21 de maio de 2013

.À medida da relação.


O ser humano é em relação. Só em relação é humana a pessoa. Porém, esta vocação de relação mal desenvolvida pode dar cabo da pessoa. Aliás, desajustes relacionais de todo o género são causadores de densas insatisfações na biografia de muitas pessoas. Não se trata aqui apenas duma questão de traumas infantis ou de carências afectivas durante a adolescência, mas também de desatenções na idade adulta ou abandonos até durante a Terceira Idade.  Ser em relação não é fácil, mas é que só em relação somos. Por isso, quem fugir a esta condição humana, tão diária como necessária, é logo considerado de louco, de anti-social ou, no melhor dos casos, de “bicho do mato”. Deixemos de lado o isolamento patológico dos autistas, por ser esta um tipo de doença psiquiátrica bastante mais complexa.
Mas regressemos à “normalidade”pressuposta em qualquer individuo em sociedade. Não há quem não conheça muita gente (e aqui, cada um tem plena liberdade para limitar o alargar a lista de nomes tanto como quiser, pudendo preencher para tal efeito tantas folhas como precisar). Muita gente compõe o círculo –espiral, mais bem- de conhecidos de cada um. Entram amigos e familiares, mas também simples conhecidos ou “contactos”. Os inimigos também, caso os houver. É um facto universalmente constatado que nem todas as relações são iguais. Mas é que não o têm que ser. Existem as simpatias espontâneas, mas também as antipatias imediatas. O intrincado mundo das projecções afectivas consente a amizade num só minuto e condena a inimizade durante uma vida inteira. Há entendimentos não improvisados e ódios automáticos. Como é rico e variado o fenómeno da relacionabilidade dum só homem ou mulher para com outras tantas centenas de homens e mulheres (milhares, tal vez) com quem entrará em contacto directo ao menos uma vez na sua vida! Mas como relacionarmo-nos com essa relação? Uma determinada relação presta-se à relacionabilidade também por parte dos sujeitos. Um “eu” qualquer conhece um determinado “tu” e, entre eles, estabelece-se logo uma relação, seja cinzenta ou às cores, não interessa. Defendo aqui que cada relação humana estabelece três vínculos: um entre o “eu” e o “tu”, outra entre o “eu” e a relação estabelecida entre esse “eu” e esse “tu”, e outra entre o “tu” e a relação estabelecida entre esse “tu” e esse “eu”. Desta maneira, o facto de o “eu” e o “tu” estarem atentos à qualidade dessa relação só pode conferir qualidade à relação entre eles. Não a torna instantaneamente boa, mas não a permite ser má.

É disto de que falamos quando, instintivamente, propomos cuidar uma relação. As relações necessitam cuidado. Cuidar duma relação é um investimento maravilhoso. Dar atenção e cuidado a uma relação é diferente –e possivelmente muito mais (complicado e sensível)- do que atender e cuidar uma pessoa. Requer-se muita sensibilidade interna, dessa que se vai treinando e adquirindo aos poucos graças à paciência insistente do sujeito, para elaborar relações duradoiras e férteis. A modo de dica posso dizer que um bom sintoma de maturidade relacional é aprender a medir (a pesar, a considerar…) a qualidade duma relação para a não estragar (de mais) se for tensa, ou para obter dela o máximo rendimento se for saudável.
Não se trata de dividir o mundo entre amigos e inimigos, mas de ganhar essa sabedoria relacional que permita ser próximo de todos, com prudência, com sensatez e sem desistir. A castidade compreende perfeitamente o valor desta inteligência relacional. Contudo, quem buscar a igualdade no mundo das relações choca de frente com a cruel realidade, mas quem descobrir a necessidade desta aprendizagem ir-se-á tornando mais e mais coerente, mais livre, mais apostólico e, em consequência, mais feliz. Pretendo apenas resumir esta ideia no convite de “nos fazermos do tamanho de certa relação para assim a fazer crescer em qualidade”. Esta é a fundamental importância (e nem sempre evidente) da relação estabelecida com a relação. Se não a temos em conta, emerge e morde a vulnerabilidade do sujeito lançado em relação.

Sem comentários: