23 de abril de 2013

.Uma universalidade mais local.



O ser humano, enquanto vive, está forçosamente sujeito a um espaço e a um tempo. Nunca existiu quem pudesse habitar dois lugares ao mesmo tempo. Nunca existiu quem conhecesse duas épocas diferentes à volta do mesmo espaço concreto. Bastem os dois seguintes exemplos, embora relativamente caricatos: “Nenhum homem tomou chã no mesmo minuto na Estónia e no Bangladesh”. “Nenhuma mulher napolitana viveu no Império Romano e na Itália de Berlusconi no mesmo instante”. Tempo e espaço governam-nos. Nascemos numa época e numa região determinada. É o nosso contexto vital, as nossas coordenadas humanas. E, ainda que possamos alterá-las consoante às circunstâncias, não podemos fugir a elas. Sentimo-nos forçosamente sujeitos a um tempo e a um espaço. Porém, hoje mais do que nunca, o ser humano está convidado a experimentar o universal no local. Mas, como participar activamente dum sentimento de universalidade sem poder prescindir da passividade do local concreto? “O universal no local” e “o local para o universal” procuram a sua concretização real na vida real de cada indivíduo. Mas encontrar um equilibrado termo médio, que satisfaça a ambos os extremos, nem sempre é tarefa fácil. Isto acontece, em parte, porque a inabarcabilidade do Universo -com maiúscula- remete, empurrando-nos, para os múltiplos universos particulares (casa, faculdade, trabalho, escola, rua…) Mundos diminutos, ambientes restritos, espaços limitados, contextos definidos… Locais tendencialmente fechados que se usufruem avidamente com cariz marcadamente pessoal. Fora desse entorno, no qual (por regra geral) preferimos instalar-nos, existe um autêntico universo de possibilidades, uma fonte insaciável de ocasiões, uma sedução perante o desconhecido difícil de ser plenamente saciada…
A Vida do Universo, representada nesta sugestiva noção de universalidade, promete sabor e saber a todo aquele que se atrever a sair da sua porção espacial e temporal, do seu “local”. Contudo, sobram romanticismos vazios e ilusões de grandiosidade, pois é nesse local, ou nesse outro mais ali (ou naquele outro do teu vizinho), que cada um é convidado –e necessitado- de desenvolver as suas capacidades vitais. O reduzido mundo do local, o local de cada um, merece a nossa atenção e dedicação constante e fiel, nem que seja por um profundíssimo sentimento de responsabilidade e de coerência. Não respiraria este mundo com mais alívio se todos os seus habitantes se empenharam com tais responsabilidade e coerência no pedaço de terra e de anos que lhes é oferecido viver? Mas, não seria convívio planetário de maior e melhor qualidade e agrado se todos ganhassem e praticassem um pouco de aquele espírito de universalidade já referido? Treinar a universalidade não é tanto uma concretização exterior, mas uma disponibilidade interior. Está demonstrado que não basta mudar de país para ser universal, é preciso começar a ser universal sem sair sequer do bairro. Esta escolha, consciente e constante, começa por alargar o universo das relações, dos gostos, dos conhecimentos… sem cair em regionalismos, absolutismos ou desprezos fáceis e baratos.
Lembro-me (“agora” e “aqui”) de Ulisses e Colombo (ambos viveram no seu “então” e “ali”). Percorreram o mundo, sim, mas não foram universais senão a partir do seu relato ou descoberta posterior. Teresinha de Lisieux ou o santo Afonso Rodrigues, jesuíta, foram porém universais, tremendamente universais, mesmo sem apenas ter saído do seu convento ou portaria.
O universal treina-se no local, pois o local é mestre da pertença universal.

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