3 de janeiro de 2013



Higgs põe os pontos nos iis a Dawkins… e a Krauss

1-O cientista Peter Higgs, que se tornou famoso pela recente provável descoberta da partícula que tem o seu nome, criticou abertamente o fundamentalismo anti-religioso de Richard Dawkins. Não é a primeira vez que a militância ateia de Dawkins em nome da ciência tem sido considerada fundamentalista não apenas por crentes mas também por outros cientistas, muitos deles não crentes, como é o caso de Higgs. 

2-Numa recente entrevista ao jornal El Mundo, de que dá conta o jornal britânico The Guardian (26.12.12), Higgs afirmou: “O que Dawkins faz demasiadas vezes é concentrar os seus ataques nos fundamentalismos. Mas há muitos crentes que não são fundamentalistas. O fundamentalismo é um problema diferente. Considero que Dawkins é, de certo modo, ele próprio praticamente um fundamentalista de outro género.

3-Uma das bandeiras de Dawkisn é a afirmação repetida até à exaustão, de que há uma incompatibilidade entre ciência e religião. Higgs coloca a questão de um modo radicalmente diferente e mais próximo da realidade: “A melhoria da nossa compreensão do mundo através da ciência enfraquece algumas das motivações que levam as pessoas a serem crentes. Mas isto não é o mesmo que dizer que ciência e religião são incompatíveis. O que me parece é que algumas das razões tradicionais para se ser crente e que duram há milhares de anos, ficam sem fundamento… No debate entre ciência e religião há que ter mais cuidadoso do que algumas pessoas têm tido no passado.”
Segundo o De Guardian, “Dawkins não respondeu a um pedido para comentar directamente a acusação de ‘fundamentalista’ feita por Higgs.

4-Já em 2007 Dawkins teve que se defender no seu website desta acusação, com um texto intitulado “Como se atreve a chamar-me fundamentalista?” No primeiro dia do corrente ano o autor viu-se de novo obrigado a responder à mesma acusaçao de fundamentalista, desta vez por ter afirmado numa recente entrevista à televisão ‘al-Jazeera’ que para uma criança, ser educada como Católica é pior do que ser abusada sexualmente por um padre. As palavras de Dawkins foram objecto de um artigo no jornal britânico Daily Mail que provocou uma tal reacção negatva nas redes sociais, que o autor se viu obrigado a defender-se no seu website.Dawkins já tinha afirmado algo parecido no seu livro The God Delusion (2006), e justificou agora a sua posição com uma carta recebida de uma senhor americana que lhe falou neste sentido da sua experiência pessoal. O que teria concluído Dawkins se uma outra senhora lhe tivesse escrito uma carta relatando uma experiência oposta?

5-O fundamentalismo de Dawkins tem porém alguns admiradores entre os cientistas. Talvez o mais conhecido seja Lawrence Krauss, qu enão perde um aoportunidade para atacar a religião em nome da ciência. Isto mesmo foi o que aconteceu em Julho passado, por ocasião da provável descoberta do bosão de Higgs. Num texto publicado na revista Newsweek Magazine (9 Julho 2012) Krauss afirmou, referindo-se ao bosão de Higgs: “Os seres humanos, com as suas espantosas ferramentas e os seus fantásticos cérebros, talvez tenham dado um passo de gigante na substituição da especulação metafísica pelo conhecimento empiricamente verificável. A partícula de Higgs é agora provavelmente mais relevante do que Deus”.

Falta saber o que pensa Higgs desta afirmação de Krauss, se ela chegou ao seu conhecimento. Pelo que disse acerca de Dawkins, não é difícil adivinhar que também a Krauss poria os pontos nos iis.

Krauss parece querer competir com Dawkins para se tornar o porta-voz do ateísmo mundial em nome da ciência.


7 comentários:

Vasco Gama disse...

Existe uma incorrecção de fundo que era bom esclarecer. Embora eu não conheça se Higgs professa alguma religião, a mim quer-me parecer que não, de acordo com esta sua citação. A questão da incompatibilidade entre ciência e religião apenas é levantada por ignorância (ignorância sobre ciência e/ou religião) ou fanatismo (o que parece ser os casos de Krauss e Dawkins). Desde o início do século XX que, em geral, a comunidade científica (entendida como a maior parte dos cientistas) não reconhece existir incompatibilidade entre ciência e religião (havendo sempre alguém que discorde). A ciência, que existe hoje em dia, é o resultado do estudo da humanidade sobre a realidade a que se tem acesso (em particular nos últimos dois séculos), acontece que a escala da existência humana, quer em termos espaciais como temporais é bastante limitada e a compreensão do mundo que a ciência conseguiu produzir é fragmentada, limitada e apenas é rigorosa em situações muito simples. O aumento do conhecimento inerente à actividade científica é que com o aumento da compreensão da natureza também aumenta a percepção do que ainda há para conhecer (e do que nunca se vai conhecer), o que faz com que de uma maneira geral os cientistas sejam cautelosos e as afirmações aberrantes de Dawkins (e companhia) não são representativas. Um dos casos curiosos é a hipótese do “big-bang”, que se trata de uma hipótese (não provada), que é geralmente aceite porque não existe uma explicação que faça mais sentido com os dados actualmente disponíveis, ou seja não há maneira de dizer que o big-bang foi um facto, simplesmente não há acesso a esse facto. Também não há uma compreensão clara dos primeiros momentos do big-bang, por parte dos defensores desse modelo, nem há maneira de saber. Aparentemente esses momentos são inacessíveis e apenas se podem tentar especular. Também há regiões do espaço que são inacessíveis (e o que diz respeito a essas regiões é especulativo, porque não existe qualquer observação ou evidência). Higgs parece ser uma pessoa moderada e, a meu ver apenas reagiu aos excessos grosseiros de Dawkins.
Mas quando Higgs diz: “O que me parece é que algumas das razões tradicionais para se ser crente e que duram há milhares de anos, ficam sem fundamento…”, a minha impressão é que esta sua opinião podia ter alguma realidade há algumas centenas de anos, mas hoje parece-me razoavelmente absurda.

