27 de janeiro de 2013

Totemismo – A religião como Experiência Social na perspectiva Durkheimian




 

Para Durkheim, a religião, é antes de mais um “fenómeno social”. Esta intuição nasce com base na observação de tribos Australianas, que para o sociólogo francês são as que melhor apresentam as características típicas do totemismo (embora este tenha sido descoberto em primeiro lugar nas tribos Índias da América do Norte) e as que apresentam maior segurança nos dados científicos: são completamente homogéneas e embora apresentem variáveis entre si, estas tribos têm uma estrutura social comum.[2]Por outro lado, o autor defende que esta é a mais primitiva forma de religião que se pode encontrar, contendo nesta, elementos comuns a todo o fenómeno religioso.
            A maior parte destas Tribos Australianas apresentam-se sustentadas por uma estrutura base: o clã. Os indivíduos que compõem este grupo não se consideram próximos por terem algum tipo de parentesco, por serem pais, filhos, primos, etc., uns dos outros, mas por possuírem o mesmo nome, no sentido em que o grupo a que pertencem está ligado indelevelmente como uma família por responder igualmente perante a mesma palavra que os define, o totem, com o qual têm uma relação visceral.
Apoiando-se na obra Native Tribes de Howitt[3], Durkheim revela que são descritos mais de 500 totem    entre as Tribos do Sudoeste Australiano, sendo que entre estes só aproximadamente 40 não são nomes de plantas ou animais e, curiosamente, destes muito poucos são corpos celestes[4].
Seja como for a forma totémica, Durkheim, defende que a sua escolha depende mais da organização do clã propriamente dita do que da religião em si, ou seja, a escolha desta entidade é sociológica, e consequentemente, o que dita a penetração do homem no transcendente é a sua rede social/ relacional. Por isso o totem não é somente um nome, mas um emblema distintivo, como um brasão ou um escudo. Ora, este emblema não é simplesmente um elemento decorativo ou um objecto profano de identificação e apreciação, como parecem aparentar certas pinturas no corpo, ou mutilações e outras marcas que servem para aproximar o membro ao seu totem, mas, pelo contrário assumem uma inclinação sagrada, como por exemplo a utilização de certas pinturas corporais, tatuagens, e outras, que são usadas em certas cerimónias religiosas sendo uma parte integrante da liturgia. Deste modo, para além de criar um laço colectivo, o totem é acima de tudo a referência do sagrado para o clã, pois a diferença entre este e o profano a ele remetem: o totem é em si, o arquétipo do sagrado.[5]
 Toda a representação do totem é, mais que uma simples imagem relativa, um ser real, que desperta no Homem o sentimento religioso. Estas representações são normalmente animais ou plantas que por serem elementos sagrados não são passíveis de entrar na alimentação do clã, excepto em certas ocasiões, nomeadamente rituais sagrados. O sacrilégio de profanar estes seres sacralizados é punível com a morte instantânea[6]. Os únicos que não são abrangidos por estas restrições são em certos casos os anciãos da tribo ou outros com cargo religioso[7]. (Repare-se que o autor aponta aqui elementos comuns a todas as religiões, a diferença entre o sagrado e o profano, as leis morais que começam a surgir sob formas de proibições).
Como referido anteriormente, o totemismo é dominado pela noção de um princípio quase Divino imanente a certos elementos animais, vegetais ou outros. Ora, como conceberia o Homem primitivo qualquer ser transcendente a partir destes seres tão familiares ao quotidiano? Como é que se produz na consciência deste mesmo Homem o sagrado associado a estes objetos? De facto, alguns destes seres, não despertam o espanto ou o terror de certos fenómenos atmosféricos como o trovão ou a chuva, pois, aparentemente, são perfeitamente banais. Durkheim defende que não é a coisa em si que é a causa do culto que se gera no totemismo, caso contrário seria esse mesmo objeto o Ser Sagrado por excelência, mas é aquilo que é representado por ele, ou seja, é a quem ele remete o que possui o valor máximo e não os objetos reais que não são senão um reflexo da coisa em si. Daqui de conclui