31 de outubro de 2012

Santo Afonso Rodriguez


 

 Santo Afonso Rodriguez nasceu no dia 25 de Julho de 1533, em Segóvia, Espanha. Foi educado pelos padres jesuítas, mas abandonou os estudos, a fim de assumir o lugar do pai, que era um próspero negociante de tecidos. Casou-se aos 27 anos. Sete anos depois já havia ficado viúvo e perdido os dois filhos. Essas perdas desgostaram-no profundamente  e ele perdeu o entusiasmo por tudo, inclusive para os negócios, vindo a falir. Resolveu voltar aos estudos, mas não obteve sucesso. Foi exactamente em meio a esses dissabores que ele reencontrou o caminho de volta para Deus. Em 1571, após um longo tempo de meditação e amadurecimento na fé, Santo Afonso Rodrigues, agora com 38 anos de idade, entrou para a Ordem dos Jesuítas, como irmão leigo.  Foi, então, para Palma de Maiorca onde viveu até o fim de sua vida, como porteiro do colégio. E foi como simples porteiro, vivendo na simplicidade e dedicação ao próximo, que ele fez sua profunda experiência de Deus e viveu intensamente a espiritualidade cristã.  Por ordem de seus superiores, escreveu sobre suas experiências místicas,  e esses escritos, como uma autobiografia, revelam seus valores e limitações. Santo Afonso Rodrigues era um homem simples, amável, humilde, caridoso,  sempre pronto a  servir  e profundamente lúcido. Uma lucidez que não vinha dos livros nem de grandes estudos, mas de Deus. Exerceu seu apostolado entre aqueles que paravam constantemente na portaria do colégio.  Quando tocavam à porta, ele corria para atender como se fosse  o próprio Deus que tivesse tocado a campainha, dizendo alegremente pelo caminho: “Já vou, Senhor!”  A fama de sua santidade atraía muitas pessoas que de longe vinham se aconselhar com ele. Entre os que o procuravam, estava um estudante de filosofia, o futuro santo e apóstolo dos escravos negros, São Pedro Claver. Santo Afonso Rodriguez morreu no dia 31 de Outubro de 1531 e foi canonizado em 1888.

30 de outubro de 2012

Beato Domingos Collins


Beato Domingos Collins nasceu no condado de Cork (Irlanda), na segunda metade do século XVI, previsivelmente no ano de 1566, dez anos depois do ano da morte do fundador da Companhia de Jesus, Sto Inácio de Loiola.
Domingos Collins entrou na Companhia com 32 anos, em 1598, depois de um carreira militar, em França, cheia de sucessos, honras e riquezas. Contudo, a sua opção acabou por ser a de viver de forma simples, imitando a Cristo pela sua entrega em Pobreza, Castidade e Obediência. Foi em Santiago de Compostela, no ano 1600, que este antigo capitão militar professou votos religiosos como irmão da Companhia de Jesus.
Como jesuíta o seu trabalho apostólico foi de curto prazo, mas de um proveito eterno para o mundo. Logo no ano 1601 Domingos voltou para a Irlanda onde foi preso por proclamar a fé católica e, uma vez que quis ser fiel à sua fé, acabou por ser condenado à morte no ano seguinte, em 31 de outubro. Por este testemunho, hoje a Companhia de Jesus celebra a sua Vida!

28 de outubro de 2012

Domingo XXX do Tempo Comum | Bartimeu

Evangelho segundo S. Marcos 10, 46-52
(...) 
Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.»
E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus.
Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» respondeu o cego.
Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.


 
Porque não vejo, grito. 
Restos, sobras, metal, pesado, 
preso com capas; Sento-me à beira.

Quando despir a capa, então irei erguer-me. 
pedirei para regressar e poderei seguir. Verei!

22 de outubro de 2012

A organização espácio-temporal do Homem Primitivo






O entendimento do Homem acerca da natureza e do espaço geográfico foi desde cedo influenciado por uma perceção sobrenatural do mundo, uma alteridade poderosa e terrível que levou ao despertar de um temor religioso, aquilo que Rodolfo Otto denomina de mysterium tremendum, e que veio determinar uma sacralização do Cosmos e consequentemente da postura social. De facto, para o Homem Religioso, o espaço não é homogéneo, há partes do Cosmos, espaços sagrados – o realmente existente - que contrastam com espaços não sagrados, desestruturados e inconsistentes. Esta experiência religiosa perante o mundo permite integrar neste a manifestação do sagrado – hierofania - e fixar um centro, um Axis Mundi, relacionado com a Criação do Cosmos, a Cosmogonia, que permite a passagem para um mundo superior, para uma realidade absoluta. Esta porta estabelece uma continuidade entre o Homem e o Divino e torna-se fundamental para a organização social primitiva estabelecer a orientação das suas habitações, aldeias e templos[1]. O Homem organizará a sua vida em função e em torno deste símbolo sagrado, visto ser esse o espaço “ real por excelência, ao mesmo tempo poder, eficiência, fonte de vida e fecundidade”[2].
            Existe, ainda, uma transformação associada à ocupação de qualquer espaço ou território, um ritual que enforma, que sacraliza o espaço, que o torna real e que se caracteriza pela construção relativa a um arquétipo sobrenatural, um modelo extraterrestre, que se baseia no ato primordial da Criação do Mundo. É a passagem do profano para o sagrado, estabelecendo a ligação entre o Homem e a Divindade criando o acesso à realidade e à eternidade, do Caos ao Cosmos e que se efetua precisamente a partir de um Centro, de um espaço sagrado realizado à semelhança da própria Criação, repetindo uma ação criadora inicial realizada por um herói, um deus ou um antepassado[3].
Nas sociedades primitivas, todos os atos “quotidianos” como a caça, a pesca, a agricultura, a sexualidade, jogos, etc., foram revelados ab origine por deuses ou heróis, Assim a realidade só é atingida pela repetição ou participação de um arquétipo[4]. Ora, a repetição de gestos paradigmáticos confere realidade a um acto e é mesmo nessa medida em que há a abolição implícita do tempo profano na história, pois, aquele que produz o gesto exemplar é transportado para a época mítica original em que esse mesmo gesto foi revelado. Tal facto só se verifica em certos intervalos essenciais em que o Homem é verdadeiramente ele próprio, seja em rituais específicos ou atos sociais relevantes como a caça, a pesca, trabalho, guerras, alimentação etc. O tempo entre estes acontecimentos é desprovido de significado divino.
O Homem arcaico pretende, assim, transformar-se no seu arquétipo original através da repetição. A renovação do tempo, corresponde à abolição do tempo passado, no sentido de purificação ritual do indivíduo e da sociedade em direção um novo nascimento. O novo tempo é a repetição de uma nova Cosmogonia, a repetição do tempo primordial e repetição do tempo da Criação, da Passagem do Caos ao Cosmos[5]. Deste modo a noção do tempo do Homem primitivo, ao depender deste renascimento, renova consequentemente toda a sociedade. 




[1] Cfr ELIADE, Mircea – O Sagrado e o Profano, A Essência das Religiões. Coleção Vida e Cultura, volume 62. Lisboa: Edição Livros do Brasil, p. 58-59. “ Em Bali, tal como em certas regiões da Ásia, quando os homens empreendem a construção de uma nova aldeia, procura-se um cruzamento natural, onde se cortam perpendicularmente dois caminhos. O quadrado construído a partir de um ponto central é uma imago mundi. A divisão da aldeia em quatro sectores – que implica aliás uma partilha similar da comunidade corresponde à divisão do Universo em quatro horizontes. No meio da aldeia deixa-se muitas vezes um espaço vazio: ali se erguerá mais tarde a casa cultual, cujo telhado representa simbolicamente o Céu (em certos casos, o Céu é indicado pelo cume de uma árvore ou pela imagem de uma montanha). Sobre o mesmo eixo perpendicular encontra-se, na outra extremidade, o mundo dos mortos, simbolizado por certos animais (serpente, crocodilo, etc.) ou pelos ideogramas das trevas.
[2] Ibidem, p. 43.
[3] ELIADE, Mircea – O Mito do Eterno Retorno. Coleção Perspetivas do Homem, Volume 5. Lisboa: Edições 70, 1981, pp. 24-25. “ O povoamento de uma nova região, desconhecida e inculta, equivale a um ato de criação. Quando os colonos escandinavos tomaram posse da Islândia, landnáma, e a desbravaram, não consideraram este ato nem como uma obra original nem como uma tarefa humana e profana. Esse empreendimento não significava para eles mais do que a repetição de um ato primordial: a transformação do Caos em Cosmos pelo ato divino da Criação. Ao cultivar a terra desértica, eles efetivamente repetiam o ato dos deuses, que organizavam o caos dando-lhe formas e normas. O que significa que a conquista de um território só se torna real depois do (mais exatamente: pelo) ritual de tomada de posse, que mais não é que uma cópia do ato primordial da Criação do Mundo.
[4] Cfr. Ibidem, pp.17-49.
[5] Idem, p. 91. “ O que importa é que o homem sentia a necessidade de reproduzir a cosmogonia nas suas construções, fossem elas de que espécie fosse, que essa reprodução o tornava contemporâneo do momento mítico do princípio do Mundo e que ele sentia a necessidade de regressar tão frequentemente quanto possível, a esse momento mítico para se regenerar.” 

21 de outubro de 2012

Domingo XXIX do Tempo Comum

 

"Quem entre vós quiser tornar-se grande, será o vosso servo"
                                                                                                Mc 10, 43

19 de outubro de 2012

S. João de Brébeuf, presbítero e Companheiros mártires




Hoje a Companhia de Jesus celebra oito missionários mártires franceses: João Brébeuf, António Daniel, Gabriel Lalemant, Carlos Garnier e Natal Chabanel. Canonizados por Pio XI em 1930.

Dos escritos espirituais de São João de Brébeuf, presbítero e mártir:
Meu amável Jesus, ofereço-Vos desde já, com a mais profunda satisfação espiritual, o meu sangue, o meu corpo e a minha vida, para que não morra senão por Vós, se me concederdes esta graça, já que Vos dignaste a morrer por mim. Fazei que eu viva de tal maneira que mereça alcançar esta graça de morrer tao felizmente. Assim, meu Deus e meu Salvador, tomarei das vossas mãos o cálice dos vossos sofrimentos e invocarei o vosso nome: Jesus! Jesus! Jesus!

16 de outubro de 2012

O declínio do magistério filosófico

"Se a filosofia também entre nós não tem prestigio social, é antes de mais nada porque pensar é dificil"*


 


Quem está para isso?



* António Quadros in Filosofia, Filosofia Portuguesa, filosofia Universal

15 de outubro de 2012

Girard – A Teoria do Bode Expiatório como Origem Social do Religioso




 
Segundo Girard, é algo tão primitivo como a violência e a atitude mimética que produz algo tão extraordinário como a crença no sobrenatural ou numa entidade particular transcendente e a consequente relação com o sagrado, individualmente e como sociedade. De facto, para o filósofo/ sociólogo francês, é o sacrifício de vítimas expiatórias que origina o fundo religioso subjacente às comunidades humanas.
 No Homem Primitivo, a mimesis é a força originária do comportamento humano, como raiz indicativa da vertente animalesca do Homem, sobretudo pela evolução natural dos símios, e é também donde brota o que mais instintivo e irracional há no Ser Humano – a violência pela posse, isto é, pelo poder[1]. Ora, paradoxalmente, embora este tipo de atitude leve aparentemente à desagregação da comunidade, consequência de cada indivíduo proteger o que lhe é próprio, ao contrário da divisão esperada, há a convergência da violência para um único individuo, isto é, há “a passagem da mimesis de aquisição (suscitando a violência interna de todos contra todos) à mimesis de antagonismo (agressão de todos contra um) ”[2].
O que no início é a escolha arbitrária e pontual de uma vítima para perseguir, expulsar e matar, no sentido de expurgar “males” de dentro da comunidade, torna-se numa situação repetida, que consequentemente levará à questionação do homem, sobretudo perante o cadáver, resultado da sua ação como comunidade. Esta crise de violência e a sua resolução produzem mais efeitos representativos na medida em que levam a uma deturpada representação de uma vítima por parte do grupo, para a crença na sua culpa e posteriormente para um incrível reconhecimento de paz consequente ao assassínio coletivo. Deste ponto, parte a tendência primordial do Homem para a transcendência e para a influência direta desta na sociedade e na ação humana, pois perante a vítima morta, a violência cessa e no espírito do Homem surge a relação entre a morte de um homem e os benefícios associados a essa mesma morte, conduzindo a uma vida post mortem, à imortalidade, à possibilidade da existência de algo não mecânico, não imanente, mas uma entidade superior[3]. Surgem uma série de crenças e atitudes que dizem respeito à responsabilidade da vítima e aos poderes sobrenaturais (como causa e cura da crise) e daqui resulta a fundação do sagrado e consequentemente também a fundação da ordem social correta[4].
A sociedade primitiva tenderá a repetir temporalmente esta associação criminosa, sendo a expressão mais clara desta violência original, adaptada ao mecanismo religioso, o sacrifício, concebido como um ritual social. “ Se a maior parte dos ritos conduzem a um sacrifício ou imolação é porque eles procuram repetir ou imitar um homicídio coletivo originário”[5] e assim “ a lógica sacrificial converte-se aqui num mecanismo de auto-regulação social com a finalidade de preservar o equilíbrio e a finalidade do sistema, o seu total fechamento. Poderíamos, sem exagero, considerar as sociedades dominadas pelo sagrado como ‘sociedades contra a história’. A defesa da face da mimesis nos rituais, levada ao extremo na sua dimensão social-histórica converte-se em repetição, em tentativa de anulação violenta do tempo como criação”[6]. Neste sentido, a violência actua como factor de coesão social e partindo desta coesão social projectada na vítima, o Homem chega ao transcendente, ao sagrado.


[1] Cfr. Livingstone, Paisley – “Girard and the Origin of Culture”, in VARELA, Francisco J. ; DUPUY, Jean-Pierre – Understanding Origins. Dordrecht; Boston; London: Kluwer Academic Publishers, 1992, p.94. “The natural emergence or evaluation of primates, their social order is regulated by instinctual behavioral patterns, and above all else, by patterns of dominance and submission”.
[2] COSTA, J.M. Dias – O Desejo como História, O sentido da Cultura Humana em René Girard. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia – Universidade Católica Portuguesa, 2005, p.108.
[3] Cfr. Ibidem, p. 112.
[4] Cfr. Ibidem, p.101.
[5] Ibidem, p. 112.
[6] Ibidem, p.154.