27 de dezembro de 2012



Igreja semper reformanda

Faleceu recentemente o Cardeal Carlo Maria Martini, um Jesuíta perito em Sagrada Escritura, que foi Arcebispo de Milão. O Cardeal era uma figura internacionalmente admirada. Na última entrevista publicada no jornal italiano Corriere della Sera (01.19.12, p. 4) manifestou algumas preocupações relativas à situação actual da Igreja, afirmando que ela necessita de uma reforma profunda: "A Igreja está cansada, na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias e a burocracia da Igreja aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos. Mas será que tudo isto exprime aquilo que somos hoje?" Martini propõe três vias de reforma para a Igreja. 

A primeira é a conversão: “a Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo Papa e pelos Bispos.” Um dos temas desta conversão tem a ver com a posição da Igreja em matéria de sexualidade: “As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas relacionados com o corpo são um exemplo desse caminho de conversão. … Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria de sexualidade. Neste campo, a Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos meios de comunicação?”

A segunda via é a Palavra de Deus. “A Palavra de Deus é simples… Nem o clero nem o Direito eclesial podem substituir a interioridade do seu humano. Todas as regras externas, as leis, os dogmas, são-nos dados para clarificar a voz interior e para o discernimento de espíritos.”

A terceira via é a dos sacramentos. Devemos responder a uma questão fundamental: “Para quem são os sacramentos?” Segundo Martini, “os sacramentos não são um instrumento ao serviço da disciplina, mas sim uma ajuda aos seres humanos nas etapas do seu caminho e nas fraquezas da vida. Estaremos a levar os sacramentos àqueles que precisam de renovar as forças?” O Cardeal afirma-se preocupado com os divorciados que se sentem excluídos de uma participação plena na vida da Igreja e do socorro que a graça de Deus lhes pode dar através dos sacramentos. Trata-se, aparentemente, de uma questão encerrada, a da impossibilidade de estas pessoas receberem a absolvição e a comunhão sacramentais. Mas o Cardeal questiona a actual posição da Igreja para com estas pessoas: “A pergunta sobre se os divorciados podem receber a Comunhão deveria ser invertida. Como pode a Igreja ajudar com a força dos sacramentos quem vive em situações familiares complexas?” Para muitos a resposta já foi dada pela Igreja, mas não para o Cardeal, que nos deixou, a terminar, outras questões incómodas mas fundamentais:“A Igreja atrasou-se duzentos anos. Porque não se mexe? Temos medo? Medo em vez de coragem? Mas a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem." 

No Ano da Fé e da Nova Evangelização, as palavras do Cardeal Martini deveriam ser objecto de profunda e séria reflexão, se a Igreja verdadeiramente se reconhece semper reformanda.
                       
                                                     Texto publicado hoje no Jornal Diário do Minho

10 comentários:

Vasco Gama disse...

A referência à ansia reformadora do Cardial Martini, já apareceu por aqui vezes sem conta. O que seria interessante era talvez perceber o que se pretende reformar, a propósito da diminuição de fiéis na tal "Europa do bem estar e América". Não será natural que as pessoas com vidas mais confortáveis sintam a tentação de se afastar da igreja e dos seus ensinamentos. E será aceitável que a igreja tenha necessidade de ir atrás dessas pessoas sacrificando os seus princípios, que é suposto serem universais? Será isto razoável sequer? ou decente? Eu tenho muitas dúvidas.

alfredo dinis disse...

Caro Vasco,
Obrigado pelo comentário. Tanto quanto sei, este é apenas o segundo texto aqui publicado sobre o Cardeal Martini. Quanto a sacrificar princípios, isso não me parece que esteja em causa. Mas se no passado não estivéssemos abertos a um aggiornamento, o Concílio Vaticano II nunca teria acontecido. E nem imagino como estaria hoje a Igreja Católica.

Saudações fraternas,

Alfredo Dinis,sj

Vasco Gama disse...

Caro Alfredo,
Provavelmente tem razão no seu reparo, terá sido azar meu de ter encontrado, múltiplas vezes, as mesmas referências vagas a reformas, não só aqui, mas, também noutros lugares (não sei bem a propósito de quê), contudo, parece-me. A igreja é frequentemente questionada pela sua defesa de princípios e pelas suas práticas, sendo que, na maior parte das vezes essas questões são levantadas veementemente por pessoas não crentes e hostis à igreja. A igreja deve prosseguir o rumo que sabiamente têm mantido ao longo dos tempos e estar ao lado dos que sofrem, em particular dos que sofrem com os seus pecados. Por outro lado os fiéis esperam que ela se mantenha como uma referência (e seja clara) e como tal não esteja ao sabor do vento.

Como crente, não vejo qualquer urgência na necessidade de reformas na igreja, muito menos mudanças radicais, como parece defender o Cardeal Martini. De qualquer modo, tenho de reconhecer que não conheço em detalhe essas reformas nem as razões que as motivam, uma vez que as declarações vagas que vêm nos meios de comunicação social me parecem ridículas (e me parecem mais declarações para apaziguar a opinião pública anti-clerical que uma coisa séria).

alfredo dinis disse...

