3 de setembro de 2012

Cardeal Carlos Maria Martini (1927-2012)


Passagens da sua última entrevista

A Igreja está cansada.
"A Igreja está cansada, na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias e a burocracia da Igreja aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos. Mas será que tudo isto exprime aquilo que somos hoje?"

Três instrumentos contra o cansaço da Igreja.
“O primeiro é a conversão: a Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminha radical de mudança, começando pelo Papa e pelos Bispos. Os escândalos da pedofilia levam-nos a começar um caminho de conversão. As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas relacionados com o corpo são um exemplo desse caminho de conversão. Elas são importantes para cada um e por vezes são também mesmo muito importantes. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria de sexualidade. Neste campo, a Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos meios de comunicação?

O segundo é a Palavra de Deus. O Concílio Vaticano II restituiu a Bíblia aos Católicos. … Só quem compreende esta Palavra no seu coração pode fazer parte daqueles que ajudarão ao renovamento da Igreja e saberão responder às questões pessoais com uma escolha justa. A Palavra de Deus é simples, e procura a companhia de um coração que oiça… Nem o clero nem o Direito eclesial podem substituir a interioridade do seu humano. Todas as regras externas, as leis, os dogmas, são-nos dados para clarificar a voz interior e para o discernimento de espíritos. 

Para quem são os sacramentos? Estes são o terceiro meio de cura. Os sacramentos não são um instrumento ao serviço da disciplina, mas sim uma ajuda aos seres humanos nas etapas do seu caminho e nas fraquezas da vida. Estaremos a levar os sacramentos àqueles que precisam de renovar as forças? Penso em todos os divorciados e nos casais que são fruto de um segundo casamento, nas famílias reconstituídas. Estas têm necessidade de uma protecção especial. A Igreja defende a indissolubilidade do matrimónio. É uma graça quando um matrimónio e uma família têm sucesso… A atitude que temos para com as famílias reconstituídas determina a aproximação da Igreja em relação aos filhos. Uma mulher foi abandonada pelo marido e encontra um novo companheiro que se ocupa dela e dos seus três filhos. O segundo amor resulta. Se esta família é discriminada, são marginalizados não apenas a mãe mas também os filhos. Se os pais se sentem fora da Igreja, ou não sentem a sua ajuda, a Igreja perde a geração futura. Antes da Comunhão rezamos: ‘Senhor, eu não sou digno…’ Sabemos que não somos dignos…. O amor é graça. O amor é um dom. A pergunta sobre se os divorciados podem receber a Comunhão deveria ser invertida. Como pode a Igreja ajudar com a força dos sacramentos quem vive em situações familiares complexas?

A Igreja atrasou-se duzentos anos. Porque não se mexe? Temos medo? Medo em vez de coragem? Mas a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem."

                                                                                     In Corriere della Sera, 01.09.12, p. 4.

1 comentário:

Anónimo disse...

A conversão(1) pela palavra de Deus(2)levará certamente muitos a alegria plena em termos individuais e coletivos (a exemplo do ponto 3). Afinal, para quem conhece Deus ... em Jesus Cristo tudo se transforma, tudo ganha um novo sentido, tudo ganha um novo significado ... o verdadeiro amor.

Louvado seja o Senhor Jesus!

Francisco