12 de junho de 2012

Uma nota solta

 It's common knowledge, 2009, por Rune Guneriussen

Convencemo-nos no tempo que a vida é um somatório: de células, de coisas, de apetites, de experiências, de satisfações, de pessoas, de amigos, de dias, de tarefas – cumpridas e a cumprir –, e que a própria mente não é mais que outro campo onde a razão impera pelo correto manipular do instrumento. Furtamo-nos a encontrar o fio condutor, o contínuo permanente que enforma e dá sentido a toda a existência. Assim, quando nos encontramos perante o absurdo, ficamos confusos: confundimos o absurdo com a própria vida, sem entender que foi o nosso desnorte que nos levou até aí. O absurdo é um lugar de onde se pode sair. 


É preciso descobrir o mundo em que vivemos para nos encontrarmos. Precisamos de uma reconciliação com a vida inteira, com o que tem de imprevisto, o que tem de planeado, o que tem de suportável, o que tem de entusiasmante, o que tem de desconcertante, o que tem de prazer, o que tem de decepcionante, o que tem de sofrimento… com o imprevisto que a vida é.

A rotina é a ilusão resultante de nos furtarmos a ver o dom do momento: somos todos um pouco cegos, e a nossa cegueira cega o outro. Saramago fala-nos disto no seu «Ensaio sobre a cegueira». A coexistência não é um estar junto, não é um “partilhar telhado”; implica o reconhecer esse entrelaçamento onde a vida se dá.

3 comentários:

Streetwarrior disse...

Bonito texto Nelson.
Sem duvida, uma grande verdade.

Nuno

PROCURO CAMINHAR... disse...

"somos todos um pouco cegos..."
Obrigada Nelson pela partilha de um texto tão bonito.
Alice

Anónimo disse...

"somos todos um pouco cegos..."

equivalente a dizer que:

"somos todos bastante videntes..."

Ai e tal somos cuitadinhos...
precisamos de deus e tal...

não pega...