5 de março de 2013

o sentido da vida



Um leitor não crente leu com atenção a obra Educação, Ciência e Religião, que publiquei na Gradiva juntamente com o Prof. João Paiva, e fez alguns comentários pertinentes. Partilho com os leitores deste blogue alguns desses comentários bem como os meus esclarecimentos. A azul passagens do livro.

Comentários específicos à Introdução -1

Comentário  - “A religião trilha caminhos para a questão do sentido da vida.”
Na minha opinião a religião dá, para a maioria das pessoas, uma saída rápida e confortável para o sentido da vida, evitando a reflexão profunda. Acredito que há formas mais sérias, honestas e corajosas de abordar os temas existencialistas.  Nem todas as respostas implicam dar um sentido à vida. Eu acredito que a vida não tem que ter sentido, existe e pronto. No entanto sinto, como é óbvio, necessidade de acalentar as minhas ansiedades existencialistas.

Esclarecimento  – É muito comum a ideia de que a religião é um analgésico  para os que não têm a coragem de enfrentar de caras os problemas e as dificuldades da vida. É possível que para algumas pessoas crentes esta seja a dimensão principal que procuram na religião. Mas procurar o sentido da vida na religião não coincide necessariamente com uma experiência religiosa fácil, antes pelo contrário. Muitos milhares de missionários crentes, incluindo muitos leigos, por exemplo, procuram o sentido da sua vida no serviço aos mais pobres e doentes, muitas vezes em países subdesenvolvidos, num serviço gratuito, não propagandeado na abertura dos telejornais, muitas vezes em situações de risco da própria vida. Dar a vida pelos outros é para muitos cristãos uma forma de dar sentido à sua vida, e isto nada tem a ver com “uma saída rápida e confortável”. Que haja formas mais sérias e honestas de abordar o sentido da vida para além de dar a vida pelos outros, duvido. Que haja muitas formas de procurar o sentido da vida fora da religião, não duvido. A generosidade e a solidariedade, por exemplo, não são de forma alguma monopólio dos crentes.
                A ideia de que a vida, tal como o universo, não tem qualquer sentido – ambos “existem e pronto” – tem muitos seguidores, e até tem uma designação. Chama-se ‘the brute view’. Os defensores desta posição têm que viver com o facto de que não têm qualquer forma de demonstrar que têm razão. E ainda com o facto de que a ‘brute view’ retira aos seus proponentes muitas das razões que justificam na vida dos crentes a atitude de dar a vida pelos outros. Se eu, pessoalmente e como crente, partisse do pressuposto de que incomodar-me, limitar o meu bem-estar, em favor dos outros, ser honesto ou não, etc., é no fundo totalmente indiferente no ‘fim de contas’, isto é, quando termina a vida de justos e injustos, honestos e desonestos, teria certamente mais dificuldade em renunciar a todo o meu bem-estar possível para me dedicar ao bem-estar dos outros. Porque deveria fazê-lo? Se tivesse apenas esta vida, porque não deveria aproveitá-la ao máximo em meu próprio proveito?

7 comentários:

Cisfranco disse...

"Eu acredito que a vida não tem que ter sentido, existe e pronto."

É inacreditável! Mas é assim e pronto, cada cabeça sua sentença.

alfredo dinis disse...

Caro Cisfranco,
não crê então que haja lugar para um debate sobre o tema?

Cisfranco disse...

Pelo contrário! Afinal sempre há um falar e dois entenderes. O que me parece inacreditável é alguém pensar que a vida não deva ter um sentido...

jmaciel disse...

Sustentar “the brute view” não é, de todo, incompatível com atitude altruísta, defesa e prática de valores associados a ser “justo” e “bom”. O ponto reside no facto de ninguém, de facto, limitar o seu bem-estar em favor dos outros. Ao sermos altruístas, mesmo com sacrifício próprio imediato, somos reconfortados psicologicamente. Logo contribuímos para o nosso bem-estar. Este tipo de sentimentos tem raízes nas nossas predisposições mais profundas da nossa mente, codificadas geneticamente e reforçadas pelos valores culturais em que nos desenvolvemos (que a humanidade foi desenvolvendo e reforçando ao longo da história). Eles existem porque ser “bom” contribui para o êxito da espécie. Ou melhor, usando a concepção de Dawkins, os genes que nos levam a ser “bons” têm elevada probabilidade de replicação (por via do êxito da espécie que os aloja).
Esta é, na minha opinião, a origem dos conceitos morais que intuímos. Esta é, também, a razão pela qual, por regra, as pessoas mais egoístas serem também as mais infelizes.
Comentário final: "Eu acredito que a vida não tem que ter sentido, existe e pronto" não é uma afirmação de resignação. Antes pelo contrário! Exprime o assumir de um desafio intelectual: se a vida humana surgiu sem projecto, como explicar algumas das suas características aparentemente contraditórias?

alfredo dinis disse...

Caro João,
Obrigado pelo seu comentário.
A vida humana tem uma dimensão biológica que se faz sentir em todas as suas dimensões, incluindo naturalmente as dimensões ética e religiosa. Mas isso não significa que tudo se resuma ou seja determinado pela biologia. O João também pensa assim, porque refere a influência da cultura em que se nasce. Eu pergunto se não haverá outros factores, que não estão em oposição a estes mas lhes dão um sentido próprio, como é a crença religiosa. O problema da tese de Dawkins é que não nos permite compreender por que razão numa mesma cultura e até num mesmo grupo há pessoas que são altruístas e outras não, e umas mais que outras. É claro que esta questão se levanta também no interior das religiões, mas neste caso a resposta não é biológica nem meramente cultural mas especificamente religiosa: quem viver a religião em profundidade não pode deixar de ser altruísta.

Por outro lado, quando afirma que em geral as pessoas mais egoístas são também as mais infelizes, não sei qual é o seu conceito de felicidade. Essas pessoas podem ter um conceito diferente do seu e sentirem-se felizes se, por exemplo, se dedicarem altruísticamente apenas à sua família.

Estou de acordo consigo em que pessoas não crentes possam ter elevados valores morais. Sem dúvida.

Quanto ao desafio que nos deixou, não sei se em vez de 'sem projecto' quereria dizer 'com projecto'.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

jmaciel disse...

Queria precisamente dizer "sem projecto". O desafio é enfrentado pelos não crentes. Apresento-o para demonstrar a transparência e inquietude de quem afirma "acredito que a vida não tem que ter sentido, existe e pronto". Não é uma posição fácil, porque choca muita gente, como Cisfranco, e não passa de uma crença.

alfredo dinis disse...

Caro João,
Obrigado pelo esclarecimento. Faz todo o sentido. É claro que também para os crentes a afirmação de que há um projecto no universo não deixa de levantar desafios.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis