5 de fevereiro de 2013

.Ser recebido sem querer.



“O génio e o apóstolo”, de Soren Kierkegaard, é uma obra do filósofo dinamarquês que trata da diferença entre querer e receber, isto é, da diferença entre uma acção volitiva e uma passividade activa. Quem quer alguma coisa vive num estado de excitação que só se poderá satisfazer no momento em que a tal coisa desejada seja adquirida. Quem, pelo contrário, vive em atitude de recepção, manifesta uma atitude de conformidade para com o recebido. Contraponho a ânsia do querer à conformidade (nunca conformismo) do receber, sem por isso afirmar que o facto de desejar seja pior do que aquele de receber. Porém, quem recebe experimenta em si um sentimento que o põe em acção. O recebido suscita uma reacção em quem recebe. Receber dinamiza. Mas quem quer tende para a inactividade. As energias da vontade esgotam-se a medida que o objecto desejado não é alcançado. Mas, ainda pior, mesmo alcançado, afoga-se a vontade. O facto de querer acaba por paralisar o sujeito que deseja. Resumo esta minha impressão nas noções de “parálise do desejo” e de “dinâmica do recebido”. Afirmo que não há nada mais gratificante do que ser recebido sem querer.


Vê-se isto acontecer claramente com algo tão complexo como é o amor. Um amor desejado mas não atingido acaba por frustrar o sujeito, mas um amor recebido sugere mais amor. Mas não queria adoçar demasiado este comentário. Apenas proponho-me defender que é bastante mais saudável viver em chave de agradecimento do que em chave de queixa. Quem sistematicamente se queixa só pode ficar cada vez mais triste, quem continuamente agradece só pode tender a uma alegria mais plena. A exigência continuada entre pessoas quebra relações e fecha corações. A gratuidade, porém, gera laços de empatia porque surge do descentramento do sujeito. A satisfação jamais está posta em mim, na insignificância do meu “eu”, mas no outro, na grandiosidade de quem não é “eu”. Só dando relevância a esta lógica é que é possível preferir a humildade à soberba, pois esta última envilece a própria imagem deteriorando-a, ao tempo que a primeira a humaniza num exercício de sinceridade. 
Não quero receber, pois isso é querer; mas opto por receber, com simplicidade, o facto de receber.

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