10 de abril de 2013

As flores desenraizadas – comentário ao texto Ética e Política de Paul Ricoeur I


"AKI9012" / Pascal Fessler

Onde procuramos o sentido?
Encontramo-nos num paradoxo económico-existencial: o indivíduo é empurrado para um modelo centrado no desenvolvimento tecnológico, na satisfação de metas quantificadas, demonstrativo de uma aposta clara na eficiência. Desta forma, assistimos à diluição do trabalho em tarefas a cumprir, esvaziando assim o horizonte de sentido ao nos quedarmos por um objetivo único: alcançar prosperidade económica, ponto que pretende servir de ponto de partida na acumulação de riqueza, balizados somente pelo que tem valor numa escala de repercussão monetária.
Vivemos para um esforço segmentado do coletivo, em que cada um apenas entra em contato com a parte que lhe corresponde, separando indivíduo do fruto. Fazemo-lo num entendimento eloquente sobre o papel que cada um desempenha, mas ao aliená-lo da verificação desse fruto votamo-lo a ter como referencial único o objetivo imediato inerente à função, o cumprimento do rácio ou a aferição por medidores numéricos de desempenho: existe-se somente para o resultado. Tudo está quantificado e parcelado e o resultado deixa de ser produto e passa a ser tarefa cumprida, não existindo valor além do número e do percentual. O indivíduo vai perdendo do seu escopo uma linha de sentido, de significado além do cumprimento de função.
A necessidade da humanidade de colocar a natureza ao seu serviço, em vez de a sofrer, a luta contra a natureza, tem sido marca da nossa evolução, uma apetência racional a usufruir do que nos rodeia da forma mais eficiente possível, reduzindo a nossa atividade à frieza da técnica. O peso que este embate tem nos nossos dias é grande, podendo isto ser facilmente constatado recorrendo aos nossos noticiários: o seu lugar de destaque, o fascínio que exerce sobre nós, leva Ricoeur a constatar que, inclusive, a sociedade se organiza para sacralizar a luta contra a natureza.
Onde procuramos, então, o sentido? Outrora, encontraríamos experiências atributivas de sentido nos frutos do trabalho, na constituição de família, na posse da terra, pedaço de realidade ao nosso alcance e do nosso labor; hoje, são paradigmas caídos, toscamente enlameados à laia de menção romântica ou citação causticamente saudosista. A voraz velocidade e precipitação do agora, a satisfação do apetite, impõe-se como o único valor a ter em conta: um estômago cheio é o grande aferidor de qualidade.
Ricoeur diz-nos que é no lazer que nos lançamos em demanda do sentido: deixámos de ser seres públicos, vivendo para celebrar a vida ao ritmo da comunidade em que estamos inseridos e ao sabor das estações, para, ao invés, valorizar cada vez mais as nossas – e as dos que nos são próximos – experiências de congratulação. Em alternativa a festejar os esforços comunitários e os frutos desses investimentos, dedicamo-nos à celebração da dimensão egoica: em vez das colheitas, festejamos a entrega da tese; em vez de festejar as sementeiras, festejamos a promoção; em vez de celebrar a chegada da Primavera, fugimos para um fim de semana sem ninguém a incomodar-nos, mas querendo mostrar a todos e a toda a hora o local onde estamos “sozinhos”. Queremos que a comunidade se alegre com o feito individual, estando ao mesmo tempo indisponíveis para nos alegrarmos com ela e por ela.
Tudo o que até agora elencámos pode ser motivo legítimo de celebração ou de valorização. O fator pernicioso não reside em cada uma das situações, mas na eliminação do comunitário, da noção de outro. Ao não ter a capacidade de nos alegrarmos em conjunto, ameaçamos perder-nos na frustração de não mais sermos capazes de nos alegrar: uma alegria insuscetível de ser compartida está em estado de incompletude, não chega a ser.
Privatizámos a experiência de existir, procurando a felicidade no escuro recanto de uma enfadonha vida íntima, enfado por demais evidente pela necessidade em o escamotear com provas fatuais do não-interesse das nossas vivências, como réus a quem ninguém mais acusa para além da própria consciência da vacuidade. Fotos das férias em encadernações de luxo, onde ensaiamos sorrisos ad nauseam; bilhetes de concertos cuidadosamente plastificados e, com um pouco de empenho, com o autógrafo do artista em questão; perfis virtuais atualizados ao minuto para dar uma ideia de movimento incessante, demonstração incontestável de atenção disponibilizada por outros à nossa vida. Tudo fumo, numa experiência hermética de autossuficiência.

Sem comentários: