24 de janeiro de 2013

Espinosa - “Um homem Ébrio de Deus”



O prefácio do livro V da Ética fala-nos da via que conduz à liberdade, abordando Deus como termo de um processo de salvação que é dado alcançar aos homens, que culmina no “Amor intellectualis Dei”, a meta suprema da realização intelectual e ética. Neste ponto atinge-se a beatitude, convergência das paixões e dos afetos[2]. Esta ideia abre-nos para a dimensão amorosa de Deus, ultrapassando um plano meramente intelectual. Ao vermos os nossos afetos através de Deus é ter deles um conhecimento claro e distinto que nos introduz no Amor Divino. Neste seguimento Espinosa afirma que “Aquele que se compreende a si mesmo e às suas afeções clara e distintamente alegra-se e isto com uma alegria acompanhada da ideia de Deus”[3]. Espinosa, não abdica da sua conceção de Deus impessoal, rejeitando a reciprocidade na relação Homem-Deus[4].
Se Deus é identificado com a Natureza, nem por isso devemos abdicar do recolhimento, respeito e beatitude que habitualmente concedemos à divindade. São a filosofia e a ciência intuitiva em associação que nos levam ao conhecimento que se revela na Natureza através da ordem e conexão dos fenómenos e que é a mais alta realização do homem, levando o homem a participar na plenitude divina, integrando o amor com que Deus se ama a si mesmo como é afirmado na proposição XXXVI: “O Amor intelectual da Alma relativamente a Deus é o mesmo amor de Deus, com que Ele se ama a si mesmo, não enquanto é infinito, mas enquanto pode explicar-se pela essência da Alma humana, considerada do ponto de vista da eternidade; isto é, o amor intelectual da Alma relativamente a Deus é parte do amor infinito com que Deus se ama a si mesmo”[5]. O Deus-Natureza é complementado por um Deus Glória em cujo homem tem lugar e pode participar.




[1] Atribuída a Novalis.
[2] Cfr. Ética V, Proposição XIV.
[3] Ibidem V, Proposição XV, Demonstração.
[4] Cfr. Ibidem V, Proposição XIX.
[5] Ibidem V, Proposição XXXVI.

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