repente" passa para a outra sala... como é que essa pessoa passou de uma sala para a outra sala se existe uma parede no meio?

Algo mais estranho é dizer que só existem ondas e "por acaso" formam matéria... mas parece que será essa a realidade...

Ou deus é ignorância, ou deus não deve ser confundido com ignorância.
Ou será que deve?

saudações,

alfredo dinis disse...

A grande maioria dos cientistas (99,99999%) considera que o conhecimento do universo não tem como objectivo provar que Deus existe ou que não existe. Isto não significa que alguns deles não tenham fortes opiniões pessoais sobre o assunto e não orientem a sua existência por posições que incluam algum género de crença religiosa, ou não vão além de um mero agnosticismo. Outros são ateus, mas não sentem que enquanto cientistas tenham alguma missão a cumprir neste domínio. Por isso, as suas publicações, as suas lições e conferências, têm a ver com a sua investigação científica. É também por isso que na sua maior parte, eles são desconhecidos do grande público, mesmo de grande parte do público universitário em geral. Não procuram fama à custa de afirmações retóricas destinadas a atrair a atenção do grande público que, por isso, não lê os seus livros.

Dado que estes autores não procuram fama fácil, também não a têm. Permanecem desconhecidos. Por consequência, o grande público fica a pensar que na sua grande maioria os cientistas são como a minoria que se atribui uma grande missão: avisar os crentes religiosos que a ciência já os pode descansar: Deus não existe.

Mas isso não é verdade.

É por esta razão que vale a pena falar também destes cientistas que, como Alan Guth e Alexander Vilenkin, representam a perspectiva da maioria dos cientistas, ao contrário de outros como Lawrence Krauss e Richard Dawkins.