que o totem não é mais que um símbolo, a expressão material, por um lado, de um princípio divino totémico e por outro da sociedade determinada que é o clã, a marca distintiva em relação a outras comunidades. Deste modo, o divino associado ao totem pode ser considerado como a marca identitária do próprio clã em si, o símbolo simultaneamente divino e social[8]. De facto, a sociedade tem tudo para despertar nos espíritos humanos a crença no sobrenatural ou no transcendente, na noção de algo que é superior a si – um principio Sagrado – que dita a forma de vida e está em contacto com o Homem crente e perante o qual este assume um sentido de dependência que o projecta no Sagrado, o qual serve através de diversos ritos, muitas vezes sacrificiais, e outras acções muitas vezes contrárias à sua própria natureza humana. A própria sociedade, sendo divinizada, atua como uma autoridade moral, que força o comportamento do Homem numa determinada direção, individualmente e colectivamente através de cerimónias religiosas e rituais.
São estas mesmas cerimónias rituais que provocam a separação da vida das sociedades australianas em duas fases distintas: uma em que o clã se encontra separado, ocupado nas tarefas quotidianas implicadas sobretudo na obtenção de alimentos, uma fase devotada à economia, sombria, ausente de manifestações de efusividade e paixão e uma outra fase em que os elementos da comunidade se congregam num determinado espaço por um determinado período, onde se realizam determinadas cerimónias religiosas, provocando no individuo um excitamento descontrolado, entrando o Homem numa espécie de transe animalesco e muitas vezes violento. Este tipo de acontecimentos, estes ritos que representam as mais primitivas formas de manifestação religiosa, como o demonstra a descrição de uma festa que os Warramunga costumam celebrar em honra da serpente Wolunqua[9], são de grande importância no contexto social ao dividir o mundo e o tempo entre o sagrado e o profano. É, segundo Durkheim, nestes ambientes que terá surgido o sentimento religioso.
Ora, como o clã terá despertado nos seus membros a ideia do religioso tem que ver com o facto de o totem ser um emblema. De facto, a ideia de um determinado objeto e o seu significado, imprimem no Ser Humano um determinado sentimento como se ambos estivessem sempre indelevelmente ligados.[10] A coisa representada é sempre mais abstracta para o espírito, por isso o símbolo que a representa, mais simples, torna-se mais facilmente entendível e por isso mais próximo do indivíduo. O totem é exactamente este símbolo da comunidade que congrega em si toda a teia complexa de relações dentro do clã, tornando este último uma unidade concreta, superior a qualquer um dos indivíduos e que se projeta num objeto que de facto está presente à sua volta. Neste objeto, comum a todo o grupo, porque próximo de todos os elementos do grupo, estão congregados todos os sentimentos da comunidade, tornando-se deste modo, ponto de convergência e fundamento sócio-identitário da mesma, permanente geração sobre geração, sendo claro que só dele podem emanar as forças misteriosas que emocionam os elementos do grupo e que será objecto de culto consoante seja necessário aplacar ou provocar as estranhas energias que parecem emanar de si.
Como o princípio totémico é o próprio clã, pois a entidade transcendente que aparece como externa ao Homem, este só se pode realizar através dele, que se torna imanente ao próprio clã. É isto que sacraliza o próprio Homem e a sociedade em que vive, o que necessariamente transforma a religião num fenómeno social. O totem não é outra coisa senão o clã representado materialmente[11].
O Sociólogo Francês postula portanto, que não há sociedade sem religião e que no fundo esta última potencia a sociedade. De facto, no Homem primitivo, a moral social e a religião sobrepõe-se, pois as pessoas encontram-se vinculadas por padrões de comportamento e atitudes, sobretudo rituais, que através dos símbolos a eles associados, indicam claramente a força mobilizadora da religião que confere sentido à vida humana como ser social. Assim a religião é algo conatural à formação e manutenção das comunidades primitivas[12].


