29 de abril de 2012

Domingo do Bom Pastor


Hoje em dia poucos de nós percebemos o verdadeiro alcance da parábola do Bom Pastor. A vida pastoril é uma realidade alheia às cidades, e mesmo até a grande parte das aldeias em que vivemos. Jesus apresenta-se no Evangelho de São João como o Bom Pastor, aquele pastor que não só orienta as suas ovelhas e as faz descansar em prados verdejantes, mas que chega ao ponto de entregar a sua vida por elas. Sim, de morrer, se for preciso, para salvar as suas ovelhas.

Jesus, o Bom Pastor, não é um mero guardador de rebanhos; Ele implica-se na vida das suas ovelhas, sofre com elas, alegra-se com elas, compreende-as como ninguém, ao ponto de as amar até ao limite.
Nós, seres humanos, não gostamos de ser comparados a ovelhas e o próprio vocábulo “rebanho” adquire geralmente uma conotação negativa… Eu, rebanho?! Eu, ovelha?! Ovelhas são aqueles que não pensam pela própria cabeça e se deixam levar pela corrente! 

Sim, no nosso dia-a-dia somos confrontados com muitas vozes. Umas prometem liberdade, outras parecem arrebanhar-nos… Umas prometem felicidade rápida e fácil, outras querem simplesmente alhear-nos da realidade. A voz do Bom Pastor, porém, é inconfundível. Ele conhece cada uma das ovelhas e interessa-se por cada uma delas; não pelo rebanho em geral, mas por cada uma das ovelhas! E aquelas que têm um coração disponível sabem reconhecer essa voz, a voz que as leva a descansar, mas que é exigente, que as faz não ter medo, que as faz livres, verdadeiramente livres e únicas. E, por isso, não só respeita mas também promove a individualidade de cada uma. 

Neste domingo a Igreja convida-nos a rezar pelas vocações. E que é isto senão pedir que cada homem e cada mulher do nosso tempo se abra à voz do Bom Pastor, para com ele encontrar sentido para a sua existência?   

Jo 10, 11-18

24 de abril de 2012

Novos ateus: missionários com uma "boa nova"


Num recente post no seu blogue Ktreta o Ludwig Krippahl levantou algumas questões acerca do meu último texto sobre os grandes equívocos os ateísmo contemporâneo. Agradecendo o seu desafio, sempre estimulante, deixo aqui respostas a outras questões. Aproveito para lamentar que os comentários anónimos aqui deixados tenham em geral um valor argumentativo nulo.


Missionários de uma "boa nova". Richard Dawkins e Lawrence Krauss estiveram recentemente na Austrália a participar em debates contra a religião. Krauss aderiu à cruzada do novo ateísmo – infelizmente para ele e também para as pessoas que apreciam a sua produção científica, entre as quais me incluo. O recente livro de Krauss, A Universe out of Nothing, cria algum embaraço para alguns dos seus amigos, tal é a confusão que ele faz entre o discurso científico e a cruzada anti-religiosa. O ateu Jerry Coyne, autor do livro Why Evolution is True (2010), e amigo de Krauss, já exprimiu no seu blogue este embaraço. Krauss protestou, mas Coyne não lhe respondeu. Krauss faz objectivamente uma grande confusão à volta do conceito de ‘nada’, simplesmente porque quer deitar por terra a legitimidade da questão ‘porque existe algo em vez de nada?’ Crê que assim dará o golpe de misericórdia na religião. O facto de ter convidado C. Hitchens para escrever o Prefácio e R. Dawkins para escrever o Posfácio mostra isso mesmo. Dawkins confessa que percebe muito pouco de mecânica quântica, mas aceitou o convite para escrever um texto contra a religião.

Nada, “nada” ou nada? Krauss argumenta que o conceito de ‘nada’ da metafísica tradicional deve ser substituído pelo de nada da mecânica quântica. Uma posição semelhante é a de Stephen Hawking no seu recente livro The Grande Design (2011). Também aqui Hawking faz uma confusão semelhante entre o aspecto científico e o religioso com o objectivo de dispensar Deus, afirmando que segundo o novo paradigma quântico o universo saíu do nada por si mesmo sem necessitar de um criador.
A ideia de que o universo saíu do ‘nada’ já não é nova. Físicos tão eminentes como Hawking e Krauss – por exemplo, Alan Guth (The Inflationary Universe, 1998) e Alexander Vilenki (Many Worlds in One, 2007) – já abordaram o assunto. Curiosamente, Vilenki afirma neste seu livro (p. 181): “[T]he state of “nothing” cannot be identified with absolute nothingness. The tunneling is described by the laws of quantum mechanics, and thus “nothing” should be subject to these laws. The laws of physics must have existed, even though there was no universe.” Krauss afirma que o nada absoluto da metafísica tradicional não tem sentido, e deixa-o para os desactualizados filósofos. O mesmo faz Hawking, para quem a filosofia está morta porque não acompanhou os progressos da ciência. Mas o famoso neurobiólogo Cristoph Koch, autor de The Quest for Consciousness (2004), e ateu confesso afirma num livro há pouco publicado, Consciousness. Confessions of a Romantic Reductionist (2012, p. 154): “The greatest of all existentialist puzzles is why there is anything rather than nothing. Surely, the most natural state of being – in the sense of assuming as little as possible – is emptiness. I don’t mean the empty space that has proved so fecund in the hands of physicists. I am referring to the absence of anything: space, time, matter and energy. Nothing, rien, nada, nichts.”