alfredo dinis disse...

Caro Vasco,

Não sei em que dados se baseia para dizer que dizer que os cientistas que vêem incompatibilidade entre ciência e religião são uma minoria. Temos que fundamentar as nossas afirmações.

Também não sei se tem acompanhado as novas teorias sobre a origem do universo. É um campo que está a ter desenvolvimentos interessantes.

Finalmente, Higgs poderá estar a pensar em crenças religiosas como a criação do mundo em seis dias ou a origem da Humanidade no paraíso terrestre com Adão e Eva.

Cordiais saudações.

Alfredo Dinis,sj

Vasco Gama disse...

Caro Alfredo Dinis,

De facto não possuo uma estatística sobre o assunto. Estou a falar do que eu conheço, a maior parte dos cientistas (que eu conheço) ou cujas opiniões sobre o assunto são públicas têm esta opinião. O que se pode relacionar com o facto de a ciência não ser capaz de fazer prova sobre a existência ou inexistência de Deus. Mesmo do ponto de vista de uma religião como a igreja católica a possível prova da existência de Deus em si mesmo é um absurdo, que seria incompatível com o livre arbítrio que foi concedido ao homem.

Aqui tenho de reconhecer que alguns equívocos a respeito da "incompatibilidade entre ciência e religião" também pode vir de alguma ignorância sobre religião, nomeadamente entre as gerações mais recentes, que por não terem tido uma formação religiosa, possam aceitar toda e qualquer mito sobre a religião, que vagamente possa parecer ter sentido.

Quanto à opinião de Higgs, que menciona, julgo que ele poderá estar a referir-se ou ao mundo do passado ou à ignorância de algumas pessoas. Mas não creio que esse tipo de opiniões sobre a criação do mundo seja levado a sério por muita gente.

alfredo dinis disse...

Caro Vasco,

Não acredita que as ideias sobre a criação do mundo em seis dias sejam levadas a sério por muita gente. Parece-me que é isso que diz Higgs: argumentos que duraram muitos séculos foram em geral abandonados. Contudo, há ainda muito debate, sobretudo em Inglaterra e nos Estados Unidos sobre se o criacionismo deve ou não ser ensinado nas escolas, juntamente com o evolucionismo.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Vasco Gama disse...

Caro Alfredo Dinis,

Não me parece que Higgs se estivesse a referir aos criacionistas (que até é uma coisa bastante recente). Para mim Higgs, apenas se insurge contra o fanatismo ateu do Dawkins.

Para mim, continua a ser aberrante a afirmação de Higgs:
"A melhoria da nossa compreensão do mundo através da ciência enfraquece algumas das motivações que levam as pessoas a serem crentes"

A única coisa que posso concluir é que provavelmente Higgs não tem um conhecimento adequado sobre religião, ou o que leva as pessoas a professarem uma religião.

alfredo dinis disse...

Caro Vasco,
O criacionismo foi a posição dos Cristãos até ao século XX. E creio que a maioria ainda não mudou, embora isso raramente se discuta pelo menos nos países mais tradicionais.
É o que me parece.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Vasco Gama disse...

Caro Alfredo Dinis,

Provavelmente terá razão, deve conhecer as pessoas melhor do que eu. Eu estava convencido que não era assim, desde pequeno estava convencido que o que estava escrito no antigo testamento tinha um carácter sobretudo simbólico e não era factual, de resto durante a educação religiosa da minha meninice (que foi bastante tradicional) não se dava muita atenção ao Antigo Testamento, e nunca dei conta da possibilidade dessa percepção, sempre considerei que a cosmologia que vem descrita na bíblia seria a possível para ser entendida por qualquer pessoa (ou seja incluindo as pessoas com uma "cultura" mais primitiva, que altura eu supunha que teriam vivido à milhares de anos). Já na altura me fazia confusão algumas coisas que vinham mencionadas no Antigo Testamento, mas tenho de confessar que nunca aprofundei o assunto.

Talvez, hoje em dia, faça sentido, durante a catequese dar uma perspectiva mais actual da cosmologia e da evolução de modo a não dar origem a equívocos. Mas tenho de confessar que neste aspecto não é simples, uma vez que mesmo as teorias actualmente aceites são sempre um pouco especulativas (pelo que o grau de incerteza das ideias sobre a realidade do passado é sempre elevada).

Os meus cumprimentos

Vasco da Gama