4 de outubro de 2012

A Confissão de Lúcio - palavra, imagem, ideia


 PALAVRA

                O que nos ocorre salientar do estilo de Mário de Sá-Carneiro na sua obra A Confissão de Lúcio é o recurso à sinestesia, à forma fulgurante como nos transmite sensações fruindo os sentidos com enorme liberdade, levando-nos mais longe do que saber o que se passou, levando-nos a viver o que se passou (e de toda a sua carne, em penumbra azul, emana um aroma denso a crime - p.37), fazendo-nos aguardar esse momento luminoso (p.19) de um desvelamento eloquente.
                Os dourados, o vermelho e o ouro são o caminho gritante desta narrativa, acabando por ser nós mesmos aquele que é arrastado por fios de ouro e lume (p.153), por entre o mistério, o rastro de ouro da minha vida (p.95). E se colocássemos uns óculos azuis (p.26), como um tal pintor de Paris, e olhássemos para uma chama; esta não é homogénea, apresenta várias cores diferentes, um caminho que se faz do amarelo ao vermelho até chegar ao azul, a região mais quente. Aí, tudo se volatiliza, consumindo-se por inteiro num esgar surdo desvanecente. Que olhares azuis e louros (p.29) seriam aqueles? Seriam chamas? E que vontade é essa de querer dourar de mim aquela criaturinha indecisa, num enternecimento azul pelas suas carícias (p.139)? Mais reveladora é a descrição das suas intimidades com Marta: ao possuí-la eu era todo medo – medo inquieto e agonia: agonia de ascensão, medo raiado de azul; enquanto morte e pavor (p.105).
Agonia de ascensão, medo raiado de azul, morte e pavor… o medo e pavor da morte, a sublimação da matéria, do corpo, o queimar no mais íntimo dos íntimos, o viver o centro da chama, a chama de amor viva que eternamente fere da minha alma o mais profundo ponto[1]… morrer transcendendo. O azul como ascensão.

IMAGEM
                A imagem que guardo desta obra é a nódoa negra no seio de Marta (p.124, §2): o que é a nódoa negra na musa? Que infidelidade já sabida ela prova? Passeemos um pouco, apanhemos um pouco de ar.
O que nos afasta dos outros? Estará presente em cada pequeno ódio, em maior ou menor grau, a inveja? Esta, que é uma interrogação de Lúcio (p.32, §5), leva-nos para a acusação de Ricardo de que Lúcio fugiu por ciúme (p.155, §1). Porque entra Lúcio pela primeira vez desde que está em Paris em horas verdadeiramente alucinadas (p.141, §3) ao ver a obra de Ricardo publicada? Que ligação evidente?
                O que é a nódoa negra no seio de Marta? Que infidelidade já sabida assinala? É traço de que outro não só a possuiu como deixou o seu rastro nela, na sua história, no seu corpo; uniu-se a ela de forma tão intensa que a marca; outros verão nela a prova da sua união, da sua comunhão, da forma completa, intensa, vibrante como o artista, aquele artista, a possuiu. E ele procura o que já sabe, e tal dói-lhe, porque ver a marca indelével do outro na Musa é prova de que ela está presente em outro.
IDEIA
                Falemos da nossa sacerdotisa, da americana fulva, da sua pretensão e do seu fim. Que pretende ela? Ser esse artista, aquele que fará da voluptuosidade matéria-prima. E consegue-o? Atinge-o, no momento em que vencedora, tudo foi lume sobre ela (p.44). Toda ela labareda, incandescida, inflamada, devorada, consumida.
                Ela ensina a Lúcio o que Ricardo não vê: que a nós, mortais, só nos resta deixar-nos possuir pela Musa, pela Arte. Só nos resta sermos imbuídos, possuídos. Só nos resta ascender.
Azul


[1] Citação do início do poema Chama de Amor Viva de S. João da Cruz.

1 comentário:

Mariana disse...
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