22 de maio de 2013

Das cartas



Hoje faz doze dias que me prenderam. Dou muitas graças a Nosso Senhor, pois me tem dado uma quietação tão grande que não há coisa que mais deseje que o estado em que estou, preso por amor de Deus. Da hora em que me prenderam me não lembra senão ver-me em uma cruz ou debaixo da catana. Bendito seja o Senhor, que assim consola aqueles que por seu amor padecem.

Nunca entendi a eficácia das palavras da Escritura e a força espiritual que dão, senão depois de me ver neste estado. E assim toda a força do Império do Mundo me parece menor que a do mínimo bicho da terra. Bem entendo que nisto não entro nada; tudo é de Nosso Senhor, e por Ele e com Ele hei-de pelejar até ao fim, e assim me pesará não poder ter ocasião de padecer muito por seu amor.

Haverá quarenta dias me trata muito mal uma dor e, por este lugar ser um sapal, me tem carregado tanto que nem de dia nem de noite tenho repouso algum. Tenho-a a grande mercê de Deus Nosso Senhor, pois já que me não dá tormentos, receberei estes, que se chegam muito aos da morte, de sua divina mão. Razão é que padeça alguma coisa, pois é tempo e lugar de alcançar algum merecimento.

Nosso Senhor tem os intentos que nós não alcançamos. Pois a causa é sua. Ele disporá as coisas de modo que aquilo que for melhor, assim para nossas almas como para a cristandade, se faça. Pelo que, estou muito contente com minha sorte e Lhe dou muitas graças por Se lembrar de mim, dando-me, por sua grande bondade, um ânimo, que todos os trabalhos e tormentos do mundo parecem poucos.

João Baptista Machado nasceu em 1581 nos Açores. Entrou na Companhia de Jesus em 1597 e chegou ao Japão em 1609. Viveu na clandestinidade de 1614 a 1617.

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