19 de novembro de 2012

A vida em deliberada consciência I

Lúcia Moniz - Instagram (via P3)


Há, em cada um de nós, o impulso natural para abraçar o interesse e rejeitar o dano, impulso esse que não se deve impor ao bem. O Manual - ou A Arte de Viver - aplica à dimensão vivencial a mundivisão estóica: do encontro da filosofia estóica com o mundo latino brota o caminho pessoal da prática de virtudes como a via filosófica verdadeira.

A maturação da pessoa em contato com o mundo é o grande objetivo do pensar de Epicteto vertido nesta obra, um apelo a que vivamos centrados na busca e na vivência do bem. Fidelidade aos princípios, entrega da regência da nossa vida à filosofia, empenho na aplicação prática dos seus ensinamentos, buscando uma clareza que somente se alcança pela deliberação determinada de viver a vida em atitude de escrutínio e conformidade com a Natureza. 

Epicteto indica-nos o caminho para o bem através da escalpelização dos nossos movimentos interiores na observação das ações e reações de outros. Esta análise deve ser feita em ataraxia e apatia: pesamos mais justamente o impacto dos acontecimentos quando afetivamente não envolvidos . O afeto é uma opção privilegiada por algo ou alguém, inclinação do nosso tabuleiro vivencial, perturbação da equidistância que possibilita perspetivar a efetiva relevância de cada coisa ou pessoa. Valor máximo da vida é a paz de espírito, fruto da sintonia entre a vida e a Natureza.

Assemelhasse-nos indispensável salientar a consciência da perecibilidade e imprevisibilidade da vida, e o subsequente encarar da existência como “fruidores” mais do que como “possuidores”: já que nada de verdadeiramente nosso perdemos, devolvemos tudo . Contudo, diz-nos Epicteto, esta consciência não deve levar-nos ao repúdio da compaixão pelo que sofre: o filósofo preconiza a consolação do sofredor , ainda que aconselhe os leitores a nunca deixar de ter presente que tal ação – o sofrimento – é fruto de um desequilíbrio, que devemos guardar-nos dele, origem da sua miséria.

Mas será que podemos dispensar os sentimentos na ponderação do bem? Será possível extrair, a partir da quieta e assética observação do outro, a ideia de bem? Será mesmo a partir da imperturbabilidade da alma que encontramos a justa medida da relação? E se o outro for o lugar da revelação, justamente pela aproximação, pela misericórdia, pelo “sentir com”?

A filosofia estóica – e Epicteto, em particular – é sobejamente conhecida pelas suas exigências profiláticas e distanciamentos herméticos do turbilhão do sentir, perspetiva fundada na fugacidade da vida e na sua persistente imunidade às nossas querenças, desejos e entusiasmos. Contudo, a partir da mesma constatação, poderá ser sugerido trilhar um outro caminho: sem fugir da vida em consciência, com disponibilidade e abertura perante o imprevisível e o perecível, mas também sem alienação sentimental. É possível abraçar o turbilhão, fazendo-o em horizonte do Absoluto, Absoluto que ultrapassa em muito o grito do momento, a emoção do agora, usufruindo a pessoa ativamente dos vários cambiantes e matizes da capacidade humana. 

(a continuar)

2 comentários:

Wagner Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Wagner Gomes disse...

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