24 de setembro de 2012



                    Filosofia Portuguesa ou Pensamento Filosófico Português?




Existe uma Filosofia nacional? Poderá a Filosofia prescindir de um carácter universalista? Do que falamos quando nos referimos ao Pensamento Filosófico Português? Porque não Filosofia Portuguesa?


O “ponto alto” da questão acerca da existência, ou não, de uma filosofia nacional remonta de modo mais evidente, a meados do século XX. Contudo, esta referência cronológica não significa que seja aqui que se encontre a génese da interrogação, pois já no período romântico, oitocentista, encontramos interrogações sobre a existência e as respectivas características do pensamento português. Bons exemplos deste contributo podem ser encontrados em ilustres figuras nacionais como Ferreira Deusdado (1858-1918) ou Sampaio Bruno (1857-1915). No entanto, podemos afirmar que é apenas em meados do século passado que se evidencia de forma mais estruturada a conhecida “Questão da Filosofia Portuguesa”.


As principais orientações relativas à questão da Filosofia Portuguesa podem ser demarcadas entre: 1) a apologia desta como original e 2) a afirmação de que não é possível pensar a filosofia com o atributo de um país.

   1) Quanto ao primeiro, a defesa da originalidade da filosofia portuguesa, bem como das suas idiossincrasias, encontramos como principais rostos: Álvaro Ribeiro, José Marinho, António Quadros, Pinharanda Gomes, entre outros. Estes autores tentam responder quais os denominadores comuns da tradição filosófica portuguesa, que torna a existência de uma filosofia portuguesa.
Para Álvaro Ribeiro, o autor que mais se destaca no movimento da defesa de uma Filosofia Portuguesa, “existem estilos de pensamento; e, se «o estilo é o homem», o estilo é também o povo” . O homem português tem no seu estilo uma missão histórica, uma qualidade oculta mas original que precisa de ser reanimada para bem de toda a cultura nacional. Diz Álvaro Ribeiro que “sem a seiva da filosofia todos os ramos da cultura secam e definham” .
Assim como Álvaro Ribeiro, também outro grande autor de defesa da Filosofia Portuguesa, José Marinho, afirmava haver uma relação de reversibilidade pressuposta entre o atributo “Portuguesa” e o substantivo “Filosofia”. Este assume a necessidade de universalidade da filosofia, mas diz-nos que o sentido das filosofias nacionais é uma das formas de regresso às origens próprias do filosofar, um dos modos de distinguir a filosofia teorética e especulativa de uma filosofia cultural, livresca e universitária .
2) Uma postura contrária face à questão da existência da Filosofia Portuguesa é assumida de forma brilhante pelo autor jesuíta Padre Manuel Antunes. Para este sacerdote, não é possível pensar em Filosofia sem a pretensão universalista, assim como não podemos uniformizar os pensamentos e autores, pois o pensar é próprio de cada homem em qualquer parte do mundo, não há lugar geográfico, nem raça, nem língua que possa homogeneizar o pensamento. Para este autor, se é nacional não é filosofia, e se é filosofia não é nacional. A sua formulação assume que a Filosofia tem uma pátria, porém esta é muito mais que um espaço geográfico, é um espaço espiritual . 
Entre estes dois pólos, o meu entendimento vai de encontro da pretensão universalista da Filosofia, pois sendo esta uma actividade humana de pensamento sistematizado, não poderá ter outra ambição que não a da universalidade, pois não há lugar, nem tempo, nem raça, nem língua que demita o ser humano desta actividade do filosofar. As razões filosóficas estão no pensamento e esse, embora influenciado pelo contexto que se encontra, é, em última instância, autónomo, pelo que a verificação e a experimentação são sempre resultado de um pensamento prévio, livre e de carácter universal.
Assim sendo, é justo reconhecer que a filosofia em abstracto não existe em parte alguma, cada filósofo pensa dentro da sua própria cultura, que são condicionadas, e por vezes até limitadas. A língua em que me expresso, o pensamento comum da época, o contributo do passado, o lugar onde vivo, entre outros aspectos, poderá ser uma força potenciadora ou condicionadora, da Filosofia. Por isso, podemos encontrar na expressão filosófica de um povo algum denominador comum, mas não será isso argumento para particularizar um atributo da filosofia, como seria a expressão Filosofia Portuguesa.
Concordando com o entendimento da Filosofia como Universal, não poderei aceitar que um povo, em si, seja atributo da mesma. Mas, atribuir a um povo, não uma filosofia própria, mas um pensamento filosófico autónomo é um exercício válido e de elevado interesse para a compreensão, não só da própria história, mas da atual forma de pensar desse povo. A influência da escolástica, ou a resistência ao modernismo podem ajudar a compreender os filósofos nacionais, mas não faz, no meu entender, desta filosofia uma Filosofia Portuguesa. Assim como certas características do povo português, como por exemplo a existência do vocábulo “saudade”, contribuirão certamente para a forma de entender o que se está a expressar num ensaio filosófico, estas não faz dele um ensaio da Filosofia Portuguesa.
Penso que esta posição ganha ainda mais força quando pensamos nas alterações contextuais dos tempos hodiernos. O que define realmente um português do século XXI? A evidente globalização e a alucinante fluidez com que circula a informação entre os povos, não fará dos países menos diferentes entre si? A comunidade filosófica do século XXI é, e tenderá a ser mais ainda, global.
Concluo assumindo que, no meu entender, não devemos falar da existência de uma Filosofia Portuguesa, mas, sim de um Pensamento Filosófico Português, pois esta formulação é coerente e permite uma abordagem mais ampla. O seu objecto de reflexão é, não só de interesse histórico, mas sobretudo é um meio para entender de forma mais completa o modo de abordar os grandes temas filosóficos, do passado à atualidade, por parte de um povo.


                                                                                       João Raposo SJ

5 comentários:

Anónimo disse...

http://antonioquadros.blogspot.pt/p/escola-do-porto.html

Anónimo disse...

Curiosamente Agostinho da Silva, indicou que Portugal teria de passar novamente pelas cinzas para renascer nas ex-colónias. Não estamos muito longe disso. Falta chegar à sociedade que ele descreveu: Uma sociedade em que não há trabalho pelo trabalho, há rendimento e conhecimento. Em que a dignidade é ganha por ensinar os outros, é ganha por merecer o respeito dos outros pela arte, inovação, domínio do conhecimento e pela partilha... uma sociedade muito produtiva coma as máquinas automáticas e com tempo para a família...

Anónimo disse...

Mas assim niguém tem de ir mendigar o favor de deus... é melhor uma sociedade de pobres pedintes que olham para os representantes de deus... não é?

Anónimo disse...

Olhemos para os santinhos do "amor".
Em 1944, o filósofo Agostinho da Silva foi excomungado pela Igreja Católica. Porquê? Que teologia esteve na base da acção? amor?

Ivete disse...

Belo texto. Faria apenas uma pequena ressalva: o vocábulo 'saudade' não seria uma 'característica do povo português', mas uma particularidade do pensamento e expressão de todos os povos lusófonos. Não acha ?