29 de setembro de 2012

Domingo XXVI do Tempo Comum | entrar na vida

Rune Guneriussen

letras incrustam-se nos dedos e palmas das mãos fundem-se;
metatarsos enraízam-se e calcanhares calcificam-se;
crânios empalidecem e faces entrincheiram-se...

entrincheirados, enraizados, incrustados,
náufragos sem  barco nem jangada...
nem mar;
derivam tergiversando invejando

fugir? saltar? voar? entrar na vida.
mãos aladas, pés de mel e coração de fado


Mc 9, 38-48
Nicolau de Cusa - Filosofia da síntese entre Deus e o Homem

Em Nicolau de Cusa, cruzam-se os fundamentos da modernidade e a tradição medieval, numa simbiose que junta a auto-realização humana identificada com o divino.
Este excerto da obra De Visione Dei é paradigmático:

Ó Senhor, suavidade de toda a doçura, colocaste na minha liberdade a possibilidade de eu ser, se quiser, de mim próprio. Por isso, se eu não for de mim próprio, tu não serás meu. Tornaste necessária a liberdade, não podendo ser meu se eu não for de mim próprio, e porque colocaste isso na minha liberdade não necessitas de mim, mas esperas que eu escolha ser de mim próprio. 
   

28 de setembro de 2012

Os equívocos fazem mal

No seu blogue ktreta afirma o Ludwig: “Ajudar as crianças, os pobres, os enfermos e os refugiados são aspectos bons da forma como alguns usam a religião. Mas não são aspectos essenciais da religião. É possível ser-se religioso sem fazer nada disto.”

Este  post, como aliás os que costuma publicar sobre religião, está profundamente equivocado porque parte desta premissa errada. Para os crentes, as actividades como as que refiro neste blogue não são opcionais, elas fazem parte da essência da religião, como se pode ver das seguintes passagens bíblicas:

 



Parábola do juízo final: “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, bem ditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’ E o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.” (Mt 25, 34-40)

E ainda: “a verdadeira religião, aos olhos de Deus, pura e sem falhas, consiste em amparar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações.(Tiago 1, 27)


Um cardiologista poderá ignorar completamente as necessidades das pessoas para lá do seu gabinete de médico e ainda assim continuar a ser um bom cardiologista. Mas o cristão não poderá dizer-se cristão se ignorar as pessoas que passam necessidade e de quem ele se pode aproximar. Um não cristão poderá comprometer-se ou não em projectos de desenvolvimento em favor dos mais necessitados, mas o cristão não será cristão se não o fizer, cada um segundo as suas possibilidades. Esta atitude faz parte integrante e fundamental da sua crença religiosa.

A  concepção de religião subjacente ao post do Ludwig  vai numa linha que corresponde a um lugar comum: “o cristão praticante é o que vai à missa ao domingo”. Não é. Por outro lado, não são as verdades fundamentais da fé cristã que tornam sejam quem for mau, nem são elas que tornam o cristianismo mau. Acreditar que Jesus é Deus, que nasceu de uma mulher, que ressuscitou, que realizou milagres, etc., não torna o cristianismo mau. Continuar a defender o contrário não tem qualquer fundamento e baseia-se num enorme equívoco.

27 de setembro de 2012

Síntese de textos de Ética



                                                                                                      Kyle Thompson

Etxeberria, Xavier – Temas básicos de ética. 
Bilbao: Desclée De Brower, 2002, pp.13-28
            Xavier Etxeberria apresenta-nos um texto em dois blocos, ensaiando no primeiro uma descrição da sociedade atual (pp. 13-20), deixando o tema propriamente da Ética para o segundo (pp. 20-28). No primeiro bloco, ele destaca três circunstâncias que condicionam o nosso viver e o nosso pensar: a tecnociência, a modernidade e a conflituosidade intercultural.

         A mesma tecnociência que votou a ética a um exílio forçado é hoje a fonte do desejo de regresso. Sublinha o nosso autor a ambiguidade deste apelo: primeiro, a tecnociência não está disponível para depender da Ética no que toca ao ritmo do seu próprio desenvolvimento; segundo, não pretende deixar a Ética escapar à área bem delimitada a que a chamou (meios de prossecução dos fins), evitando dar espaço a que esta questione os próprios fins que norteiam a sua atividade (produção exaustiva, consumo desenfreado, sucesso profissional).

Quanto à modernidade, Etxeberria apresenta-nos três particularidades que a identificam: a secularização (perda da referência religiosa), autonomia (a autodeterminação individual é valor acima de qualquer outro) e o pluralismo (resultado imediato da caraterística anterior). Todos estes campos são, em maior ou menor medida, desafios novos para a ética, e sobre os quais urge trabalhar.

Por fim, sublinha o autor o contexto de globalização em que vivemos, o que faz com que a questão da conflituosidade intercultural adquira novos matizes: além de uma certa uniformização cultural, gerando enriquecimento e perda que merecem atenção, os recorrentes choques de culturas exigem uma mediação moral; outro aspeto a ter em conta é o crescendo da consciência de justiça como resultado da proximidade, o que acarreta o desafio de encontrar as instâncias onde tais expetativas se podem depositar.

           Ao entrar no segundo bloco, é sublinhado o caráter gregário da pessoa, o que implica conjugar os ideais de realização individuais e a convivência com outros. A ética filosófica poderá caracterizar-se por ser uma reflexão sobre o agir moral, sendo aquela extraída da conceção holista onde se encontra, conceção que aglutina perspetivas religiosas, jurídicas e políticas.
            
          O autor enuncia quatro campos onde vale a pena entrar para ver a Ética, adiando o primeiro para momentos posteriores:

Þ    Relação com a religião e com o direito;
Þ    Diversos níveis reflexivos no campo da moral (moral, ética e metaética);
Þ    Relação entre bem e norma (ou desejo e dever, a confluência da afetividade com a racionalidade), de onde os distintos enfoques gerarão, respetivamente, propostas teleológicas, p.e. Aristóteles, deontológicas, por exemplo Kant, ou ainda, a síntese ricoeuriana;
Þ    Um saber prático: não dando indicações concretas de ação, pela reflexão conduz à ação correta, tendo um propósito educacional claro; não sendo dedutiva ou indutivamente demonstrável é, ainda assim, um modo autêntico de saber de carácter argumentativo-interpretativo.