[1] Este capítulo é baseado na tese de Durkheim, tendo consciência das críticas a ele dirigidas por outros autores como Goldenweiser, Wilhelm Schmidt e Robert Lowie. Apesar disso, dada a importância do autor como sociólogo e o facto de considerar a religião um fenómeno social, penso que esta monografia fica mais completa com a sua tese.
[2] DURKHEIM, Émile – Les Formes élémentaires de la vie religieuse. Paris: Presses Universitaires de France, 1968, p.135. “ Voilà pourquoi […], nous nous proposons de limiter notre recherche aux sociétés australiennes. […] Elles sont parfaitement homogènes; bien qu’on puísse discerner entre elles des variétés, elles ressortissent à un même type. L’homogénéité en est même si grande que les cadres de l’organisation sociale non seulement sont les mêmes, mais sont désignés par des  noms ou identiques ou équivalents dans une multitude de tribus, parfois três distantes les unes des autres.”  
[3] Cfr. Ibidem, p.145.
[4] Repare-se que a religião evolui no sentido de tomar como objectos sagrados precisamente os astros, como o Sol, a Lua, Estrelas ou os fenómenos atmosféricos como o trovão.
[5] Cfr. Ibidem, p.167.
[6] Cfr. Ibidem, p.181.
[7] P.184. “Les vieilliards, les personnages qui sont parvenus à une haute diginté religieuse sont affranchis des interdits auxquels est soumis le commun des hommes: ils peuvent manger de la chose sainte parce qui’ils sont saints eux-mêmes”.
[8] Ibidem, p.295. “ Comment l’emblème du groupe aurait-il pu devenir la figure de cette quasi-divinité, si le groupe et la divinité étaient deux réalités distinctes? Le dieu du clan, le príncipe totémique, ne peut donc être autre chose que le clan lui-même, mais hypostasié et represente aux imaginations sous les espèces sensibles du végétal ou de l’animal qui sert de totem.”
[9] TORRES, Flausino – Religiões Primitivas. Biblioteca Cosmos. Lisboa: Edições Cosmos, 1944, pp.48-50. “Segundo o cerimonial usado pelos Warramunga, tomam parte na festa representantes das duas fratrias, uns na qualidade de oficiantes, outros como preparadores e assistentes. Somente os da fratria Uluuru têm categoria para celebrar o rito; mas são os da fratria Kingilli que devem decorar os actores, preparar o local e os instrumentos, e desempenhar o papel de assembleia. São estes, portanto, os que são encarregados de confeccionar, antecipadamente, com areia molhada, uma espécie de montículo, no qual é feito, com penas vermelhas, um desenho que represente a serpente Wolunqua. A cerimónia só principia depois de começada a noite. Pelas dez ou onze horas chegaram Uluuru e Kingilli; sentaram-se na pequena elevação e puseram-se a cantar. Estavam todos num evidente estado de superexcitação. Um pouco mais tarde chegaram as mulheres dos Uluuru, que estes entregaram aos Kingilli, com quem estes tiveram relações. Depois entraram os jovens recentemente iniciados, aos quais foi explicada toda a cerimónia, com todas as minúcias; até às três horas da manhã, os cânticos continuaram sem interrupção. Teve então uma cena de um frenesim verdadeiramente selvagem. Enquanto as fogueiras acesas por todos os lados faziam ressaltar a brancura dos gomeiros num fundo de escuridão, os Uluuru ajoelharam-se uns atrás dos outros, ao lado do montículo, e começaram a andar à sua roda, erguendo-se do chão com as mãos apoiadas nas coxas, para depois se ajoelharem mais à frente, e assim por diante. Ao mesmo tempo, inclinavam o corpo para a direita e para a esquerda, alternadamente, acompanhando cada movimento com um grito estridente, verdadeiro urro – yrrsh! Yrrsh! Yrrsh! Entretanto, os Kingilli, num estado de grande exaltação, batiam com os bumerangues uns contra os outros; o seu chefe estava ainda mais agitado que os companheiros. Dadas duas voltas à roda do montículo, os Uluuru abandonaram a posição de ajoelhados, sentaram-se e puseram-se a cantar. Por momentos, a intensidade do canto parecia afrouxar um pouco, mas, pouco depois, bruscamente, voltava à primeira fase. Quando começou a fazer-se dia, todos se puseram de pé. Uma vez atiçadas as fogueiras que estavam, quase apagadas, os Uluuru, excitados pelos Kingilli, atiraram-se furiosamente ao montículo e em poucos minutos desfizeram-no com bumerangues, lanças e paus. As fogueiras extinguiram-se e tudo caiu em profundo silêncio.”
[10] DURKHEIM, Émile – Les Formes élémentaires de la vie religieuse. Paris: Presses Universitaires de France, 1968. “ Le noir est pour nous le signe du deuil; aussi nous suggère-t-il des impressions et des idées tristes”.
[11] Ibidem, pp.314-315.
[12] Cfr. MARDONES, J.M. – “Sociologia del Hecho Religioso”, in FRAIJÓ, Manuel – Filosofia de la religión, Estúdios y textos. Madrid: Editorial Trotta, 1994, pp.136-137.

3 comentários:

Carlos disse...

Um post com uma nota de rodapé quase tão grande como o próprio post é um convite à não leitura. De qualquer forma, parabéns pela dedicação no trabalho.

Anónimo disse...

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