12 de abril de 2013

.A droga do ecrã.


Invadem-nos as novas tecnologias. Permitem-nos debruçar-nos sobre qualquer cantinho do planeta a qualquer instante, seja através da voz ou por meio de imagens. Tanta tecnologia tão capaz sugere em nós uma espécie de liberdade que não nos acaba de satisfazer completamente. Sempre se pode um pouco mais. Esta liberdade adopta a forma de telemóvel de última geração e de computador quase no bolso, de wireless a discrição ou de meticuloso GPS. Mas esta sensação de liberdade é fictícia, um autêntico engano. A dependência da tal liberdade não pode ser verdadeira liberdade. Diversos ecrãs, de todos os tamanhos e marcas, sequestram os dedos desses homens “livres”. Acelera-se o ímpeto do teclado. Custa viver sem uma mensagem a enviar, sem estar atento ao próximo comentário recebido, sem descarregar aquilo que não urge. Não só entre os mais jovens se detecta uma obsessão pela novidade. Também os mais veteranos preferem adquirir com imediatez aquele gadget informático de que sempre prescindiram. Parece quase irrisória uma existência sem telemóvel no bolso ou sem cabo que conectar à tomada. 
Há longínquas distâncias que estas novas tecnologias estão a conseguir transformar em milímetros, para alegria dos utentes. Porém, há proximidades que estão a converter-se em abismos, para tristeza de familiares e amigos. Quantas vezes se ouve dizer que um recurso tão ambicioso como é Internet possui a capacidade de aproximar tremendamente os que estão mais longe, mas também de afastar radicalmente os que estão mais perto…
Mas não só o espaço físico se vê alterado. Também a relação com o temporal. Convivemos com uma insistente fuga ao momento presente. O agora parece chegar tarde. O imediatamente depois chega de repente e abafa o que estamos a falar. Como é complicado atender a tantas solicitações diferentes: chamadas, mailsactualizações, músicas… Instala-se uma profunda nostalgia na memória, ao tempo que acumulamos ânsia de futuro. Entretanto, todas as horas à frente dum ecrã, gigante ou diminuto, acabam por parecer uma irremediável perda de tempo. Contudo, importantíssima e fundamental perda de tempo.
Socialmente, o bombardeio de tanta tecnologia sofisticada intensifica a exclusão -também informática- dos marginalizados. Aumentam os info-excluídos. Em quantidade e em qualidade. Alarga-se o abismo entre os “desejosos de desenvolver-se” (aqueles adictos aos pixeis)  e os “forçados a desenrascar-se” num ambiente cada vez mais virtual.
Eis o homem, inconscientemente entregue à vontade da máquina com teclas. Eis o resultado deste progresso. Um progresso que produz fragilidade constante perante um software que, embora inventado por outros homens, o ultrapassa. Como é difícil encontrar o uso adequado (e suficiente) às novas tecnologias!
Ocorrem-me três modelos de reacções a tal fenómeno diariamente inevitável. Estão os fanáticos, descaradamente adictos do ecrã. Estão os resistentes, peritos em evitar o contágio por parte destas tendências abusivas.  E estão, por fim, os que, simplesmente, se safam no que se refere às novas tecnologias, a base de nadar desaforadamente neste oceano de teclas, baterias e contactos, para se não afogarem com as ondas provocados pelo passo deste transatlântico contemporâneo chamado “informática”.
A vida dos pormenores, a real (aquela que sempre foi não virtual), vê-se afectada  e lamenta-se.     “Ponto e final”, desligo o meu computador.

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