27 de junho de 2012

.A transparência na janela fechada.


Sim. Sinto-me “sente”. Reconheço a minha condição metafísica. Finitude e contingência. Assumo ser intensamente limitado. Enormemente prescindível também. Porém, enquanto redijo, contemplo.

Em concreto, uma paisagem inesperada. Uma vista íntegra na sua espontaneidade, sem fissura. De nitidez natural, incapaz de falsidade. A imagem transmite bondade generosa. Panorama espantosamente belo. O elogio da harmonia faz-se momento. Momento ávido de eternidade. Mas a filosofia não é imediata, responde a um latejo incansável. Rebanhos inteiros de silogismos amamentam os seus raciocínios recém nascidos. Uma revoada de teorias esvoaça perto, à procura de credibilidade. Entretanto, um riacho sereno e constante, transbordante de liberdade, vai regando ambas as bermas, tradição e desenvolvimento. Os mosquitos garantem a difusibilidade das descobertas, as rãs saltitam entre ocasiões e oportunidades. O céu perene, limpo de maldade, ameaça nuvens carregadas de erro. Chovem pingas de imperfeição e a compreensão escorrega. E cresce erguida a laranjeira, com convencida verticalidade. Mas dobra-se com excelsa dignidade para oferecer “sentes” como frutos. É a fecundidade na horizontalidade. Os múltiplos gomos são educados em íntima fraternidade. Algures, centenas de interpretações brotam em forma de alecrim. O seu cheiro a conhecimento perfuma este vale da apetibilidades. Os rochosos séculos, cobertos de branca analogia no seu cume, dão sombra a esta paisagem de sabedoria. A comunhão que brilha no alto manda raios de alteridade que iluminam com calor de identidade. O fértil prado, adubado de excelência, mostra folhas de grama de inteligibilidade, onde descansa, cómoda e formosa, a realidade indestrutível. Os indivíduos regozijam-se com o “transistente”. Um ar fresco de libertação parece impregnar esta paisagem. 

Mas só parece, pois a janela está fechada. De limpos vidros transparentes e sem cortinas, informa de tudo quanto lá fora acontece. Inserida mesmo nesta paisagem, pois o seu contorno emoldura esta vista. Contudo, é janela fechada. E assim continuará, irremediavelmente. A ontologia apresenta-se no meu imaginário como janela debruçada sobre a aventura da filosofia. Não se pode reduzir a existência da realidade às capacidades da nossa mente. Todo o ser é para ser conhecido, e todo o conhecimento é para receber o ser. Mas, o homem não deixa de o ser por não conhecer tudo. O existente também não deixa de o ser por não ser conhecido pelo homem. Abrir a janela suporia uma fusão irrenunciável entre o avistado e o vidente, para a qual, a pessoa nunca está plenamente preparada. Portanto, o remédio é uma paciência vital que fornecerá eternidade. Só na continuidade confiante é que resplandecerá a participação mútua entre o universo e o ser humano. Forçar sequer a maçaneta desta janela implica precipitar-se no absurdo. Só num depois incalculável, a janela irá emagrecendo até se diluir na sua própria materialidade, inaugurando-se o fascinante convívio entre a paisagem e o seu novo morador. Um morador já sem vida, mas sublimemente vivo.

Esta imagem da janela sobre a paisagem fundamenta em mim uma ontologia que escarba o melhor das minhas possibilidades de transcendência. Testemunho uma descoberta interior que só anseia abrir-se para mais abarcar e receber. Aos poucos, espreguiça-se toda a capacidade de intuição intelectual. A passagem dos anos será cúmplice deste dinamismo inesgotável de realização pessoal.
Sem a ontologia, este horizonte de perfeição não seria herança a incorporar, mas apenas um conjunto de tijolos sustendo a opacidade duma parede estéril. Sem me reconhecer “sente”, dificilmente me aproximaria desse Ser Absoluto que abraça a humanidade na sua autenticidade sincera. Porque pretender compreender o mundo fazendo abstracção do homem conduz, inevitavelmente, a uma deformação da realidade, e desagua na impossibilidade de compreender o mundo na sua totalidade.

Esta ciência do sente enquanto ser me fez redigir. Entretanto, continua acalentando cá fora.



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