15 de outubro de 2012

Girard – A Teoria do Bode Expiatório como Origem Social do Religioso




 
Segundo Girard, é algo tão primitivo como a violência e a atitude mimética que produz algo tão extraordinário como a crença no sobrenatural ou numa entidade particular transcendente e a consequente relação com o sagrado, individualmente e como sociedade. De facto, para o filósofo/ sociólogo francês, é o sacrifício de vítimas expiatórias que origina o fundo religioso subjacente às comunidades humanas.
 No Homem Primitivo, a mimesis é a força originária do comportamento humano, como raiz indicativa da vertente animalesca do Homem, sobretudo pela evolução natural dos símios, e é também donde brota o que mais instintivo e irracional há no Ser Humano – a violência pela posse, isto é, pelo poder[1]. Ora, paradoxalmente, embora este tipo de atitude leve aparentemente à desagregação da comunidade, consequência de cada indivíduo proteger o que lhe é próprio, ao contrário da divisão esperada, há a convergência da violência para um único individuo, isto é, há “a passagem da mimesis de aquisição (suscitando a violência interna de todos contra todos) à mimesis de antagonismo (agressão de todos contra um) ”[2].
O que no início é a escolha arbitrária e pontual de uma vítima para perseguir, expulsar e matar, no sentido de expurgar “males” de dentro da comunidade, torna-se numa situação repetida, que consequentemente levará à questionação do homem, sobretudo perante o cadáver, resultado da sua ação como comunidade. Esta crise de violência e a sua resolução produzem mais efeitos representativos na medida em que levam a uma deturpada representação de uma vítima por parte do grupo, para a crença na sua culpa e posteriormente para um incrível reconhecimento de paz consequente ao assassínio coletivo. Deste ponto, parte a tendência primordial do Homem para a transcendência e para a influência direta desta na sociedade e na ação humana, pois perante a vítima morta, a violência cessa e no espírito do Homem surge a relação entre a morte de um homem e os benefícios associados a essa mesma morte, conduzindo a uma vida post mortem, à imortalidade, à possibilidade da existência de algo não mecânico, não imanente, mas uma entidade superior[3]. Surgem uma série de crenças e atitudes que dizem respeito à responsabilidade da vítima e aos poderes sobrenaturais (como causa e cura da crise) e daqui resulta a fundação do sagrado e consequentemente também a fundação da ordem social correta[4].
A sociedade primitiva tenderá a repetir temporalmente esta associação criminosa, sendo a expressão mais clara desta violência original, adaptada ao mecanismo religioso, o sacrifício, concebido como um ritual social. “ Se a maior parte dos ritos conduzem a um sacrifício ou imolação é porque eles procuram repetir ou imitar um homicídio coletivo originário”[5] e assim “ a lógica sacrificial converte-se aqui num mecanismo de auto-regulação social com a finalidade de preservar o equilíbrio e a finalidade do sistema, o seu total fechamento. Poderíamos, sem exagero, considerar as sociedades dominadas pelo sagrado como ‘sociedades contra a história’. A defesa da face da mimesis nos rituais, levada ao extremo na sua dimensão social-histórica converte-se em repetição, em tentativa de anulação violenta do tempo como criação”[6]. Neste sentido, a violência actua como factor de coesão social e partindo desta coesão social projectada na vítima, o Homem chega ao transcendente, ao sagrado.


[1] Cfr. Livingstone, Paisley – “Girard and the Origin of Culture”, in VARELA, Francisco J. ; DUPUY, Jean-Pierre – Understanding Origins. Dordrecht; Boston; London: Kluwer Academic Publishers, 1992, p.94. “The natural emergence or evaluation of primates, their social order is regulated by instinctual behavioral patterns, and above all else, by patterns of dominance and submission”.
[2] COSTA, J.M. Dias – O Desejo como História, O sentido da Cultura Humana em René Girard. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia – Universidade Católica Portuguesa, 2005, p.108.
[3] Cfr. Ibidem, p. 112.
[4] Cfr. Ibidem, p.101.
[5] Ibidem, p. 112.
[6] Ibidem, p.154.

1 comentário:

O faroleiro disse...

este post faz-me lembrar algo que uma vez ouvi sobre a psicanálise (à qual tenho a impressão que este post também deve bastante e estou sobretudo a pensar no inconsciente colectivo de Jung):

"a psicanálise é ou pode ser tudo e o seu contrário", uma teoria total nunca falsificável (e talvez por isso mesmo não científica nos termos de Popper)