Como e porquê. Quanto ao debate da diferença entre a questão do porquê e do como, ele existe há muito tempo em domínios como o da ética, que alguns autores, como o ateu militante Sam Harris (The Moral Landscape, 2011) pretendem sugmeter à objectividade científica eliminando a distinção entre facto e valor ou entre ‘ser’ e ‘dever ser’. Mas este debate está longe de conduzir a consensos. O facto de se conhecer cada vez mais os mecanismos neurobiológicos que subjazem às decisões éticas não elimina a questão do porquê do agir moral. O mesmo sucede em relação à diferença entre o conhecimento dos factos que explicam o universo e o porquê de haver um, ou múltiplos, universos, seja qual for a explicação do seu surgimento do nada. O ctual debate sobre esta matéria entre os próprios físicos é ainda muito especulativo e está longe de reunir consensos. A questão do porquê haver universos não está porém dependente da explicação do como surgiu o nosso e outros universos.

um dramático equívoco

Num recente post no seu blogue Ktreta o Ludwig Krippahl levantou algumas questões acerca do meu último texto sobre os grandes equívocos os ateísmo contemporâneo. Agradecendo o seu desafio, sempre estimulante, deixo aqui a resposta a uma das questões: em que sentido falo de um "equívoco fundamental" dos ateus? Outras respostas seguir-se-ão depois.


A publicação de livros e artigos, a manutenção de sites e blogues, a constituição de associações e a realização de congressos, por iniciativa de ateus em todo o mundo são em número tão elevado que provavelmente ninguám sabe quantos são. São mesmo muitos, e todos têm uma finalidade expressa: combater o alegado obscurantismo das religiões e dos crentes. ‘A religião só faz mal’ é certamente um dos slogans que reúne maior consenso entre os ateus. O estilo de todas estas iniciativas é, quase sempre, de uma grande pobreza argumentativa, mas quase sempre também de uma extrema agressividade. A Amazon anunciou para o próximo sábado a saída de mais uma obra contra a religião, de Victor Stenger: God and the Folly of Faith, a juntar a um considerável número de outros livros do mesmo autor.

O pressuposto de todas estas incontáveis iniciativas é simples: os crentes são todos uns grandes ignorantes, a inteligência está toda do lado dos ateus. Isto torna-se claro começando já pelas fontes portuguesas. A missão dos não crentes é só uma: anunciar a boa notícia de que Deus não existe. Richard Dawkins usa de uma tal agressividade nos seus livros que ele próprio reconheceu que alguns amigos seus, igualmente comprometidos na luta pelo ateísmo, lhe têm dito que ele exagera. Recentemente li a opinião de um autor ateu que disse recear que as intervenções de Dawkins tenham o efeito oposto ao que ele pretende.

É por tudo o que deixei agora escrito que considero uma drama esta missão dos não crentes. Parece-me mais que evidente – empiricamente evidente – que o objectivo desta missão é claramente a de erradicar a religião – não apenas da vida pública mas também da vida privada. Mesmo se afirmam por vezes que não querem interferir nas crenças pessoais, é por demais evidente que os crentes são considerados uns prisioneiros do erro.

No entanto, como afirmei por diversas vezes, esta crítica, quando é objectiva – e ela é quase sempre apresentada de forma emotiva, agressiva - é objectivamente positiva para a religião, e a crítica não objectiva, não belisca objectivamente a religião. Isto é um dramático equívoco: os ateus a que me refiro investem considerável tempo e energias a tentar provar que Deus é uma ilusão, que a religião só faz mal, mas não o conseguem, o que é objectivamente dramático, uma vez que torna o seu investimento inútil; e é um equívoco porque pensando que estão a destruir a religião com as suas críticas, a sua acção acaba por ter um efeito positivo ou neutro. Conseguem o contrário do que pretendem e do que pensam que conseguem. Está aqui o equívoco.

22 de abril de 2012



Aqueles que amam a Verdade amam a Cristo, e por isso tendem para a unidade, a unidade daqueles que se amam na reciprocidade, porque são acolhidos por um Amor maior, e por isso amam porque necessitam, porque experimentam.

Porque amam acreditarão, dado que o Amor verdadeiro não fere e aqueles que o recebem não precisarão de paredes, portas ou defesas.
Daqui, jamais um dedo penetrará no buraco da dúvida.

17 de abril de 2012

passagem



A quarta feira de cinzas é um convite a entrar numa peregrinação. Não é uma qualquer viagem: é um fazer caminho confiado e procurando o transcendente. A pouco e pouco vai-se experimentando o deserto, a soledade, o isolamento, vamos habitando um lugar onde não se vislumbram direções. À medida que o que "sabemos" e "pensamos" de Deus vai sendo exposto como adorno - e por vezes até empecilho - de uma experiência de fé mais profunda, cresce a consciência da inconsistência de uma fé não-vivida, não encarnada. A quaresma é uma experiência de nudez e de exposição.

No domingo de ramos experimentamos o pasmo: quem é que estamos a receber de forma tão efusiva? Quem é que ele é? O que fez? Que festa é esta? O que sabemos deste homem? E durante toda a semana santa uma frase marca o passo: "amou-os até ao fim". Qual fim? O deste homem? O fim dele entre nós? O nosso fim? O que é "amar até ao fim"? E no lava pés, na via-sacra, na adoração da cruz, no silêncio do sábado santo, durante todo o tríduo até à vigília pascal, esta inquietação faz caminho connosco.

Temos de deixar que nos contem uma história, a nossa história. Somos criados. Somos salvos. E, mais do que uma vez , guiados no meio da noite por entre os maiores perigos. Amaram-nos até ao fim, o que quer dizer por inteiro, na virtude e no limite. Nada nos faz tão próximo do outro como a experiência profunda de ser amado até ao fim: é o que nos leva a querer testemunhar a fé em Cristo.

A Páscoa é de ficar estarrecido, agradecido, ajoelhado. E esperar que nos levantem.