25 de julho de 2012

uma causa perdida


O




3 comentários:

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

Só agora reparei que o teu comentário era também um post. Talvez seja apropriado deixar isto aqui, então.

«O Ludwig Krippahl parece não aceitar que qualquer cientista que ataque a religião a partir da ciência se possa enganar.»

Não sei porque te parece isso, mas posso garantir-te que é uma aparência falsa. Qualquer cientista, e qualquer pessoa, pode enganar-se.

«Krauss comete o erro elementar de relacionar dois termos incomensuráveis. Com efeito, o termo ‘nada’ utilizado pelos cristãos para afirmarem que Deus criou o universo a partir do nada , nada tem a ver com o termo ‘nada’ ou ‘vazio’ da física quântica.»

Concordo que são conceitos diferentes. Mas o que está em causa aqui não é uma confusão de conceitos. É decidir qual destes conceitos melhor corresponde à realidade. Lavoisier também não estava a confundir o conceito de flogisto com o conceito de oxigénio quando defendeu que o flogisto não existe.

O que eu defendo é que a tua proposta de um nada absoluto, permanente, homogéneo e estável com um deus eterno que cria um universo por milagre não é um bom candidato para o tal estado fundamental que exige menos explicação. Muito melhor candidato é o outro nada, quântico, caótico e instável, que dispensa leis como "tudo o que ocorre tem uma causa", "do nada nada pode surgir", "Deus é eterno e sempre existiu", etc.

Eu não estou a confundir os conceitos. Eu estou a dizer que há razões para defender que o conceito de nada da mecânica quântica nos dá uma descrição melhor desse estádio primordial do que o teu conceito de um nada bem comportado, com leis rígidas e um deus omnipotente.

«Por estes motivos, ao Ludwig Krippahl que não se empenhes demasiado numa causa perdida.»

Agradeço a preocupação, mas é um equívoco.

Em primeiro lugar porque o que me preocupa é compreender as coisas como elas são, e não defender uma fé pessoal. Por isso não tenho problema em empenhar-me na defesa de uma ideia de forma concreta e clara. Porque qualquer que seja o desfecho será positivo. Se a ideia se confirmar, muito bem. Se for refutada, então tenho a oportunidade de a trocar por uma alternativa melhor. Seja como for, só tenho a ganhar em empenhar-me em ser claro e concreto no que afirmo. Não preciso de ser vago, fugir das questões fundamentais ou refugiar-me em hipóteses impossíveis de falsificar só pelo receio de vir a descobrir que me enganei. Não tenho medo de me enganar. Talvez seja isso que tu confundes com uma suposta convicção de que os cientistas não se enganam. Não digo "isto é assim" por me considerar infalível. Digo "isto é assim" da forma mais clara que consigo para que, se não for, me expliquem onde errei.

Além disso, noto que o teu comentário não toca em nada do meu argumento. Dizes que Krauss se vai arrepender, que Coyne o criticou e essas coisas, mas isso é lá com eles. São adultos e nenhum é meu filho. O meu argumento é que temos mais fundamento para a hipótese de que o universo surgiu espontaneamente de um estado inicial caótico e instável, o tal nada quântico, do que de julgar que o estado inicial era um nada perfeitamente bem comportado, com leis de causalidade e imutabilidade do nada, mais um deus que simplesmente é postulado como existindo eternamente para criar o universo sabe-se lá como. É este o alvo que eu apresento à tua refutação, e a tua decisão de disparar para o lado sugere-me fortemente que também tu vês alguma razão no que defendo.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Obrigado pela tua resposta.

Fico surpreendido por dizeres que o debate entre os três autores dos textos que publiquei nada tem a ver com o assunto do teu post. Tem tudo a ver!

Continuas a utilizar despreocupadamente conceitos como o de 'correspondência' e estás no teu direito. Mas, como já afirmei anteriormente, este não é um conceito muito utilizado pelos cientistas.

Por outro lado, continuas a defender uma perspectiva - a de contrapor o 'nada' científico ao 'nada' filosófico e teológico com o objectivo de mostrar (ou 'provar'?) que este último não tem sustentabilidade. Estás no teu direito, mas deves saber que ficas a fazer companhia ao Krauss, e talvez ao Hawking. Os outros físicos teóricos que conheço, não se reconhecem nesta atitude.

Saudações,

Alfredo

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«Fico surpreendido por dizeres que o debate entre os três autores dos textos que publiquei nada tem a ver com o assunto do teu post. Tem tudo a ver!»

Não vejo como. Se achas que é relevante, aqui vai: concordo com o Coyne. O livro do Krauss é muito fraquito, e até aborrecido de ler. Discordo do David Albert. Ele faz uma confusão, não sei se acidental se propositada, entre o campo como conceito matemático e aquilo que um campo não nulo pode referir. O valor não nulo pode referir uma entidade física, mas o campo em si é uma abstracção que não "existe" nem deixa de existir. Mas isso merece um post, a ver se tenho tempo.

Quanto ao assunto do meu post, é a nossa discussão. Por um lado, que não se trata de confusão nenhuma entre conceitos de nada. Eu sei muito bem que o que tu entendes por nada na tua hipótese é muito diferente do que se refere por nada na mecânica quântica. Mas o que estamos a discutir é se a tua hipótese é melhor.

E a minha posição, e o tema do post, é que a mecânica quântica revela que a tua hipótese de um nada absoluto, imutável, ex nihilo nihil fit e essas coisas, tem uma bagagem de premissas muito mais pesada e carente de explicação do que os conceitos de nada das teorias de campos quânticos ou das teorias de supercordas ou o que daí vier no futuro, tanto quanto se anteveja. A estabilidade do vazio, a proibição de coisas surgirem do nada e a obrigatoriedade de causa para qualquer acontecimento não são premissas para se assumir gratuitamente. Se as assumes, tens de explicar porquê. E se não as assumes, então tens imediatamente a explicação para haver algo em vez de nada.

Acerca disto é irrelevante se Krauss escreve bem, se Albert nos baralha misturando dois significados de campo e se o Coyne (e eu) acha que o Dawkins exagerou na importância que deu ao livro do Krauss.

«mas deves saber que ficas a fazer companhia ao Krauss, e talvez ao Hawking. Os outros físicos teóricos que conheço, não se reconhecem nesta atitude.»

Seja. Mas isso também é irrelevante. Por um lado, porque gosto de pensar por mim. Se é a opinião que tenho, digo-a. Não me vão bater por isso, presumo. E, por outro, porque se estiver enganado, então sempre aprendo qualquer coisa. Por isso pouco me importa que os físicos que tu conheces se reconheçam nesta atitude. Mas, mais uma vez, se isto importa para ti, eu conheço físicos que consideram mais plausível a hipótese do universo ter surgido por um acontecimento quântico sem causa do que ter sido criado por um deus tri-uno a partir de um nada absoluto. Essa hipótese parece ter muito pouco fundamento. Sugeria que, para o teu próximo post sobre este tema, dedicasses menos tempo ao Krauss e mais a explicar como podemos concluir que afinal és tu quem tem razão. Quais as evidências de que o universo foi criado do nada absoluto pelo deus dos católicos? É que invocar o testemunho, neste caso, parece-me duvidoso...