29 de janeiro de 2012

É Domingo. Partilho de alguém que experimenta a ressurreição...

"Penso que não existe nada de mais belo, profundo e perfeito do que Cristo. Se me demonstrassem que Cristo está fora da verdade e a verdade fora de Cristo, eu preferiria estar mais com Cristo do que com a verdade."

22 de janeiro de 2012

"Completou-se o tempo..."

E se o mundo terminasse esta noite?

Haveria maridos que entrassem no tasco da esquina, mais uma tarde, com a triste intenção de sair com menos moedas no bolso e mais álcool no corpo. Haveria netos que voltassem a adiar para a próxima semana a visita à sua avó, acamada com cancro durante meses. Haveria adeptos de futebol prontos a ficarem roucos mais um jogo, animando desde as bancadas. Haveria mães sequestradas pelo traje de Carnaval que os filhos vestiriam na escola. Haveria universitários sepultados sob montes de apontamentos e livros que, mais do que conhecimento, trazem stress. Haveria empresários que continuassem a ler atentamente a secção de economia à procura do investimento mais rentável em Bolsa. Haveria cozinheiros que descascassem batatas e cenouras para a sopa de depois, como cada manhã. Haveria motoristas que se sentassem na cadeira da viatura com a resignação de percorrer inúmeras vezes o mesmo trajecto. Haveria presos que traçariam mais uma risca na interminável lista dos dias que faltam para se libertarem da cadeia.

"Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho". Há anúncios que conseguem ser taxativos. Há imperativos que convidam ao sossego (de espírito, que não de acção).
As palavras de Jesus não soam a ameaça. Também não vendem um remédio de última hora. São palavras que supõem, porém, um impulso de vida, uma vida com sabor a promessa.
A pessoa é dinamizada para um olhar diferente sobre a sua própria existência. Os dias tornam-se únicos ao lhes acrescentar uma pitada de Evangelho à sua rotina. Nunca desprezáveis, mas semeados de horizonte.

Assim, é possível que o marido se disponha a encontrar solução para a sua adição, e que o neto se faça saúde para o doente com a sua presença, e que o adepto desfrute das suas paixões sem exageros, e que a mãe não se disfarce de escrava doméstica, e que os conhecimentos formem à pessoa mais do que ensinam ao aluno, e que o empresário não seja cego às pobrezas (próprias e alheias), e que os cozinheiros agradeçam poder alimentar, e que o motorista trabalhe satisfeito por ser causa de deslocação de centenas de cidadãos, e que os preso saiba confiar no (cada vez mais iminente) dia de liberdade.



Não. Felizmente, o mundo não terminará esta noite...
Ainda por cima, a inauguração do Reino de Deus não está marcada para essa tal "última noite".
Há tempo que aconteceu. Aliás, participamos já dele.
Assim, intui-se uma continuidade neste convite de Jesus.
Como não aceitar?

19 de janeiro de 2012

Mártires do passado ou do presente?

Hoje celebramos a memória dos beatos mártires da Companhia de Jesus que morreram pela fé católica, uns após a separação dos cristãos no século XVI (Tiago Sales e Guilherme Saultemouche) e outros no século XVIII, em plena revolução francesa (Tiago Bonnaud e Companheiros, José Imbert e João Cordier).

Podemos olhar para estes nomes e “petrificá-los” no passado com uma admiração própria de heróis de outros tempos, ou podemos ir mais longe e perguntar-nos: o que levará alguém a entregar a vida por um Amor assim?
Esta pergunta é mais actual e necessária do que possamos pensar.
Actual porque, embora seja pouco noticiado, não é demais lembrar que há homens e mulheres em pleno século XXI, que vivem situações semelhantes (vale a pena conhecer o trabalho da Ajuda à Igreja que Sofre) e necessária porque, se estivermos atentos aos desafios do nosso dia-a-dia, não precisamos destas situações limite para sermos chamados a dar “testemunho supremo do amor a Cristo e à sua Igreja”.

“O nosso tempo precisa de santos, precisa sobretudo do exemplo daqueles que deram o testemunho supremo do seu amor a Cristo e à sua Igreja: não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos”. (Papa Paulo VI, 25 de Out de 1970)

15 de janeiro de 2012

DOMINGO II DO TEMPO COMUM | O CONVITE

Hoje, somos convidados por um convite.
Parece uma redundância, um pleonasmo, uma repetição, uma tautologia, …
No entanto, pergunto-me: “Quem sou perante este convite?”

Quando alguém me convida a fazer alguma coisa, me convida para alguma coisa, muitas vezes esqueço-me que o que me está a ser dito é: ”Com a minha vida, gostava …”. Esqueço que alguém me quer dar a sua vida, ao mesmo tempo que se bebe um café, se vai ao cinema, se conversa, …
Perante isso, só posso ser um convidado, só posso ser alguém a quem é dado uma vida.
 

No convite, o que me é dado é a vida de quem me convida. Assim, quando respondo negativamente a esse convite será que estou a negar aquilo para que sou convidado, ou será que estou a negar a vida que me está a ser dada?Deus chama-nos, como nos diz Samuel na primeira leitura de hoje, porque nos quis resgatar, nos quis salvar, como nos diz São Paulo na segunda leitura de hoje. Deus quis por isso convidar-nos, quis-nos dar a vida. E é Jesus que nos convida a segui-Lo.
Mas um convite a seguir Jesus não é ir atrás de Jesus mas sim ir com Jesus, com a vida de Jesus. Jesus convida-nos, dá-nos a vida, por isso somos seus convidados. O convite a seguir Jesus é o convite a receber a Sua vida que nos é dada.

