20 de novembro de 2012

A vida em deliberada consciência II

João Amaro Correia - Instagram (via P3)

Onde descobrimos o nosso papel? Onde descobrimos o bem? Qual é o lugar da revelação? Se viver é agir em acordo com a Natureza, ousemos dizer que existir fugindo à sintonia não é mais que acumular dias, é uma aparência de vida: a revelação dá-se na relação com o mundo e com o outro. E o ponto de partida para esse lugar é o “eu”. Nascer em corpo e viver em corpo não é suficiente para assimilar o “eu”: há que ousar viver em desassombrada clareza. 

É imprescindível questionarmo-nos: o que nos movimenta? O que nos leva a vencer a inércia? Que dificuldades antecipamos? Aceitamos ser surpreendidos pelo desconhecido? Sem pesar seriamente o alcance das nossas decisões, não estamos verdadeira e exclusivamente disponíveis para a fidelidade que elas nos irão exigir: vogaremos errantes, seres infantilizados, numa existência presa a – e dependente de – estados de ânimo, ilusões e entusiasmos vácuos.

É necessário moderação, combater a sofreguidão de viver empoleirado e de mão estendida, querendo possuir tudo o que estiver ao nosso alcance. Se o alvo da nossa atenção nos contorna ou se evade, há que colocar os meios, mas também há que saber esperar pacientemente. O grande desejo, para ser encontrado, precisa de luz, não se deixa apreender pelo que o outro tem, ou pela forma que o mundo assume: este é o caminho da ilusão. Há que ousar ser “eu” no meu caminho. Fidelidade ao que somos, em verdade, clareza e bondade é o melhor serviço a prestar.

A grande experiência da desilusão não existe destrinçada da opção pela ilusão. Epicteto chama a nossa a atenção para as “cordas” que insistimos em enlaçar em torno de nossos pés : são estas que nos imobilizam, que nos impedem de correr, que nos prendem. Estas cordas são, muitas vezes, os nossos próprios juízos: o mal não tem uma fisionomia, ele “é” o nosso desacerto; ele não está inscrito presencialmente no mundo , é ferida no tecido do mundo. Arrastamo-nos lamentando o destino, amaldiçoando a vida em vez de a voar.

(a continuar)

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