Caro Vasco,
Obrigado pelo seu comentário.
Gostaria de saber se conhece bem a situação da Igreja Católica antes do Concílio Vaticano II e se considera que este Concílio foi um bem para a Igreja e, em caso afirmativo, em que aspectos concretos crê que foi um bem.
Obrigado.
Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Vasco Gama disse...

Não sei se posso dizer que conheço bem a situação da igreja antes do concílio, dado a que o mesmo ocorreu quando eu era criança, mas tanto quanto posso saber (do que me pude informar) o Concílio Vaticano II foi um bem, mas a meu, no essencial ver os problemas que levaram à realização do concílio mantêm-se actuais, pelo que a igreja deverá manter a postura definida nesse concílio e procurar ser mais eficaz na resposta. Na minha modesta opinião, não me parece que no essencial, desde o concílio, tenha existido alguma mudança importante no mundo.

alfredo dinis disse...

Caro Vasco,

Não sei se deva admirar o seu optimismo sobre a situação do mundo actual. Quando o Concílio Vaticano II se realizou o mundo estava apenas a começar a mudar muito rapidamente, e desde então não tem deixado de mudar a uma rapidez cada vez maior. A ideia de que mudar alguma coisa na Igreja é algo a evitar absolutamente é, a meu ver, um erro que está na base de algum afastamento de pessoas da nossa Igreja. Não se trata de ir atrás das opiniões das pessoas, nem de mudar os princípios da tradição. Mas a tradição não pode ser entendida como se fosse uma pedra de granito, imutável e que sempre se deve repetir do mesmo modo. Isto é uma ideia muito comum mas totalmente errada. Como reagem muitos católicos à situação de mudanças culturais hoje? Pedem missas em latim, a comunhão tem que ser na boca, recebida de joelhos, etc., etc. Estas parecem ser as soluções para os problemas. Acha mesmo que sim? Acha que o melhor é voltarmos todos para a missa em latim, colocar o celebrante de costas para o povo? Isto tem alguma coisa com o respeito pela tradição? Não, não tem absolutamente nada. Aconselho-o a ler uma história da Igreja nos séculos XIX e XX, e verá que se tivéssemos continuado aquela tradição em muitos aspectos, a Igreja estaria hoje de rastos. O Concílio foi certamente um acontecimento assistido pelo Espírito Santo. Mas foi também um verdadeiro campo de batalha entre os que queriam mudanças e os que queriam que tudo continuasse na mesma. Aconselho-o a ler também uma história deste Concílio e verá do que estou a falar.
Desejo-lhe um Santo Ano Novo.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Vasco Gama disse...

Caro Alfredo Dinis,
Não digo que não seja optimista, mas não posso partilhar o seu pessimismo. De facto tenho de reconhecer que algumas das preocupações que levaram à realização do Concílio Vaticano II, não só permanecem reais, como as suas causas se agravaram. Perante isto, como sempre, deve-se reflectir, e tentar dar uma resposta mais adequada. Mas, como referi antes, embora o mundo mude a uma velocidade, que por vezes nos espanta, na substância nada há de realmente novo e a igreja não pode banalizar a realização de concílios. É de todo natural que se questione sobre a adequação da igreja ao mundo real, mas isso não deve conduzir ao desespero, a igreja deve estar pronta para reagir aos desafios que se vão levantando. E essa reacção deve ser bem pensada e segura na resposta. Não sei de onde tirou essa ideia das missas em latim. Que eu saiba há uma minoria de pessoas que gostam dessas missas mais formais e daí não vem mal nenhum, nem ao mundo nem à igreja. Quanto a mim, a tradição tem muita importância e deve ser mantida, se for conveniente, i.e. se não houver uma alternativa claramente mais conveniente. Mas a minha discordância, refere-se apenas ao desespero (e alguma desorientação) que me parece haver nos que sentindo-se inseguros reclamam por reformas profundas a propósito de tudo e de nada. A meu ver estamos a viver um tempo de completa actualidade do Concílio Vaticano II, pelo que quando muito à que melhorar a resposta da igreja, onde se verificar que a resposta não é a adequada.
Um bom ano, para si e para os seus,

Vasco da Gama

António Parente disse...

Caro Alfredo Dinis

Gostava de ler alguns textos/livros do Cardeal Martini. Tem alguma sugestão?

Obrigado.

alfredo dinis disse...

Caro António Parente,

Há muitos livros do Cardeal Martini editados em diversas línguas. Se fizer uma pesquisa na distribuidora WOOK encontrará 127, sobre os temas mais diversos. Talvez o livro em que ele revela mais a sua perspectiva da fé é o que se intitula Diálogos Nocturnos em Jerusalém. Sobre o Risco da Fé. Trata-se de uma longa entrevista que foi feita ao Cardeal por um jornalista. A edição é brasileira, Editora Paulus, mas creio que se pode encontrar em Portugal.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

António Parente disse...

Muito obrigado pela sua indicação. Eu tinha efectuado a pesquisa e na impossibilidade de ler e comprar todos os livros, pedi a sua ajuda.

Mais uma vez, obrigado. Vou procurar o livro.

Saudações cordiais,