Quando Jesus diz: “Eu não vim chamar os justos mas sim os pecadores” (Mc  2, 17), está a convidar quem precisa de vida. E quem é que não precisa de vida?
Como recusar aquilo que mais precisamos? A VIDA.

Aceitemos este convite e, tal como André, convidemos, demos essa vida que nos é dada. Levemos os outros até Jesus para serem também Seus convidados.


Leituras do Segundo Domingo do Tempo Comum:
1ª Leitura:
1 Sam 3, 3b-10.19
Salmo 39 (40)
2ª Leitura:
1 Cor 6, 13c-15ª.17-20
Evangelho:
Jo 1, 35-42

Imagem: "O pagamento do tributo", de Masaccio. Fresco na Cappela Brancacci, Florença.

12 de janeiro de 2012

Caminho, Verdade e Vida

Tu, meu Caminho.
Esse Caminho que atravessa a treva,
o deserto desta vida faminta.
Que conduz ao lar que me preparas;
ao teu rosto, luz em tantos outros reflectida;
à tua casa, que é família que acolhe, sem distinção;
que é mesa que partilha, sem preferidos;
que é Igreja que cresce, sem distâncias.

Tu, minha Verdade.
Essa Verdade que floresce entre os muros quebrados,
desta vida em ruínas,
e destas verdades dispersas.
Brotas na mão amiga e assim constróis de novo;
falas na palavra de alento e assim colocas as minhas pedras caídas;
acolhes no abraço forte e assim fortaleces o meu alicerce, a minha raiz,
e assim cresce a tua obra, e assim crias o teu Reino.

Tu, minha Vida.
Essa Vida que se serve inteira, sem pedaços.
A que se contagia, porque atravessa os tempos.
A que descobre o Pai, porque transcende.
A vida que se entrega, porque a não limita a pele.
A que ressuscita, porque a não vence a morte.




Que os meus pés, Senhor, desgastem teu Caminho;
que entenda e anuncie, Pai, tua Verdade;
e que a minha Vida, tudo incluído, seja tua Vida.


Miguel Diez, in Silencios Guiados. Valladolid, 2008.

10 de janeiro de 2012

Hawking e Deus


Stephen Hawking completou há poucos dias 70 anos, o que motivou a realização de um colóquio comemorativo na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Trata-se do maior físico da actualidade, conhecido em todo o mundo. Os seus livros vendem-se aos milhões.

Em recente entrevista ao jornal britânico The Guardian, Hawking afirmou que não acredita numa qualquer forma de existência depois da morte. Baseia esta afirmação em duas opiniões. A primeira é a de que todos os que acreditam numa vida depois da morte têm medo de morrer, o que não se passa com ele, ateu confesso. A segunda opinião é a de que o cérebro funciona como um computador, e nenhum computador funciona depois de destruído.

Nenhuma destas opiniões tem suficiente fundamento.

Em primeiro lugar, o mais provável é que entre as pessoas que têm medo da morte haja crentes e não crentes, o mesmo se aplicando às pessoas que não têm medo da morte. Hawking não explicou como sabe que todos os crentes têm medo da morte. Acresce ainda que segundo o filósofo Martin Heidegger o ser humano é essencialmente um ‘ser para a morte’ e isto é uma caraterística fundamental da existência humana. Quem evita esta questão só pode viver uma ‘existência inautêntica’. Neste autor a questão é de natureza filosófica, não religiosa.

Em segundo lugar, Hawking parte do pressuposto de que numa existência depois da morte o conhecimento e as relações interpessoais só serão possíveis através de cérebros. Hawking não explicou como sabe que não há qualquer outro modo de conhecer e comunicar. Acresce ainda que a ideia de que o cérebro funciona como um computador é questionada por autores como John Searle, ateu confesso.

8 de janeiro de 2012

A Manifestação do Menino


O Natal é, sobretudo, a festa da humildade. Deus que se faz um de nós e, como se isso não bastasse, nasce de parto natural, numa terrinha perdida, segundo consta num abrigo de animais, tendo sido envolvido em panos por sua Mãe e deitado no lugar onde os animais comiam. Os primeiros a aperceberem-se disso foram os pastores, à data considerados gente da pior espécie. Deus faz-se homem e experimenta os lugares da simplicidade e da pobreza humanas.

Mas este Menino não passa, de todo, despercebido ao mundo da época. E por isso, o Natal é também manifestação e glória. O Menino mostra-se a todos os povos, porque a sua salvação está ao alcance de cada homem e de cada mulher. E por isso, não só os pastores, mas também os sábios e os intelectuais da época se ajoelham diante dele e lhe abrem os seus tesouros. Os Magos, reconhecendo o sinal dado pela estrela, aceitaram sair dos seus palácios e dirigir-se a uma terra perdida no meio do nada. Afim de encontrar Deus.

Muitas vezes, temos medo de sair do palácio das nossas certezas e das nossas seguranças, de descermos do nosso pedestal para nos pormos a caminho, para crescermos como seres humanos. Preferimos não olhar aos sinais. Fechamo-nos no palácio que construímos, com medo que alguma crise o venha roubar. E nem reparamos nas estrelas.

Por isso, esta festa pode ser, ela própria, sinal. Um sinal que nos desperta para a sabedoria de quem, independentemente do pedestal em que viva, é capaz de se ajoelhar para reconhecer Deus na simplicidade de um Menino. Uma sabedoria que, ainda que erudita, é simples. Tal como a dos Magos.

Mt. 2, 1-12

1 de janeiro de 2012

Dia Mundial da Paz

A falta de       paz vem      da preguiça     de escutar
e do medo que temos em      não ter nada para dizer.

Escuta e        não tenhas medo        de te esvaziares de ti.