22 de outubro de 2012

A organização espácio-temporal do Homem Primitivo






O entendimento do Homem acerca da natureza e do espaço geográfico foi desde cedo influenciado por uma perceção sobrenatural do mundo, uma alteridade poderosa e terrível que levou ao despertar de um temor religioso, aquilo que Rodolfo Otto denomina de mysterium tremendum, e que veio determinar uma sacralização do Cosmos e consequentemente da postura social. De facto, para o Homem Religioso, o espaço não é homogéneo, há partes do Cosmos, espaços sagrados – o realmente existente - que contrastam com espaços não sagrados, desestruturados e inconsistentes. Esta experiência religiosa perante o mundo permite integrar neste a manifestação do sagrado – hierofania - e fixar um centro, um Axis Mundi, relacionado com a Criação do Cosmos, a Cosmogonia, que permite a passagem para um mundo superior, para uma realidade absoluta. Esta porta estabelece uma continuidade entre o Homem e o Divino e torna-se fundamental para a organização social primitiva estabelecer a orientação das suas habitações, aldeias e templos[1]. O Homem organizará a sua vida em função e em torno deste símbolo sagrado, visto ser esse o espaço “ real por excelência, ao mesmo tempo poder, eficiência, fonte de vida e fecundidade”[2].
            Existe, ainda, uma transformação associada à ocupação de qualquer espaço ou território, um ritual que enforma, que sacraliza o espaço, que o torna real e que se caracteriza pela construção relativa a um arquétipo sobrenatural, um modelo extraterrestre, que se baseia no ato primordial da Criação do Mundo. É a passagem do profano para o sagrado, estabelecendo a ligação entre o Homem e a Divindade criando o acesso à realidade e à eternidade, do Caos ao Cosmos e que se efetua precisamente a partir de um Centro, de um espaço sagrado realizado à semelhança da própria Criação, repetindo uma ação criadora inicial realizada por um herói, um deus ou um antepassado[3].
Nas sociedades primitivas, todos os atos “quotidianos” como a caça, a pesca, a agricultura, a sexualidade, jogos, etc., foram revelados ab origine por deuses ou heróis, Assim a realidade só é atingida pela repetição ou participação de um arquétipo[4]. Ora, a repetição de gestos paradigmáticos confere realidade a um acto e é mesmo nessa medida em que há a abolição implícita do tempo profano na história, pois, aquele que produz o gesto exemplar é transportado para a época mítica original em que esse mesmo gesto foi revelado. Tal facto só se verifica em certos intervalos essenciais em que o Homem é verdadeiramente ele próprio, seja em rituais específicos ou atos sociais relevantes como a caça, a pesca, trabalho, guerras, alimentação etc. O tempo entre estes acontecimentos é desprovido de significado divino.
O Homem arcaico pretende, assim, transformar-se no seu arquétipo original através da repetição. A renovação do tempo, corresponde à abolição do tempo passado, no sentido de purificação ritual do indivíduo e da sociedade em direção um novo nascimento. O novo tempo é a repetição de uma nova Cosmogonia, a repetição do tempo primordial e repetição do tempo da Criação, da Passagem do Caos ao Cosmos[5]. Deste modo a noção do tempo do Homem primitivo, ao depender deste renascimento, renova consequentemente toda a sociedade. 




[1] Cfr ELIADE, Mircea – O Sagrado e o Profano, A Essência das Religiões. Coleção Vida e Cultura, volume 62. Lisboa: Edição Livros do Brasil, p. 58-59. “ Em Bali, tal como em certas regiões da Ásia, quando os homens empreendem a construção de uma nova aldeia, procura-se um cruzamento natural, onde se cortam perpendicularmente dois caminhos. O quadrado construído a partir de um ponto central é uma imago mundi. A divisão da aldeia em quatro sectores – que implica aliás uma partilha similar da comunidade corresponde à divisão do Universo em quatro horizontes. No meio da aldeia deixa-se muitas vezes um espaço vazio: ali se erguerá mais tarde a casa cultual, cujo telhado representa simbolicamente o Céu (em certos casos, o Céu é indicado pelo cume de uma árvore ou pela imagem de uma montanha). Sobre o mesmo eixo perpendicular encontra-se, na outra extremidade, o mundo dos mortos, simbolizado por certos animais (serpente, crocodilo, etc.) ou pelos ideogramas das trevas.
[2] Ibidem, p. 43.
[3] ELIADE, Mircea – O Mito do Eterno Retorno. Coleção Perspetivas do Homem, Volume 5. Lisboa: Edições 70, 1981, pp. 24-25. “ O povoamento de uma nova região, desconhecida e inculta, equivale a um ato de criação. Quando os colonos escandinavos tomaram posse da Islândia, landnáma, e a desbravaram, não consideraram este ato nem como uma obra original nem como uma tarefa humana e profana. Esse empreendimento não significava para eles mais do que a repetição de um ato primordial: a transformação do Caos em Cosmos pelo ato divino da Criação. Ao cultivar a terra desértica, eles efetivamente repetiam o ato dos deuses, que organizavam o caos dando-lhe formas e normas. O que significa que a conquista de um território só se torna real depois do (mais exatamente: pelo) ritual de tomada de posse, que mais não é que uma cópia do ato primordial da Criação do Mundo.
[4] Cfr. Ibidem, pp.17-49.
[5] Idem, p. 91. “ O que importa é que o homem sentia a necessidade de reproduzir a cosmogonia nas suas construções, fossem elas de que espécie fosse, que essa reprodução o tornava contemporâneo do momento mítico do princípio do Mundo e que ele sentia a necessidade de regressar tão frequentemente quanto possível, a esse momento mítico para se regenerar.” 

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