25 de janeiro de 2013

"Rabo de Peixe Sabe Sonhar"

Não sei se já sabiam, mas “Rabo de Peixe Sabe Sonhar”. E passo a explicar…

“Rabo de Peixe” é o nome duma pequena vila situada no arquipélago dos Açores. Em concreto, na costa norte da ilha de São Miguel (o aeroporto de “Ponta Delgada” fica a não mais de vinte minutos de carro). Ora bem, “Rabo de Peixe” é –estatisticamente- uma das aldeias mais pobres de Europa. Possivelmente, a mais pobre de Portugal. 


A quê se deve esta desonrosa distinção? A um índice de natalidade altíssimo, e a uns recursos económicos baixíssimos. Ambas variáveis fazem com que a quantidade de alimento que chega a cada boca seja insuficiente. Passa-se fome em “Rabo de Peixe”.

Mas não é esta a única carência dos “rabopeixenses”. Há outras. A escolarização é descontínua, o que repercute gravemente na educação das crianças. A saúde vê-se fragilizada pelas inclemências do mar. A sociedade local inculca valores que nem sempre humanizam as vidas dos seus habitantes.
Mas, para além da educação, da saúde, e da sociedade, há outro sinal de pobreza. Se calhar, o mais cruel de todos. É a pobreza de futuro. É como se o céu cinzento ameaçasse vendavais de nada. É como se as ondas do oceano pretendessem afogar os sonhos dos “rabopeixenses”. Mas não. Como já anunciei no início: “Rabo de Peixe Sabe Sonhar”. E a colónia de verão faz parte desse sonho. Um sonho tremendamente real, pois se repete cada ano.

Mais de duzentos e cinquenta rapazes e raparigas, de todas as idades, desfrutam desta colónia. Durante quinze dias do mês de Julho. Mas, quem é que se atreve a lidar com estes malandros? Quem é que anima e cuida destas crianças e jovens? Outros jovens, jovens universitários. São várias dezenas de voluntários, na sua maior parte ligados aos Centros Universitários da Companhia de Jesus em Portugal. O projeto “Rabo de Peixe Sabe Sonhar” nasceu por iniciativa dum grupo de jesuítas novos, há já mais de oito anos.

Esta colónia de verão consolida-se, cada vez mais, como autêntico investimento de futuro para estes miúdos. Sonham futuro. Sonhamos com eles. Esforço e sonho é partilhado por diferentes irmãs católicas. Em concreto, “Criaditas dos Pobres”, “Escravas do Sagrado Coração de Jesus” e “Missionárias da Caridade”. Mas também por uns párocos diocesanos da ilha, e por montes de leigos e leigas benfeitores no continente.

Agora, e depois desta explicação mais breve que completa, gostava de revelar dois segredos deste projecto (segredos confessáveis). Duas palavras apenas: “cooperação” e “mediação”. Sem “cooperação” e sem “mediação”, de nada vale qualquer esforço. Seria como se o sonho se estilhaçasse.

Em “Rabo de Peixe” há uma evidente necessidade estrutural. E, quando há uma necessidade estrutural destas características, é urgente cooperar. Não de qualquer maneira: para cooperar bem é fundamental “querer cooperar”. Este “querer cooperar” define o voluntário.

Mas, cooperar, ainda que de forma adequada, não traz resultados imediatos. Não se conseguem soluções instantâneas. Antes pelo contrário, inauguram-se caminhos de modificação. E percorrer esses caminhos levará tempo. Estas mudanças estruturais exigem paciência… e fé. Aparece assim o valor da mediação. É importantíssimo “saber-se mediação”. No caso contrário, podemos cair na tentação de achar que a solução depende de nós. Mas, não: somos simples “mediação” rumo a um horizonte melhor. Este “saber-se mediação” define o voluntário.

Portanto, “querer cooperar” e “saber-se mediação” são requisitos do voluntário. Do voluntário e não só. Também de todo aquele cristão e pessoa de boa vontade que se compromete com uma causa social em Igreja.

Recordo, para acabar, um lema de Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus. Lema inspirador e oportuno para este tema. “Trabalha como se tudo dependesse de ti, sabendo que tudo depende de Deus”. “Rabo de Peixe Sabe Sonhar” quer cooperar e sabe-se mediação. Mas também reza. Assim, eu realmente sinto que, também em “Rabo de Peixe”, Deus sabe ser Deus connosco.

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