22 de novembro de 2012

A vida em deliberada consciência III

Rui Hermengildo - Instagram (via P3)


Há que compreender que o que vivemos é dom, e que muito há fora da área de influência da nossa volição e da nossa ação: o nosso nascimento, os nossos progenitores, os nossos familiares, os lugares onde vivemos… o mero ato de existir implica um grande grau de sujeição a condições autónomas do nosso pensar, sentir e agir. E, ainda assim, é a partir da nossa margem de ação que nos atiramos ao mundo: mesmo a nossa passividade é uma ação.

Na abertura do Manual, Epicteto distingue ações próprias – únicas suscetíveis de serem livres de constrangimentos, exigentes de todo o nosso empenho – das ações provenientes da esfera de outrem – alheias aos meus desideratos, que pedem a nossa indiferença . Um dos exemplos que mais cabalmente demonstra a sua tese é o do insulto: num insulto, o outro em nenhuma parte do nosso corpo inflige dano exceto na imagem que temos de quem somos. E até podemos assumir que a dimensão do dano pode estar causalmente dependente de uma inflação do ego fundada num narcisismo. É no imaterial independente de mim que o rasgão se dá.

O outro, que nesse instante nos assemelha pérfido e violento, inflige ferimento somente na opinião que temos sobre as nossas potencialidades. Estamos no campo da autoestima e perceção próprias. Deve esse núcleo da nossa vida depender da palavra de outrem para a sua estabilidade? Não falamos aqui de uma surdez ou altivez embriagada de si, mas de vivência justa do meu equilíbrio interno. Poderemos considerar equilibrado entregar exclusivamente ao outro o escrutínio de quem somos ou do nosso valor? Há que ganhar sabedoria pronta para aceitar o equívoco, ser sério e claro na abordagem de tudo o que me é dado viver. Pesemos esta situação: se o que o outro diz sobre mim não é verdade, que dano efetivo concretiza? Se à fonte nada mais assiste do que a injustiça, o mal fica com ela.

O choque, o toque, o contato, são situações limite que experimentamos todos os dias e que exigem sabedoria: quebrada a paz interior vem o desacerto, o desgoverno, o descontrolo. Temos que aprender a palpar dentro de nós o alcance dos danos e resguardar-nos para o momento em que a harmonia interior estiver restabelecida. Agir em desequilíbrio agravará o desequilíbrio.

Falámos do dano. E num sinal de apreço e carinho? Porventura não será também a harmonia quebrada por um insuflar do ego? Também aí, não menos, é necessária atenção e cuidados, aprender a colocar a alegria mais na pessoa que tal encómio nos presta do que no uso displicente da sua atenção, que mal orientada contribui somente para acumulação de gordura mal sã no nosso ego. Nós não somos os nossos dons e se, de algum modo, um deles nos faz destacar, é somente esse dom que é tangencialmente mais forte em mim: eu não sou o dom, nem os outros desprovidos de dons.

Epicteto declara a total liberdade e independência do “eu” em relação ao afeto, ao “sentir”, como o caminho para a felicidade. Todavia, assemelhasse-nos mais adequado não envidar a importância do mundo afetivo para a nossa identidade: há proveito a tirar. É prática que pede clareza e perspicácia, pois poderemos escorregar facilmente para o suave engano de querer somente ser agradáveis à vista e ao coração do outro, procurando confirmação de cada ação na reação do outro e transviarmo-nos do caminho do bem. Se pretendemos impressionar, saímos do caminho: não está ao nosso dispor a perceção que o outro tem de nós, não é matéria ao nosso alcance.

A paz de espírito tem de ser autónoma da perceção do outro, para que nunca percamos a capacidade de focar o essencial; o ascendente que ele tem sobre a nossa dimensão interior tem de ser justo. Temos que ambicionar a clareza nas nossas vidas, desejar que tudo o que fazemos possa ser exposto à luz do dia. Há também a boa modéstia, a vontade de fazer o bem discretamente e, portanto, há que encontrar a justa medida entre o agir sem receio de equívocos de interpretação, de tal forma a nossa ação está orientada para o bem, e sem, por outro lado, convocar a assembleia para aplaudir cada gesto de bondade ou altruísmo.

Procuramos a felicidade, mas confundimo-la com a aprazibilidade do cenário: riqueza e poder facilmente assumem a condição de fim, quando não são mais do que meios potencialmente ao nosso dispor. Ao exigir que o nosso objetivo dependa da verificação de determinados meios, limitamos a criatividade da vida, atamos nossos próprios pés. Epicteto aconselha-nos a viver com os olhos no chamamento do capitão , que um dia nos guiará numa longa viagem para um lugar sobre o qual podemos especular mas não saber: a morte é um evento perspetivador de vida, assumamo-lo com naturalidade. 

Do todo, a atenção ao interior e a libertação das impressões externas são os dois grandes eixos de atenção de Epicteto: consciente do impacto do exterior na nossa existência, ele pede atenção e clareza no examinar da vida. Há que pedir luz. As palavras sábias, que salientam o peso da nossa liberdade e a importância do outro, decidimos recorrer como conclusão e memória perene destas leituras.

Toda a ação tem duas asas: uma, por onde deve ser agarrada, e outra, por que não deve ser agarrada. Se o teu irmão cometer uma injustiça, não encares essa ação pela injustiça que te fez (esta é, de fato, a asa pela qual a ação não deve ser levada) antes pela outra face, ou seja, que ele é teu irmão, que foram gerados no mesmo ventre. Deste modo conduzirás as coisas tal qual deve ser feito. 

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