3 de abril de 2013

.A Salvação é que salva.



Há palavras que todo o homem sensato pretende esquivar. Uma delas é “salvação”. Não só resulta incómoda, como faz tremer. Embora esteja cheia de conotações positivas, a sua simples pronúncia provoca tais arrepios, que mudar de conversa imediatamente parece o único recurso possível para regressar à sensatez. E não é o conteúdo de tal salvação o que nos assusta, mas sim a completa ignorância acerca de como acontecerá. Não é, portanto, o fundo de tal “evento” o que nos faz tremer, mas sim a forma como se produzirá. A eternidade é uma ameaça que não cala na mentalidade do homem vivo. Os filósofos não estão isentos de tal inquietação, pois aparece com frequência em todos eles a temática da salvação. Crentes e ateus improvisam explicações para essa situação transumana que nos espera a todos, irremediavelmente, após a última espiração. A expiração definitiva resolverá duma vez por todas essa intriga que amordaça a paz do filósofo. Mas, enquanto não chega, a imaginação é hábil para elaborar todo o tipo de encenações. O papel da religião? “É uma doença opcional”, respondem resignadamente alguns. Podemos recorrer a ela, sim, mas não devemos obrigar os outros a fazer o mesmo. Trata-se apenas duma maneira de prognosticar anseios de salvação. Visto desta maneira, a religião, desde a clandestinidade do secularismo, parece continuar a ser uma questão de saúde pública. Há quem defenda, até, que “o mal da Igreja é que o cristianismo se tornou uma religião”.
Mas estas discussões são tão puramente banais que em pouco ou nada afectarão à salvação, signifique ela o que significar. O que parece evidente, embora nem sempre assim seja aceite, é que a salvação não depende de nós. Não podemos promete-no-la. Não se pode comprar porque ninguém no-la vende. Dificilmente poderemos sequer descrevê-la, pois a sua “definição explicativa” escapa a todo o léxico humano. A salvação ultrapassa as nossas capacidades, começando pelo vocabulário e o entendimento. Mas é que também não decidimos nascer! É a miséria humana perante o mistério. A sofreguidão do ser humano deve-se a este seu sentir-se incapaz e ignorante face ao depois. Por isso, enquanto continuar este agora, convém muito não inventarmos salvações. 

Entretanto, contemplemos esta Ressurreição! 
Aprende-a! (Não com a memória, mas com o coração)
Apreende-a! (Não com as mãos, mas com o todo que és)

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